Jornal MAPA, um contributo para um regresso à representação do real

Vivemos numa época onde se criou um fosso gigantesco entre a realidade do quotidiano e a sua transposição para o discurso corrente, seja este político ou mediático. A sociedade que corresponde a esta época costuma denominar-se por ‘sociedade do espectáculo’ porque nela cada indivíduo apreende o mundo sensível pela mediação de representações mentirosas que lhe resumem, ilusoriamente, esse ‘seu’ mundo. Nela – ou seja na nossa sociedade – a quase totalidade dos conceitos usados pelos agentes políticos e pelos meios de ‘informação’ deixou pura e simplesmente de traduzir o real, que se converte assim num domínio exterior aos conceitos:

  • na política os novos movimentos de esquerda, estando ainda agarrados às velhas categorias de base do capitalismo (mercadoria, dinheiro, trabalho, valor), falam-nos constantemente de um mundo imaginário que há muito cessou de existir, sempre que nos apresentam abstractamente a sua sociedade ideal, a ‘sociedade de pleno emprego’; ora, a mecanização, a automatização e a numerização expulsaram milhares de milhões de humanos de todos os sectores da economia (este facto central é inacreditavelmente ignorado por todos os movimentos/partidos políticos) e, por força dessa revolução tecnológica, deixou de ser possível existir no mundo do séc. XXI um modelo económico que absorva tamanha quantidade de mão-de-obra (a não ser que se elimine toda a tecnologia existente e se ponha o músculo a substituir retroescavadoras e o neurónio a substituir computadores);
  • na informação mediática ocorre este mesmo desfasamento entre discurso (alienado) e realidade, sendo o resultado uma representação espectacular do mundo que, estando de acordo com interesses específicos, legitima as relações sociais vigentes; aqui, a missão ideológica dos média é ocultar permanentemente do espectador toda a barbaridade a que se encontra exposta uma parte colossal da humanidade, vítima da miséria e da exploração sob todas as suas formas.

mapa8_interiorÉ neste contexto de cisão consumada entre representação e realidade, que vejo inesperadamente consolidar-se em Portugal uma nova publicação periódica generalista, interessada em descrever e não mascarar (com abstracções de qualquer tipo) o real. No último número desta publicação, dá-se mesmo o estranho caso de praticamente todas as matérias nele tratadas serem de um raro e notável interesse (as quais raramente vemos tratadas noutras publicações de carácter informativo):

  • O estado actual da floresta em Portugal
  • Uma análise aprofundada das consequências do ‘Transatlantic Trade and Investment Partnership’ entre os EUA e a UE
  • Uma apresentação do fenómeno Bitcoin
  • O fenómeno actual das ocupações de terras na Europa
  • Uma apresentação do projecto transhumanista de engenharia de seres humanos ‘Defense Advanced Research Project Agency
  • A recordação da invulgar biografia de Sade nos 200 anos da sua morte
  • Etc., etc.,

Uma publicação com boas ideias e de agradável prosa, em contra-corrente com o que se publica por aí, para ir acompanhando de perto em 2015. Resta esperar que o panfletarismo vanglorioso (seja este de filiação situacionista, trotskista, ecologista, autonomista…) que costuma seduzir as publicações ‘militantes’ não venha a abalar o esforço de representar criticamente o presente que surpreendentemente fui encontrar na leitura do número 8 deste jornal ‘amador’.

About PDuarte

Historiador, jardineiro, horticultor. Vive na província. No tempo vago, que procura multiplicar de dia para dia, perde-se em viagens, algumas pelos montes em redor, outras pelos livros que sempre o acompanham. Prefere o vinho à blogosfera, a blogosfera ao Parlamento.

3 thoughts on “Jornal MAPA, um contributo para um regresso à representação do real

  1. O mapa é um projecto bastante interessante e que de facto conseguiu quebrar uma série de barreiras ideológico-militantes, será mesmo dos projectos mais interessantes e consequentes dos últimos anos.

    Mas há algo que ando para te perguntar há algum tempo: o que é exactamente essa “realidade” que hoje em dia está tão arredada de tudo? ou seja existe uma representação não-“mentirosa”? não é a representação já e sempre algo separado (por alguma razão se chama democracia “representativa”).

    E subjacente à ideia de um espectáculo mentiroso não está a de um espectáculo verdadeiro?

    Diria que esta questão – a da autenticidade – é precisamente o ponto mais fraco dos escritos da IS e a que separa a familia Tiqqun desta, por dize-lo de algum modo. Não existe uma verdade, existem sim inúmeros mecanismos de verdade e cabe-nos escolher e encetar o que acharmos melhor. A verdade produzida pela exploração está inscrita em todas as relações sociais mediadas pelo capital e não é o engodo que nos as faz suportar, mas sim o modo como estão “naturalizadas” – isto não é operada através de uma “mentira” mas através de uma determinada metafisica e ontologia: a mesma que divide os processos – ou real – em “verdadeiro” e “falso”

    De outro modo não concordo contigo nesse entendimento do que é a alienação. Até porque traz uma outra questão na boca: então porque é que “nós” percebemos os ardis do capital e os outros não? somos mais espertos? duvido.

    Acho que é uma discussão importante. Abraço!

