Guerra à Guerra

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A islamofobia, a par das desigualdades, é a gasolina que a Europa vai queimar nos próximos tempos, e ninguém de pleno juízo se atreve a fazer grandes prognósticos. Os fóbicos apressam-se a espalhar o medo, sem perceberem que estão a disseminar os comportamentos que dele nascem, e nada contribuem para que a humanidade se entenda como um todo. Quando me perguntam sobre as soluções só encontro duas respostas: políticas de integração e o fim da ingerência. O reconhecimento da nacionalidade aos que optaram por mudar de país, a universalidade no acesso aos serviços públicos, ladeados da retirada unilateral de todos os países onde a NATO (ou os exércitos que dela fazem parte) onde quer que estejam instalados, a libertação dos presos políticos e desmantelamento de todas as prisões militares, era seguramente uma receita melhor para a pacificação da Europa do que o entrincheiramento a que temos vindo a assistir passivamente. A par disso, o reconhecimento unilateral da Palestina (mas também do Kurdistão ou do Sahara Ocidental), o fim dos colonatos e o bloqueio político e económico a Israel, seriam actos concretos para contrariar o caminho da guerra para a qual estão empurrar “as civilizações”. O que estamos a colher é o resultado de décadas de políticas criminosas. São os frutos da Europa fortaleza que, sobretudo fora de portas, se continua a comportar como cruzados e a olhar para o outro lado do mediterrâneo como se  ainda estivesse em guerra com os Otomanos. Se não devemos ter nenhuma tolerância etnocêntrica com a barbárie do ISIS, devemos saber que este fenómeno é o filho prodígio da CIA, da Mossad e das demais organizações criminosas que agem sob a capa da legalidade, e são produto das suas maquinações estratégico-financeiras levadas a cabo debaixo dos tabuleiros das nações, com a complacência, e não raras vezes a colaboração, dos corredores diplomáticos e da generalidade das instituições políticas.

Ler o artigo da Maria João Marques que aqui foi criticado é um bom exercício para se perceber a dimensão dos equívocos e, pior ainda, dos disparates que se preparam para o Futuro de um continente que depois de ter exportado a guerra para os quatro cantos do mundo já a vive em quase todas as suas grandes cidades. O crescimento da extrema-direita, a par do reforço dos partidos que nos conduziram até ao actual estado de coisas (excepção, talvez, no Estado Espanhol e na Grécia), vai fazer com que a barbárie chegue bem mais cedo daquilo que se esperava. O que hoje é o quotidiano de um magrebino nos países do norte é insuportável e ele é perpetuado pelo regime político para que este continue a alimentar a fornalha de um modelo económico esgotado que não vive sem mão de obra que esteja disposta a trabalhar no limiar da escravatura. Boaventura Sousa Santos está longe de ser exagerado quando nos fala da terceira guerra mundial em curso, antecedida também por uma espécie de guerra fria.

A civilização é só uma pelo que não faz nenhum sentido conjugá-la. O caminho que se está a fazer – e bem se percebe com a cavalgadura que os oportunistas fizeram do atentado contra Charlie Hebdo – vai agravar o problema e fazer da vida da esmagadora maioria das pessoas um inferno que ninguém quer viver. Quem anda a alimentar a roleta do ódio, quase sempre com os olhos postos mais nos negócios do que na identidade (seja lá o que isso significa), devia perceber que não estão preparados para lidar com um exército de gente que foi despojada de tudo e não tem nada a perder.

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