Girls gone wild, west and black (Parte III)

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A modelo Buriteri, ícone do estilo ganguro, posando na revista Egg.

Na primeira e segunda parte deste post, trilhámos uma genealogia da equivalência entre delinquência sexual e delinquência racial no conceito moderno de shoujo (“jovem rapariga”), desde a school girl da Era Meiji até às kogyaru nos anos 90, passando pelas moga nos anos 20 e 30 e as prostitutas pan pan no pós-guerra. Nesta terceira e última parte, retomamos onde deixámos – as kogyaru –, para assistirmos à sua mutação extrema nos estilos ganguro e yamamba.

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Kogyaru com “cara negra,” ou ganguro.

Em “The History of Gyaru”, David Marx (2012) observa que “em finais dos anos 90, a subcultura kogyaru original, de delinquentes dos liceus privados de Tóquio, espalhou-se de repente a quase todas as raparigas adolescentes japonesas – quer no estilo, quer na linguagem”. Esta difusão massiva foi o resultado de todo um cocktail de factores: desde o estabelecimento do grande armazém Shibuya 109 como Meca da moda gyaru, tornando o estilo acessível a uma clientela mais vasta de classe média, média-baixa e suburbana; até ao aparecimento de estrelas pop associadas ao gyaru, como a cantora Namie Amuro; passando pela popularização de revistas gyaru de cunho lowbrow como a mítica Egg (extinta recentemente, em 2014), com how-to guides para estilos cada vez mais extremos; e a propagação da subcultura a zonas de Tóquio fora de Shibuya, como Ikebukuro e certas zonas de Shinjuku.

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Edifício do grande armazém Sibuya 109 em Tóquio.

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Esquerda: capa do primeiro disco de Namie Amuro, Original Tracks Vol.1 (1996). Direita: capa do primeiro número da revista Egg (1995).

Com esta “mainstreamização”, a subcultura gyaru tornou-se o palco de uma inesperada luta de classes. De um lado, as miúdas dos colégios privados (e suas wannabes) com chapatsu e peles douradas, que continuavam a alimentar as fantasias sexuais das revistas masculinas (o chamado “Shibuya-kei“, ou “estilo de Shibuya”). Do outro, uma nova vaga de raparigas que, para horror geral (e, em particular, das ditas revistas masculinas), faziam questão de torrar a pele em solários e usar bases negras até conseguirem uma perfeita blackface (o “Kamata-kei”, ou “estilo de Kamata”, referindo-se a uma área menos abastada da capital japonesa).

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Capa do livro Shibuya-kei vs. Kamata-kei (1997), de Hironobu Baba, um dos primeiros trabalhos sobre a “luta de classes” na cultura gyaru dos anos 90.

Estas últimas eram delinquentes e dropouts da classe operária e bairros suburbanos de Tóquio – ou seja, de origem yankii, uma subcultura tradicionalmente androcêntrica –, que reformularam o gyaru à medida dos seus valores de ostensiva revolta contra a sociedade. “Extremismo” tornou-se a palavra de ordem, um move necessário agora que o decadentismo endinheirado das kogyaru originais tinha sido absorvido pelo mainstream e abundavam salaryman em Shibuya, atraídos pela promessa do enjo kousai. É neste contexto de declínio do kogyaru que ascende, na viragem do século, a mais escandalosa encarnação do gyaru até à data: o ganguro (“caras negras”) e, na sua ponta mais extrema, as yamamba (“bruxas”).

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A blackface do visual ganguro.

Para além da pele negra, o visual ganguro completava-se com cabelos descolorados e platinados com madeixas (chamados messhu, do francês mèche), maquilhagem branca sobre os olhos e lábios, longas pestanas falsas revestidas por camadas espessas de rímel e botas de plataforma absurdamente altas, projectando uma imagem agressiva e um bravado em tudo contrário à aparência cutesy-sexy das kogyaru. Mais do que impressionar rapazes, o gyaru tornou-se sobre impressionar outras raparigas, numa competição interna em que elas se copiavam entre si, com pouca ou nenhuma consideração pela libido masculina.

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Postura agressiva de uma yamamba.

