Barbárie e Abjecção

Rserra_z06

O conceito “bárbaro” tem sido utilizado com bastante liberdade relativamente aos ataques de ontem ao jornal Charlie Hebdo, afirmando que a inenarrável violência que ali terminou dez vidas, sem se perceber muito bem porquê, é o golpe de cauda de um obscurantismo atávico que grassa nos interstícios do império.

Conhecemos bem a barbárie: é aquilo que deixamos à porta de casa e à porta da cidade, ou seja, é precisamente o campo de comportamentos e existências que não consideramos merecedores de partilhar o termo “humano” connosco. Dir-se-ia então que é a ausência de uma razão civilizacional a tornar tão brutal esta violência, e que nos leva a procurar desesperadamente formas públicas de testemunhar um certo gaguejar incrédulo ante a execução sumária de pessoas fora de um cenário de guerra. A multiplicação de opiniões, de pesares, de manifestações espelha o modo como é percepcionada esta violência, mas não responde a uma outra série de questões: quem se manifesta contra esta violência manifesta-se exactamente contra quê? Precisar enquanto operante deste ataque uma determinada área de um determinado quadrante político-religioso é enganoso, porque o que ali foi expresso não foi o fanatismo, uma categoria duvidosa, mas sim a expressão concreta de um tipo abstracto de violência. A dicotomia barbárie-razão que assiste ao entendimento destes ataques presume então que é a resiliência de determinado compromisso com a “liberdade” que poderá ser consistir a pequena, mas melhor, resposta, mas estes ataques não foram bárbaros, foram, pelo contrário, abjectos. A violência ali expressa não parte de qualquer alteridade civilizacional mas sim de um vazio no centro dos tempos que correm. A abjecção não é possível de exteriorizar ou colocar numa fronteira a partir da qual nos definimos mas representa pelo contrário um incompreensível que nos é totalmente familiar e que sabemos imanente à realidade que habitamos. A terrível violência de ontem, cuja proximidade torna intragável, tem muito mais a ver com os assassinatos de Columbine, de Anders Breivik ou dos genocídios étnicos do séc. XX do que com qualquer dicotomia, invertida ou não, entre civilização e barbárie.

A única resposta possível será então talvez tentar perceber de que modo essa violência nos implica enquanto seus sujeitos e porque é que a carregamos em segredo com tanto silêncio e tanta negação.

Anúncios

6 thoughts on “Barbárie e Abjecção

  1. Embora partilhe alguns dos conceitos e críticas avançadas pelo Tiago, não posso concordar com algumas conclusões. Decide o Tiago que o atentado não foi uma barbaridade, mas um acto de violência gratuito, tentando assim, de algum modo, desculpabilizar os atacantes e diluir as culpas, espalhando-as pelo conceito abstrato de sociedade moderna. Nada de mais falso e mistificador. E tanto mais que o pretende igualar a outros casos, esses , de facto inteiramente gratuitos. Aqui nada houve de gratuito. Foi um acto bárbaro, sim, planeado ao detalhe por operacionais bem treinados e claramente dirigido contra um alvo específico. Sabemos bem como os radicais islâmicos odeiam visceralmente tudo quanto seja livre pensamento, liberdade de expressão, democracia, direitos humanos, igualdade de género, dignidade pessoal, até a própria vida por oposição ao conceito de morte com a “subida” ao paraíso onde as virgens aguardam os heróis. Obviamente que os principais valores que norteiam (ou deviam nortear) as sociedades ocidentais são outros tantos espinhos cravados na garganta do fanatismo cego. Tais actos não podem deixar de criar um clima de aberta clivagem entre as culturas e religiões, dando origem a diversos conjuntos de acções preventivas e repressivas. Os prosélitos desse caminho fanático e obscurantista terão necessariamente de ser isolados e remetidos para o seu abjecto covil. Indivíduos e organizações desse calibre haverá sempre e em todo o lado. Cabe-nos a nós criar ou não as condições objectivas onde essas castas se sintam à vontade (ou não) para levar a cabo as suas odiosas intenções.
    Não esbanjámos…Não pagamos!!!!!!!!
    ZM

    1. Não disse em nenhum lado que foi um acto “gratuito” nem procuro desculpabilizar absolutamente ninguém. Talvez não tenha percebido o que escrevi, ou talvez eu não me tenha expressado bem. Apenas disse que não acredito na divisão barbárie/civilização.

  2. Caro Tiago.
    Penso que todos sabemos de onde vem a palavra “bárbaro”. E não podia ser mais adequado nomear os atacantes de bárbaros.
    Julgo que quando o acusam de dizer que este ataque foi “gratuito”, é porque o compara com outros massacres como os assassinatos de Columbine (que não foram também gratuitos, mas ainda assim, de outro género). E caí eu agora no ridículo de catalogar massacres em género: os gratuitos, os fanáticos, os bárbaros, os abjectos. Enfim, na verdade o que isso interessa?
    Interessa a pergunta que coloca: “quem se manifesta contra esta violência, manifesta-se exactamente contra quê?”.
    E julgo que a resposta é simples: manifesta-se contra a punição à livre opinião.
    Se tanta solidariedade, que eu também tenho e repugnância, que eu também sinto, ao que aconteceu ontem é impulsionado pelo facto do mundo estar dividido ao meio e os ocidentais olharem o mundo islâmico de forma pré concebida? Ajuda.
    Mas os ataques de ontem passaram claramente dos limites.

    1. Cara Luisa. A “livre opinião” é punida, sonegada e impedida diariamente nas redações onde hoje todos dizem ser Charlie sem que isso motive qualquer escândalo ou reação. Eu não acho os atacantes bárbaros simplesmente porque acho essa classificação ilusória. Tal como os combatentes do estado islâmico, tal como anders breivik, tal como as inúmeras manifestações do fascimo, estes fazem tanta parte da sociedade “ocidental” como eu e você, e a linha que deve ser traçada deve ter isso em conta. Chamar bárbaro é persistir no mesmo paradigma que cria esta, e outras, violências. Por último rejeito por completo essa separação entre ocidentais e islâmicos.

  3. Caro Tiago, só espero que os jornalistas das redações onde todos dizem ser Charlie, não acabem a vida da mesma forma. Quero apenas deixar bem claro que não sou eu que separo o mundo, nem digo que é assim que deva ser. Apenas tentei analisar a reacção das pessoas, que julgo terem esse paradigma em mente. Por último, não há nada que justifique tamanha violência. Se há mais violência no mundo? Há. Mas agora estou só a falar desta. Bj

    1. Cara Luisa, ninguém tentou justificar qualquer violência, que como disse, é abjecta, ou seja, nada a pode justificar. Nada no que eu escrevi vem relativizar esse facto. Eu também espero que nunca mais ninguém morra assassinado por ter determinada opinião, mas essa esperança nada diz da discussão que sugeriu.

Deixe o seu comentário.

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s