No falhanço é que está o ganho, a sequela – Antagonismo

Ora, se uma identidade particular se define por um discurso puramente diferencial, a sua intenção é de afirmação da diferença que se constitua como “uma das” legitimidades no acesso e intervenção no espaço público. Os processos de identificação em redor da tríade convencional etnicidade/género/classe partem de um princípio de visibilidade e reconhecimento – o que assume uma importância fundamental no discurso político – que faz com que o próprio sucesso das exigências (vamos assumir que democráticas) dependa mais da reacção do sistema às manifestações de visibilidade do que das próprias características de constituição da “diferença”. Ou seja, estamos no campo do puro agonismo quando António Simões, CEO da alta finança, recebe prémios do movimento LGBT: o futuro pode ser um espaço em que todas as diferenças são igualmente legítimas (todas pares, adversários mas não inimigos, em que, portanto, a “legitimidade” misógina e machista estaria lá também porque um discurso de diferença sem contaminação universal de qualquer espécie tem as suas consequências) e operam num sistema de significação mais aberto e dialogante do ponto de vista de orientação sexual e identidade de género mas económica e socialmente as is… ai que bonito! É precisamente este perigo agonista que reverbera naquilo a que António Guerreiro chama hoje de “cosmopolitismo frívolo”, um There’s no such thing as society, numa versão benigna.

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Portanto, no falhanço do processo de identificação é que está o ganho (mas também não há ganho em processos que queimem a etapa da interpelação identitária do indivíduo) porque esse é o momento em que qualquer agenciamento antagonista surge em potência.

O antagonismo é o espaço de conflito, sem qualquer tipo de subsumpção, absorção ou integração no sistema, num contexto mutuamente exclusivo: não há agonismo, reconhecimentos de legitimidades, adversários; o que há é “a legitimidade” em si mesma, impossibilitada de existir politicamente por causa do sistema hegemónico/poder. Não um “outro” dialéctico dentro do mesmo sistema de significação e representação política; o outro é o próprio sistema de significação que evita um novo sistema de significação para o “nós” político.

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E a teoria política contemporânea até nos tem presenciado com imensas narrativas teóricas para o “nós antagonista”: o “excesso”, em Rancière, a “multidão” em Hardt & Negri, as “multidões queer” em Preciado, o “povo” em Laclau, ou mesmo a insistência com “proletariado” na versão de Badiou, e por aí fora que, como “o terceiro estado” em Sieyès em 1789, não tem sido nada até agora e pode ser tudo, o que é exactamente o sentido de «a destruição daquilo que não existia» que citei no post anterior, uma espécie de «a burguesia já não é o que nunca foi», ou seja, já não tem a capacidade para representar a universalidade e, em consequências, novas articulações de universalidade podem antagonizar.

Mas, mais importante que qualquer teoria política, porque esta coisa dos sujeitos políticos colectivos antagonistas faz-se fazendo-se e nunca em gabinete de centro de investigação universitária, é o exemplo do Podemos e da sua retórica. O melhor exemplo de discurso antagonista que ouvi nos últimos tempos foi, precisamente, a paródia dos gatos e dos ratos (uma história frequente nas intervenções de Pablo Iglesias, o que reafirma o “fazer-se fazendo-se” da subjectivação política; a sua dimensão performativa). A história é simples: na Ratolândia sucederam-se partidos de gatos para governar os ratos; havia o partido de gatos brancos, o partido de gatos pretos e o partido dos gatos pardos e governaram fodendo ratos até que os ratos decidiram fazer um partido de ratos e os gatos acusaram-nos de populismo. Reparem, no entanto, que o sistema de governação não era constituído por rotatividade entre ratos gordos ou ratos mafiosos e corruptos. Não. Eram gatos. Estavam fora do próprio sistema de significação política de comunidade e comum de ratos e eram, então, condição para a impossibilidade de uma comunidade política de ratos. Este é um exemplo incrível da retórica antagonista… aqui tão perto

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