Obituário do “Juntos Podemos”

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“Obituário” de Herbert Baglione

Há epílogos tão precoces que se sobrepõe aos  prelúdios, mesmo que bem intencionados. Porque gosto pouco de oportunistasfarsantes da realidade, deixarei em poucas linhas a história do “Juntos Podemos”, rio que infelizmente secou antes mesmo de desaguar.

Tudo começou à beira de uma mesa de café onde, em amena conversa, a Paula Gil (que entretanto também já disse o que pensa de tudo isto), o Sérgio Vitorino (que se afastou logo depois do debate da Barraca) e eu aventamos a hipótese de trazer a Portugal gente do Podemos, de forma a que o entusiasmo que por cá se começava a sentir pudesse não só conhecer o fenómeno com relatos na primeira pessoa como, eventualmente, ver que vontades se juntariam à volta de uma mesa para o efeito.

Começou por correr bem. Apesar de nenhuma das três pessoas ali sentadas ter alguma vez pertencido à mesma corrente política e de não poucas vezes terem tido opiniões muito diferentes sobre o estado do tempo, a verdade é que rapidamente se conseguiu construir um mosaico de gentes e de vontades em sintonia com aqueles objectivos, algo que permitiu organizar, com o sucesso conhecido, o debate com o Jesus Jurado, o Hector Grad e o José Copete.

Face ao sucesso o grupo continuou. Organizou-se na rede sob o mote: Podemos Falar. Este grupo fundador, agora alargado a todos os que queriam testar no terreno as possibilidades organizativas que estavam em aberto, fez um roteiro de reuniões, sempre abertas, com o objectivo de organizar a primeira Assembleia Cidadã em Portugal, que acabou por se realizar a 14 de Dezembro.

No Podemos Falar confluiu gente com muitas origens políticas e organizativas. Com e sem trajectória partidária. Dos movimentos sociais e também dos sindicatos. Era, inquestionavelmente, um bom ponto de partida onde ninguém procurou, por via dos métodos da velha política, tomar conta nem dos outros nem do processo.

Com o aproximar da Assembleia Cidadã, e o frenesim que ela criou, as velhas raposas começaram a afiar as unhas. O MAS, que entretanto tinha começado a aparecer nas reuniões abertas a anunciar que tinha mudado de posição (ao contrário da sua corrente irmã no Estado Espanhol que sempre combateu o Podemos), foi deixando claro que estava ali para tentar tomar conta do processo. Se nas reuniões as começaram por ser mansas, rapidamente o verniz estalou quando a Joana Amaral Dias denunciou, primeiro em particular e depois em grupo, uma tentativa do MAS, por via da sua figura pública, o Gil Garcia, de realizar um protocolo de liderança onde a futura direcção seria dividida por três. A saber: o MAS, a Joana Amaral Dias e o Nuno Ramos de Almeida. Face à recusa dos segundos e ao fracasso do negócio sugerido pelo MAS, o processo avançou e, na Assembleia Cidadã, não obstante o comportamento musculado da referida corrente e da prévia tentativa de cooptação palaciana, a proposta unitária continuou a incluir três militantes seus na Comissão Dinamizadora.

Um dia depois da Assembleia Cidadã o MAS decide lançar o seu comunicado de anexação, como passou a ser carinhosamente chamado. Confrontados com isso, a par das sistemáticas provocações dos membros do MAS na dinamizadora (um deles chegou a provocar o Carlos Antunes de que tomariam conta daquilo quando bem entendessem) havia duas opções. Ou se alinhava numa farsa ou se concluía que com o eucalipto do MAS tal processo estaria irremediavelmente condenado. O comunicado final e a dissolução da Comissão Dinamizadora, sobre esse aspecto, falam por si.

O resto é o que se sabe. O MAS, isolado no baralho, avançou para o João Labrincha (que até à Assembleia a única coisa que fez pelo movimento tinha sido este ataque), e com mais um par de amigos mais ou menos esclarecidos sobre o processo, tem alimentado a fábula de que são os salvadores do projecto depois de terem sido os seus carrascos. Que a culpa é do PCP e do BE (que não escreveram comunicado nenhum nem agiram de forma centralizada), que a culpa é dos que não têm pressa para mudar o mundo… que o povo não pode mais esperar pela sua nova “Alternativa”… Enfim, um sem fim de mistificações que, espero, vão ser medidas em votos já nas próximas eleições.

