Jornalismo satírico e liberdade

A inacreditável chacina no Charlie Hebdo, após a onda mundial de incredulidade e revolta que desencadeou, vem agora abrir vários debates, uns certamente mais interessantes do que outros. O debate que tem imperado parece ser aquele que reflecte sobre os limites que eventualmente se devem colocar à liberdade de expressão: terão os jornalistas, com as caricaturas de Maomé, ido longe de mais? Esta semana, num fórum diário da Antena 1, 90% dos ouvintes que deram a sua opinião sobre o assunto acharam que sim…

Quem aborda este assunto parte geralmente do princípio (falso) de que vivemos num regime onde vigora a liberdade de expressão. Neste blog, sabemos bem que isso não é verdade. Censurados mais do que uma vez pelo Facebook, sabemos que esta sociedade adora esconder as verdades mais evidentes e bloquear a divulgação de conteúdos inconvenientes (como no caso Wikileaks, onde divulgar conteúdos sobre o funcionamento dos estados se converteu numa prática criminosa). Quem já trabalhou na redacção dos principais jornais sabe que também aí a esmagadora maioria do que se publica obedece a pressupostos ideológicos e que, se não reproduzir esses pressupostos, se expõe automaticamente ao corrector da censura.

Num tal contexto – onde a única liberdade que nos é efectivamente dada, diga-se, é a de produzirmos/consumirmos mercadorias e assim contribuirmos para a imparável reprodução do capital – alguns humoristas têm-se convertido numa das últimas válvulas por onde vão exalando dos média algumas verdades sobre o funcionamento da sociedade, da política e da economia, as quais de outro modo ficariam banidas de circulação mediática. É porque “aquilo é só humor”, logo indigno de ser levado muito a sério, que o espectáculo mediático reserva aos humoristas (mesmo aos mais incómodos) um espaço no seio do seu império da mentira. É assim que, por entre a monotonia de noticiários viciados e sermões de opinion makers certificados, somos regularmente sacudidos pelas sátiras mais ou menos inspiradas dos humoristas.

Tal como inúmeras sociedades opressoras permitem a existência desse escape purificador que é o Carnaval (ritual que usam para se purgarem do efeito de algumas verdades delicadas ou mesmo ‘proibidas’ que nele são publicamente enunciadas), também a nossa sociedade autoriza aos humoristas os seus Carnavais mediáticos, onde verdades reprimidas, personagens indignantes e assuntos revoltantes se tornam tema (não de crítica consistente, profunda mas) de gargalhada volúvel e efémera. Efectivamente, e isto não tem piada nenhuma, esta sociedade prefere rir-se das aberrações que a atormentam do que tomar a decisão séria de acabar definitivamente com elas.

Ora, os humoristas que, com maior ou menor imaginação, repetem constantemente nos média esse ritual catártico, de purificação que é o Carnaval, acabam por não contribuir tanto quanto se calhar desejariam para questionar os fundamentos da sociedade que satirizam. Talvez o seu trabalho seja, de certa forma, mais o de pacificar as camadas descontentes da sociedade com os motivos que lhe provocam descontentamento do que o de incrementar esse seu descontentamento. Ainda assim, e expressas estas minhas reservas relativamente à função social do jornalismo satírico, confesso que prefiro que as suas sátiras sejam cáusticas e impertinentes, correndo portanto o risco de ferir susceptibilidades (e no limite desencadear ‘ataques terroristas’), do que estejam à procura da pseudo-neutralidade amena que define o politicamente correcto. Sendo inevitavelmente a sociedade um território de dissonâncias e conflitos, elas expõem-se assim à ira e às balas, mas de outro modo tornam-se incapazes de me arrancar a mais pequena gargalhada e de consequentemente me sensibilizarem para os assuntos que pretendem denunciar.

About PDuarte

Historiador, jardineiro, horticultor. Vive na província. No tempo vago, que procura multiplicar de dia para dia, perde-se em viagens, algumas pelos montes em redor, outras pelos livros que sempre o acompanham. Prefere o vinho à blogosfera, a blogosfera ao Parlamento.

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