Como se isso não bastasse, as yamamba – uma referência paródica às bruxas de montanha do folclore japonês e do teatro Noh – conseguiram ser ainda mais outrageous: acrescentaram autocolantes kawaii e purpurinas nas bochechas, pinturas de rosto tribais (as infamous riscas brancas no nariz), roupas fosforescentes e metalizadas, cabelos hirsutos com extensões cor de arco-íris, flores tropicais de plástico, colares étnicos, lentes de contacto coloridas, nail art com ornamentos miniaturizados híper-complexos, tatuagens temporárias, chapéus de cowboy, enfim, todo um getup garrido em que os significantes ocidentais eram ampliados e distorcidos beyond recognition. Marx (2012) sintetiza na perfeição quando diz que “se o ganguro estava a levar os aspectos naturais do estilo surfista para extremos não-naturais, o yamamba era toda uma máscara com quase nenhuma relação com o estilo mainstream”.

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Esquerda: representação de uma yamamba no teatro Noh. Direita: a yamamba enquanto street fashion.

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Grupo de yamamba, trajadas a rigor, “aterrorizam” Shibuya.

Com o ganguro e yamamba, a hostilidade face às gyaru atingiu um pico. Como sugere Sharon Kinsella (2005), a arena mediática tornou-se não só terreno fértil para manifestações de uma longa lista de preconceitos raciais e xenófobos latentes, como para o reemergir de uma tendência – enraizada na produção intelectual nipónica – de dissolução da sociologia feminina numa ideia de “etnicidade feminina”, muitas vezes acompanhada pela adopção jocosa de um léxico pseudocientífico e para-antropológico. Esbatendo os contornos entre diferença de género e diferença racial, o seu estilo de vida dito “primitivo” foi articulado como, literalmente, uma nova raça indígena de Shibuya, fruto da decadência dos costumes japoneses e aculturação pelos povos latinos, ciganos e africanos.

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Uma “indígena” das ruas de Shibuya.

É justo ressalvar, contudo, que as próprias raparigas procuraram uma aproximação a esta identidade abjecta mais do que uma qualquer dinâmica transculturalista. Tal como a estética sunny California esteve nas origens do paragyaru (“paradise gals”) no início dos anos 90 (motivada pela popularidade global de séries como o Baywatch), a referência mais próxima para as ganguro e yamamba no imaginário mediático japonês era o popular Adamo-chan – caricatura racista de um aborígene criada pelo comediante Toshiro Shimazaki, em 1985 –, frequentemente citado como inspiração para a típica maquilhagem branca.

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Adamo-chan (esquerda) como origem da maquilhagem branca das ganguro e yamamba (direita).

Em entrevista a Jonathan Ross, na série documental Japanorama, duas yamamba referem a influência de Adamo-chan.

Nos media, assistiu-se também à repetição exaustiva da ideia de que as ganguro e yamamba eram feias, sujas e estúpidas e, como tal, impróprias para “consumo”. Em programas de variedades, grupos de pivots enxovalhavam as raparigas, comentando, na melhor das hipóteses, como era um desperdício (“sem maquilhagem vocês até são giras…”) ou, na pior, decretando-as simplesmente incompatíveis com o sexo feminino (“És um travesti? É que pareces ter aí uma barba por fazer!”). Em qualquer dos casos, a mensagem era simples: nenhuma delas iria conhecer o seu futuro marido naquele estado. Subjacente a estas afirmações, espreitava o fantasma da agenda etnocêntrica cultivada pelas autoridades japonesas durante grande parte do século XX (com o seu cúmulo nas prostitutas pan pan no pós-guerra), segundo a qual a função reprodutora e a maternidade deveriam estar reservadas às raparigas de puro-sangue nipónico.

Exemplos da recepção negativa às yamamba nos media mainstream.

Ironicamente, como nota Marx, o extremismo das ganguro e yamamba levou a que fossem descartadas como simples outcasts, dissipando em larga medida o pânico da era kogyaru, “quando toda a gente estava preocupada com as filhas das boas famílias se afogarem na ambiguidade moral dos anos da Bolha” (Marx 2012). Inacomodáveis dentro dos limites normativos do género e etnicidade japoneses, estigmatizadas como delinquentes antissociais de classe baixa, as gyaru milenais habitaram um espaço de abjecção e tabu em que o sexo, a raça e a classe se miscigenavam nas margens exteriores da ordem social. O surgimento do termo “gyanimal” para descrevê-las (contracção de “gyaru” e “animal”) é uma entre muitas instâncias visíveis desta desumanização em favor de um estatuto animalizado, que as ganguro e yamamba (fieis à sua reputação de bad girls) pouco fizeram para desmistificar. Antes, a animalização era precisamente a questão – o crítico cultural Hiroki Azuma (2009) compara-as a outra subcultura “abjecta” da pós-modernidade japonesa, os otaku –, e as raparigas escolheram rolar com essa bola.