    1. Antes de mais um excelente 2015, cheio de boas polémicas!

      O conceito de ‘real’ é problemático, como se percebe das discussões sem fim que tem gerado no mundo da epistemologia, mas, tal como a IS, não acho que deva ser abandonado, questionado sim, mas jamais abandonado. Toda a obra de Debord parte do princípio de que o real não é questionável (e este poderia ser um ponto ‘fraco’ da sua obra à luz dos debates actuais). Debord nunca foi um filósofo da ciência, por isso nunca se deteve sobre a questão teórica da (in)existência de um real, exterior às nossas descrições situadas e contingentes. Ele apenas intuiu (e, na minha óptica, bem) a existência do real e a sua análise à ‘sociedade do espectáculo’ é uma belíssima descrição desse real.

      Acho que ‘realidade’ e ‘objectividade’ são conceitos centrais em ciência, em jornalismo e em política. Simplesmente, ao contrário dos positivistas ou dos realistas, eu não acredito no mito da imparcialidade do observador, também denominado pelos filósofos anglo-saxónicos ‘myth of the ready-made world’. É sabido que para os realistas, como observa Hilary Putnam, “o mundo consiste numa totalidade invariável de objectos independentes do espírito. Existe exactamente uma descrição completa e verdadeira da ‘maneira como o mundo é’”. E eu acho que esta posição dos realistas (que se acham coleccionadores passivos de dados e factos verdadeiros) está cheia de problemas. Depois de ler os trabalhos dos principais inovadores da filosofia da ciência da segunda metade do século passado (Foucault, Putnam, Kuhn, Derrida, Latour, Rorty, Hacking, Goodman), prefiro acreditar, como Fernando Gil, que “a objectividade não é dada mas conquistada”. Mas eu nunca prescindo dela (da objectividade), apesar de saber que ela jamais me cairá gratuitamente nos braços; e este ponto é fundamental. O erro d(e algum)a pós-modernidade é eliminar a busca da objectividade (e ‘da’ verdade) do seu programa.

      Como cidadão e como historiador, acredito que devemos duvidar sempre que as nossas por vezes efémeras construções interpretativas constituem descrições completas, acabadas e definitivas da maneira como o mundo é ou foi. Sei que não é possível descrever o presente ou o passado sem recorrer a teorias e a conceitos. E as nossas linguagens, os nossos conceitos, expressando práticas interpretativas subjectivas – que consistem em apreciar factos à luz de um contexto social, cultural e académico que privilegia determinadas metodologias, questionários e esquemas de compreensão –, jamais esgotam a realidade dos dados e dos factos a que se reportam. Quando eu, que estou situado em sistemas de crenças e de valores, represento o mundo, não sou alheio à singularidade da minha situação.

      Por isso, procuro não me expor ao perigo a que estão expostos todos os positivistas e realistas: ao ignorarem a sua situação contextual na produção de conhecimento, tornam-se incapazes de analisar criticamente as ideologias, visões do mundo e modas intelectuais em voga no seu tempo, que assim reproduzem acriticamente nos questionários que dirigem ao real. Admitirmos que a narrativa que produzimos é historicamente condicionada deverá levar-nos a examinar as circunstâncias e os contextos que acompanham a aparição das categorias e dos julgamentos que usamos nas representações que elaboramos do mundo. Na medida em que não é possível fazer abstracção completa da nossa individualidade, devemos tomar consciência de que devemos examinar-nos criticamente a nós tal como ao mundo que pretendemos conhecer.

      Mas, enquanto historiador (isto é válido também para os outros ‘cientistas’, para os jornalistas, etc.) há uma premissa (ignorada pela pós-modernidade) que eu nunca questiono: são os FACTOS desencadeados pelos agentes históricos que devem determinar a razoabilidade das hipóteses propostas pelos historiadores, ou seja, existem ‘factos’ pretéritos (a tal REALIDADE) que devem determinar quais as hipóteses que são aceitáveis e quais as erradas – em suma, não se faz história só das ideias dos historiadores, sem factos já ocorridos, aos quais essas ideias devem referir-se.

      Não sei se assim respondo de alguma maniera à dúvida que subjaz ao teu comentário?

      Abraço da província!

      1. Renovo os votos de um 2015 pleno, caro companheiro.

        Boa e ponderada resposta. Acho, claro, o livro e o pensamento de Debord extremamente pertinentes e importantes, mas onde me distancio dele é 1) onde me parece que o “espectáculo” é mais um entre vários dispositivos de controle e 2) onde me parece que realidade e “autenticidade” são coisas distintas, onde a segunda já me parece capturada num regime de representações e separações que são desde logo alienantes. De outro modo, e espero que me dês o desconto de ser um comentário sem grande elaboração, acho que não partimos de um lugar de autenticidade que é desvirtuada e capturada pelas mentiras do “espectáculo”, mas que tudo o que somos é desde logo moldado por esse, e por outros, dispositivos. Ou seja, não há uma existência autêntica alienada que pode ser reconquistada através de actos de reestabelecimento da verdade, mas sim um inicio é desde sempre inautêntico e que pode ser destituido através de práticas de verdade.

        E também não creio possa haver uma representação real – não será essa sempre a captura num código já diferente do imanente ao facto? Paralelamente não creio que o sistema tenha de falsear as suas causalidades e consequências, acho que as esconde a céu aberto afirmando-as enquanto naturais..

        mas enfim voltarei a este tema com o seu devido tempo e atenção, abraço!

Deixe o seu comentário.

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s