No falhanço é que está o ganho

Ora, como é que António Simões pode significar, simultaneamente, a representação do sistema do capital financeiro produtor de múltiplas exclusões, a representação da ideologia da responsabilidade pessoal sobre a condição de cada um que “legitima” exclusões sociais, a representação da resiliência tuga em momentos de crise sem alternativa (uma transição suave para o mundo dos excluídos, mas honrados e desenrascados de olhos postos numa mobilidade social através do trabalhinho) e um exemplo inspirador que deve ser premiado por uma associação que tem como objectivo a integração social da população lgbt?

Pode apenas na medida em que “as cenas” (fuck yeah, viva a ambiguidade coloquial!) possam depender da perspectiva particular de cada um, ou seja, de uma perspectiva de identificação única com uma particularidade (um eixo de identificação) que se constitua através de relações de pura diferenciação com as outras particularidades identitárias, ou seja, através de um mecanismo de cancelamento de todas as restantes perspectivas geradas por outros posicionamentos numa rede de eixos de identificação, um cancelamento que tem de operar tanto a um nível social como a um nível individual (por exemplo um operário gay teria de cancelar a sua perspectiva de classe para premiar António Simões; uma mulher lésbica negra teria de cancelar a sua perspectiva de género e a sua perspectiva de etnicidade para premiar António Simões, etc).

IinTeam

A questão não é tanto que haja alguma necessidade de esquizofrenia identitária para percebermos se António Simões merece, ou não, um prémio. A questão é que o prémio a António Simões parece demonstrar os limites (e falhanços) da própria política de identidades.

Quis o acaso que estivesse a reler Laclau quando soube do prémio. Diz ele: «(…) if a fully achieved difference eliminates the antagonistic dimensions as constitutive of any identity, the possibility of maintaining this dimension depends on the very failure in the full constitution of a differential identity. It is here that the “universal” enters into the scene. Let us suppose that we are dealing with the constitution of the identity of an ethnic minority for instance. (…), [I]f this differential identity is fully achieved, it can only be so within a context – for instance, a nation-state – and the price to be paid for total victory within the context is total integration with it. If, on the contrary, total integration does not take place, it is because the identity is not fully achieved – there are, for instance, unsatisfied demands concerning access to education, to employment, to consumer goods and so on. These demands cannot be made in terms of difference, but of some universal principles that the ethnic minority shares with the rest of the community (…)».*

WeSetParticular

Isto não é um menosprezo pelo movimento social lgbt. As conquistas dos movimentos lgbt foram conquistas civilizacionais e foram responsabilidade de uma exigência de visibilidade e legitimidade por parte de quem se encontrava excluído de um sistema de significação política totalmente dominado pela heteronormatividade patriarcal através, em grande parte, de organizações e movimentos sociais lgbt. Encontramos nos sindicatos os mesmos méritos em relação ao proletariado e por aí fora. Quer isto dizer que o falhanço do título não corresponde a um qualquer desejo de falhanço na assumpção das exigências particulares dos movimentos sociais identitários pelo sistema de poder. O falhanço de que falo é aquele momento em que se percebe que atribuir um prémio a António Simões por ser um gay inspirador levanta questões que abalam qualquer discurso de emancipação, incluindo da emancipação lgbt, e nos leva a pensar outra vez em antagonismo, que, como diz o Badiou, «turns out to be the destruction of that which did not exist».**

* LACLAU, Ernesto, Emancipation(s). Londres e Nova Iorque: Verso, 2007, pp. 27-28.

** BADIOU, Alain, Theory of The Subject. Londres e Nova Iorque: Continuum, 2009, pág. 128.

2 thoughts on “No falhanço é que está o ganho

  1. Era assim como um grupo organizado de mulheres atribuir um prémio à Merckel por ser uma mulher forte e capaz.
    Oh Clemente não dá para explicar isso do antagonismo um bocadinho mais?
    Este ano não há deborditos de Ouro?

Deixe o seu comentário.

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s