Juntos dizem que podem mas não é provável que possam grande coisa. Mesmo que usurpando um processo que foi fruto de um trabalho colectivo e que colectivamente se dissolveu. Juntos dizem que isto não é o da Joana para passar a ser do João Labrincha e do Gil Garcia. Juntos dizem que o problema foi de quem queria travar a construção de um partido quando boa parte dos que motivaram a dissolução, entre outras coisas que desdenham (como a construção de base e o amadurecimento programático) é também um partido que querem. O MAS, que não entende que a política é mais do que uma questão de toponímia, vai fazer o seu rebranding passando por cima de quase todos, fiel à sua tradição de destruir tudo aquilo que possa colocar em causa a sua inenarrável direcção.

A doce ironia é que tudo isto acabe com um partido que nasce controlado por outro, em cima de um acordo de cúpula decidido na sede do MAS que usurpou um processo colectivo e que vai brandir, aos sete ventos, a ideia da cidadania. Esperemos que a irresponsabilidade destes senhores não nos leve a mais uma década de orfandade organizativa e, mais cedo que tarde, nasçam alternativas que, para começo de conversa, não abram mão de pelo menos ser autênticas. Farei por isso.

NOTAS: 1 – A Rubra,  colectivo com quem me organizo, já explicou também porque razão se afasta a partir de agora do que quer que se faça em nome do curto espólio deste nado morto. 2 – Este texto serve o propósito de a farsa que se segue não seja feita sem ter toda a informação disponível e sem alimentar fábulas contra-factuais. Dou assim por encerrada a minha participação no processo do Juntos Podemos. 

7 thoughts on “Obituário do “Juntos Podemos”

  1. É triste ver que um projecto com tanto potencial, e com tanta boa gente, tenha acabado assim. Mas acho impressionante como é que esse núcleo fundador pode sair fora sem tentar dar luta na 2ª AC. Não se foge das pestes, combatem-se.

  2. Joana, Nuno são tolos ou tem interesses maiores que envolvam seus nomes e carreiras. Não acredito que o MAS seja tão prejudicial quanto o autor quis que ele fosse. Vejo as campanhas e movimentações deste partido, e tem se mostrado até agora honesto, com campanhas contra a troika e pela prisão de quem roubou e endividou o páis. O momento é que juntos podemos transformar Portugal, e fazer valer: “que se lixe a troika!”.

  3. Quem esteve lá sabe que a história está bastante mal contada. De facto, alguns dos que saíram, fizeram-no propositadamente porque pensavam que eles eram o movimento e o movimento eram eles. Julgavam que bastava abandonar o barco e declarar o óbito para que que tudo acabasse por aí. Como viram que se enganaram mais uma vez, confessam a sua raiva e a sua dor de cotovelo perante o facto de o movimento, não só continuar, mas tb se espalhar rapidamente por muitas cidades do país. Isto é algo que esses donos da verdade absoluta não conseguem suportar, acrescido do facto de que, afinal, o MAS, esse polvo perigosíssimo, não tem nenhum papel hegemónico. Só não conseguem explicar (como é difícil…) por que razões não querem que o MAS integre o MJP. Que estranho poder de excomunhão será esse que os investiu? Fingem ignorar que o MAS sempre esteve presente em todos os principais movimentos de massas e é com a maior naturalidade que integra este. Ainda me lembro daqueles que vaticinavam o desaparecimento do MAS quando resolveu abandonar o BE depois de os rubros terem feito mesmo. Realmente, atitudes construtivas é um termo que não existe no dicionário de certos vanguardistas. E porquê? Simplesmente porque destruir é fácil, é tão simples. Nem é preciso pensar ou reflectir, raciocinar ou planificar, trabalhar ou cansar-se. Para destruir, nada disso faz falta.
    ZM

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