“Isto não é um conto de fadas!”, por Paula Gil

Quando eu era pequenina, a minha mãe contava-me imensos contos de fadas. Da Cinderela, à Bela Adormecida, a Branca de Neve e o Capuchinho Vermelho. A minha mãe também lhes alterava os finais, espicaçava um pouco a história, introduzia detalhes sórdidos. E eu delirava!

O que é que isto tinha de mal? Absolutamente nada!

Ora, o mesmo não se passa quando se reescreve a História – essa do “H” grande! – e se acha que a vida pode ser um enorme e maravilhoso conto de fadas, onde, de acordo com aquilo que nos dá mais jeito, podemos alterar a bel-prazer o final, o meio e acrescentar meia dúzia de detalhes sórdidos para espicaçar o interesse e captar a atenção do leitor.

O que é que isto tem de mal? Absolutamente tudo!

Ele há “comentadores e analistas políticos” que são como o grande olho de Sauron: eles vêem tudo, eles sabem tudo, mas na realidade eles vivem afastados e estão mortinhos para pôr a mão no anel (my precious!). Para isso, não olham a meios para atingir os seus fins, conseguindo até surpreender aqueles que outrora os conheceram durante a sua estória.

Começa mais ou menos assim:

…o Pai Natal foi com o coelhinho e o palhaço no comboio ao circo…

Depois aparecia o Lobo Mau, que queria comer os três porquinhos e bufava, bufava, bufava… Nessa estória, o Lobo Mau podia vestir várias peles e ia comprá-las ao melhor que há do discurso mainstream, nunca atacando o sistema e o “arco da governação”, mas antes aqueles que lhe estavam mais próximos e que lhe podiam oferecer resistência no debate e no acesso ao anel (my precious!).

Esse, como em qualquer discurso político que se preze, podia assumir, a cada momento e instante, novas formulações (ou seja: novos inimigos e novas definições do NÓS). Para efeitos de simplificação chamemos-lhes aqui BE, PCP, Ruptura/FER (MAS, se só chegaram agora ao maravilhoso mundo dos contos de fadas!), com efémeras, mas interessantes menções a grupos, colectivos, indivíduos, que integravam um ou nenhum dos acima mencionados – pela incapacidade de mencionar todas as personagens, chamemos-lhe apenas “todos os restantes”.

Esta estória, portanto, surge enredada numa teia confusa de discursos e cooptações. É mais ou menos como se vissem a “Vida de Brian”, mas o Brian é, no final, o pai do Luke Skywalker! A Judean People’s Front é mais ou menos a mesma coisa que o Popular Front of Judea. E eles são todos cidadãos, menos um: esse de que estamos a falar agora _____________ (preencher a bel-prazer, condimentar q.b., mexer e está pronto.)

O primeiro foi o Ruptura/FER: o único que escreveu uma estória (chamemos-lhe, para simplificação “moção C”) sobre a primeira das grandes lutas, em 2011.

Neste maravilhoso mundo dos contos de fadas, há muitas lutas marcadas, onde todos estes personagens se encontram e reencontram vezes sem conta. E, meses mais tarde, passando já para o meio da estória, o Lobo era o BE. No final da estória, no entanto, o Lobo voltou a ser o Ruptura/FER. Nesta altura, acampava-se no Rossio.

No mesmo ano, mas em outra luta, o Ruptura/FER que continuava a ser o Lobo Mau, “ganhou o pedaço” – chamemos-lhe para simplificação cooptou e secou tudo em volta – ao cavalgar por cima de um colectivo que tinha posto na rua o 15O.

Já na luta seguinte, houve uma alteração na direcção que o grande olho de Sauron, que tudo vê, que tudo sabe, escolheu. E, desta vez, analisamos “todos os restantes” (relembro, para simplificação, neste grupo está “toda a gente”- com colectivo, sem colectivo, com partido, sem partido…) que eventualmente se cruzaram com o grande olho de Sauron, que tudo vê, que tudo sabe. E, nesta história, saltando outra vez já para o fim, poupando-nos às análises intermédias do campeonato, o Lobo Mau era o PCP. “Que se Lixe” se o factor desestabilizador muda a cada etapa do percurso numa grande perseguição à cidadania, essa coisa que se exerce sem partidos, sem sindicatos e, se possível, para não chatearem muito, sem pessoas!