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Gyanimals: as ganguro e yamamba incorporaram na sua indumentária os chamados kigurumi, i.e. pijamas de corpo inteiro representando animais ou personagens de desenhos animados.

Em revistas como a Egg, as “caras negras” mais populares, como a icónica modelo Buriteri, parecem estar 24/7 em modo de party girl desvairada, numa espécie de spring break eterno em que a boca é usada menos para falar do que para produzir sorrisos histéricos e caretas grosseiras para a câmara. A adopção do hipnótico Para Para como dança gyaru par excellence, com movimentos sincronizados aos ritmos frenéticos do Eurobeat, hiper techno e trance, é bem exemplificativa desta “ideologia ganguro“.

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Buriteri numa capa da revista Egg.

Excerto sobre o Para Para no Japanorama.

Com o aparecimento de casos extremos como as ogyaru (“o,” neste caso, significa “sujo”) – uma facção restrita de ganguro e yamamba que festejavam toda a noite, viviam nas ruas, usavam marcadores para pintarem as sobrancelhas e, diz-se, “não tomavam banho, lavavam os dentes ou mudavam de roupa interior” (Marx 2012) –, o conceito de “gyaru” fundiu-se de forma literal com a degradação e sujidade que caracteriza os estados abjectos. Num programa de televisão coevo, os apresentadores visitavam o apartamento de umas ogyaru, relatando toda a porcaria que encontravam: desde iogurtes podres no frigorífico (ao ponto de se tornarem uma “massa negra com consistência de borracha”), passando pelo banho de leite usado na banheira misturado com restos de óleo bronzeador, até ao furão doméstico perdido no meio do lixo num quarto há mais de três dias. Tal componente escatológica e grotesca, de degradação corpórea e espiritual, é um subtexto global que as ganguro e yamamba de alguma forma abraçaram, como estilo de vida feérico, trashy e elegíaco destas material girls no ocaso da civilização.

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Esquerda: uma ogyaru entrevistada para a televisão. Direita: o estilo de vida hobo associado à subcultura ganguro e yamamba.

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Exemplo de look escatológico numa revista ganguro.

É claro que, com tais desenvolvimentos, o estilo tronou-se cada vez menos apelativo para a girl next door que não estivesse disposta a cometer suicídio social (à semelhança das Harakiri School Girls de Makoto Aida), acabando por restar apenas uma mão cheia de praticantes hardcore nas ruas de Shibuya.

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Uma “bruxa” na multidão.

É certo que, com o declínio das “caras negras” e das “bruxas”, as gyaru regressaram, circa 2005, à whiteness e imagem de feminilidade mais glamorosa, sexy e normativa de estilos como o agejou, o koakuma, o himegyaru ou o oneegyaru (curiosamente, ao mesmo tempo que o chamado “síndroma do celibato” se torna uma realidade cada vez mais palpável na sociedade japonesa). Ainda assim, desde a rapariga-estudante da Era Meiji à moga dos anos 20, passando pelas prostitutas pan pan no pós-guerra e subculturas kogyaro, ganguro e yamamba na década de 90 e anos 2000, é claro como numa certa linhagem de shoujo se têm interlaçado (e negociado) tensões e ansiedades complexas em relação aos papéis de género, à raça, à classe e à decadência moral de sucessivas gerações de jovens no Japão moderno e pós-moderno.

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BIBLIOGRAFIA

Azuma, Hiroki. 2009. Otaku: Japan’s Database Animals. Minneapolis: University of Minnesota Press.

Kinsella, Sharon. 2005. “Black faces, witches and racism agaisnt girls“. In Bad Girls of Japan, edited by Laura Miller, and Jan Bardsley, 143-158. Nova Iorque: Palgrave Macmillan.

Marx, W. David. 2012. “The History of Gyaru.” Néojaponisme. Acedido18 Janeiro, 2015.

Williams, Olivia.”Gyaru.” Anomalynn. Acedido18 Janeiro, 2015.

Gyaru Wiki. Acedido18 Janeiro, 2015. http://gyaru.wikia.com/wiki/Main_Page

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About ɳek✿usagi✞aɲ

Nekousagitan nasceu em Lisboa e é demasiado velha para andar a fazer bonecos e a ver desenhos animados. De dia, está a tirar um doutoramento em Pintura na FBAUL. Quando o sol se põe, faz parte do colectivo de zines Clube do Inferno (para compensar). Quando for grande, o seu sonho é ter uma dakimakura.

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