“‘Je Suis Charlie’: a indignação do espaço íntimo”, por Pedro Rocha

S0421072+(1)
Fotografia de F. James Conley

Foi em 1966 que o antropólogo Edward T. Hall publicou “The Hidden Dimension”, uma obra que oferecia “uma estrutura de organização para o espaço como um sistema de comunicação,” onde descrevia uma visão do fluxo e da mudança de distância entre as pessoas interagindo-as como partes integrantes do processo de comunicação, num contexto em que indivíduos pertencentes a culturas e ambientes diferentes “habitam diferentes mundos sensitivos.” Este estudo delineou 4 espaços à volta de cada indivíduo, a distância íntima (até cerca de 40 centímetros), a distância pessoal (entre 0,4 e 1,2 metros), a distância social (entre 1,2 e 3,6 metros) e a distância pública (além de 3,6 metros).

A razão pela qual introduzimos esta noção rege-se pela aplicação da mesma num contexto em que o “indivíduo” referido venha a ser substituído pela “sociedade” e que as distâncias se adaptem proporcionalmente à sua própria dimensão. Segundo esta perspectiva, tendo em mente a noção de Hall de “distância íntima”, isto é, a “esta distância particular, a presença do outro impõe-se e pode mesmo tornar-se invasora pelo seu impacto sobre o sistema perceptivo”; e o atentado no jornal Charlie Hebdo, podemos afirmar que o nosso sistema perceptivo colectivo sofreu um impacto, tão próximo como se sentíssemos o próprio respirar do peão armado na nossa cara e o sabor adocicado e metalizado do sangue dos assassinados nas nossas pupilas, longe dos que morrem em situações desumanas e cruéis noutros países, pois estes encontrar-se-ão numa “distância pública” longe dos nossos sentidos e de alguma ligação afectiva e significativa, no entanto não menores comparados ao sucedido no Charlie Hebdo nem que haja razão que se dê menos relevo que o deste.

O atentado deu-se muito perto, intimamente perto, no seio da sociedade ocidental (e não num local remoto), num ambiente dito civilizado e devidamente controlado, dentro de certos parâmetros a que os constituintes cidadãos, desse indivíduo “sociedade”, se submetem a uns presumíveis poucos de confiança para proporcionar uma estabilidade de um conforto em que o medo é uma ficção. O atentado deu-se muito perto, no seio laboral de uns media que abalavam esses parâmetros, no seio de uns media de uma sociedade civilizada, sim, de uns media dali da “nossa rua”, não de uns media quaisquer, não de uns media da América Central ou do Sul, ou de outros jornalistas (ou pessoas de outras profissões e credos) que de igual forma morrem e sofrem por acreditar na liberdade do Ser Humano, pois a esses não há necessidade da Sociedade vir para a rua defender a indignação de não terem liberdade, pois a esses não há necessidade de hashtags ou de redações se colocarem para a fotografia condoídos convictamente a segurar um símbolo de luto, pois esses estão longe da nossa “distância íntima” e não nos afectam, talvez venham a aparecer num canto de uma página de jornal em infografia e desaparecem no dia seguinte.

Indignados somos. Indignados apenas quando nos tocam somente a nós na nossa “distância íntima”. A nossa indignação está ao “rubro”, está indignadamente ao rubro pelo dito acontecimento do vil atentado no nosso espaço sagrado, o qual não está submetido a guerras, a regimes ditatoriais, a fome disseminada, que se separa de tudo isso para além de uma “distância pessoal” onde o “braço” esticado não toca. Contudo é rubro de pouca dura pois “amanhã”, ou já na semana seguinte, os jornais já não serão Charlie, pois passarão a dar voz aos “poucos presumíveis” e a tratar do resto dos eventos em terras “longínquas” (mas mais perto do que Saturno), fora do nosso alcance perceptivo, como se fossem ficção, como se a vida que se perde naqueles recantos fossem menores do que a do “Charlie.” A nossa indignação só nos assome quando o nosso espaço íntimo é incomodado, pois os demais não nos afectam.

O pior é quando o dia-a-dia do que se passa na imperceptível “distância pública” se torna íntimo, e nos abale como que um grito longínquo se tornasse real e logo aqui na “nossa rua”, e de repente podemos ouvir no nosso choro e desespero as aflições e gritos dos também seres humanos, por exemplo em Gaza, que sentiram na pele o seu próprio espaço íntimo a ser invadido e estropiado. O que se passou em Paris é apenas uma amostra do que se passa lá fora, diariamente, e com o qual não nos indignamos assim tão veementemente. Nem mesmo agora por nós mesmos, em nosso nome, em nome da nossa sociedade não nos indignamos, simplesmente entramos em letargia, e os media (agora feridos de morte) contribuem para esse “bem-estar”.

Não deveria haver indignação, mas ela existe pois é sinal saudável de uma sociedade algo desperta referente a um estado que não está ainda saudável, é pena que esta tenha perdido a sensação da alegria da liberdade (pois a têm como algo garantido), a noção da sua relação individual com o espaço que a rodeia e a percepção de “diferentes mundos sensitivos.” São sim mundos diferentes mas se calhar as pessoas que morrem, ou que as suas liberdades lhes são vedadas, do outro lado do mundo não são assim tão diferentes de nós. Se nós não nos indignarmos por elas quem se indignará? Será que a vida delas é menos significativa que a nossa ou que a dos “nossos”? É duro quando o espaço íntimo delas se cruza com o nosso e se torna o mesmo. É duro quando constatamos que a Liberdade é algo que tem de se ter uma atenção diária, pois pode de repente deixar de existir. O ataque ao Charlie Hebdo, para além de ter sido um ataque à liberdade de expressão, foi um ataque ao nosso espaço íntimo, foi um evento que nos fez lembrar, e despertar, que o nosso espaço existe, que é frágil, e tem de ser cuidado e sobretudo sentido, pois sem a percepção dele tudo pode deixar de fazer sentido de um momento para o outro e a insegurança deles se torna nossa. Ser “Charlie” não é algo passageiro, algo efémero e que passará caindo no esquecimento, não poderá jamais ser, que seja uma contínua sensação presente, como um dever de não nos esquecermos da nossa liberdade, em memória dos que deram o seu lápis por ela. Cabe a nós que assim seja, é nosso dever.

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