Quatro anos estão prestes a passar desde o início de todo este enredo. Encontramos alguns dos personagens desta história, a reunir e entre eles, o MAS (agora já não Ruptura/FER). Depois de um processo que se arrasta desde Maio/Junho e que começou com um grupo reduzido e diverso de pessoas, onde se discutiu a experiência do Podemos no Estado Espanhol, a primeira Assembleia Cidadã, ocupada pelo MAS. Recusei fazer parte da dinamizadora eleita. Acho que, qualquer movimento, a surgir, deve focar-se em acções concretas, específicas, que permitam uma batalha de cada vez e preparem as pessoas para lutar mais, melhor, mobilizando a base social. Não basta, para mim, mudar de pastor, mas antes, importa, que deixemos de ser rebanho.

Durante as últimas semanas tenho assistido a um processo de usurpação de símbolos, nomes, contactos e a um verdadeiro “golpe de estado” que o grande olho de Sauron, que tudo vê e tudo sabe, escreve e descreve consoante as utilidades do momento. E assim, se faz, a “verdadeira” mudança cidadã.

Com uma diferença: depois de todo este enredo, o grande olho de Sauron, é agora, também, um pequeno gollum, (uma espécie de Hyde e Hyde, sem Jekyll): um hobbit, como todos os outros, até encontrar o anel, se enamorar do seu poder, e deixar que ele o corrompesse. Um ser pequeno e sem grande influência, que só podia ser corrompido pela medida pequena.

Juntos podemos muito mais imaginar do que construir.

Moral da história:

  • a história deu razão ao registo de marca, ironicamente desta forma, mesmo que tenha suscitado críticas e nós próprios nos tenhamos interrogado se o devíamos ou não fazer.
  • Há sempre um discurso que se pode construir, consoante se pretende, para denominar o inimigo comum (ELES) e criar uma união (NÓS). Geralmente nesses casos, esgrimem-se argumentos ideológicos, face a aspectos concretos. Não se aponta simplesmente o dedo para dizer “eu conheço esses truques, eu sei o que estás(ão) a fazer, eu sei como funcionam as estruturas partidárias e os seus vícios”. Para depois, fazermos política de “modo diferente” formando um partido (coisa nunca antes vista!), com os golpes políticos mais baixos na sua génese. NÓS fomos avisados que ELE sabia. (fácil, fácil: “trigo limpo, farinha amparo”).
  • “Vamos ali ao canto, falamos e cria-se já um partido”, como se bastasse juntar pózinhos de pirlimpimpim à fervura e “Puff!”, fez-se o Juntos Podemos – nem no maravilhoso mundo dos contos de fadas, quanto mais na vida real.
  • Das várias “lutas” narradas, faz-se menção ao 12 de Março – Geração à Rasca (leia-se “primeira das grandes lutas”), Acampada do Rossio, o 15 de Outubro, as manifestações do Que se Lixe a Troika e, mais recentemente, ao Juntos Podemos.
  • Isto não é o da Joana. Mas tudo aponta para que será o do João – ou do Gil – não percam as cenas dos próximos capítulos. Infelizmente para ambos – o Gil e o João – que eles bem queriam.
  • De lembrar que durante o 12M, “todos os restantes”, o PCP, o BE e até o Ruptura/FER (MAS) em Coimbra,  contribuíram para aquela que foi “a primeira das grandes lutas”. Sem a mobilização de todos e o apoio que muitos deram durante a manifestação – em Lisboa e um pouco por todo o país – o 12 de Março não teria sido possível. Teria, possivelmente, sido um sobressalto cívico na mesma. Não teria sido a mesma coisa: há uma linha que separa o que quatro miúdos sozinhos podem fazer, de uma manifestação apoiada por todos os colectivos, activistas, movimentos cívicos (que colocam os seus meios à disposição) consegue. A esses, a maioria sem nos conhecer de lado nenhum, só posso deixar o meu muito obrigada, pela capacidade de confiar que tiveram e como o demonstraram, ao nosso lado e para connosco.

Nb – 1. qualquer semelhança com a realidade não é pura coincidência. 2. os nomes foram alterados para protecção do João Labrincha, que sendo real, é inspirado numa personagem fictícia. 

3 thoughts on ““Isto não é um conto de fadas!”, por Paula Gil

  1. ;) “Isto não é o da Joana. Mas tudo aponta para que será o do João – ou do Gil – não percam as cenas dos próximos capítulos. Infelizmente para ambos – o Gil e o João – que eles bem queriam.” lol

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