O que escondem as mercadorias

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Nas fábricas que o capitalismo deslocaliza para oriente (na sua eterna busca por mão de obra sempre mais barata), como sucede numa unidade da Pegatron onde é produzido esse adorado brinquedo da contemporaneidade que é o iPhone 6, os turnos, que são habitualmente de 12 horas, podem facilmente chegar às 18, sem que seja dado qualquer descanso aos trabalhadores que manifestem tal vontade/necessidade. Aí, fazer horas extra não é uma opção voluntária dos trabalhadores, mas uma imposição da gestão de recursos humanos à qual aqueles não podem senão obedecer, sob pena de serem imediatamente despedidos e privados do único elo que mantêm com o mundo do salário.

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Nos dormitórios destas fábricas, as pequenas habitações chegam a albergar mais de uma dezena de trabalhadores. Pois é, caro leitor, leu bem, nestas fábricas existem… dormitórios. Parece coisa do passado, bem sei, mas não é; é mesmo do presente. Ou seja: o pessoal que trabalha nestas fábricas (geralmente recrutado em províncias longínquas, a milhares de quilómetros das mesmas) não vai dormir a casa, porque não tem casa (tê-la-á apenas para ir passar as férias, mas será que esta gente, que não tem direito a sono, tem direito a… férias?!).

Estes trabalhadores habitam a fábrica dia e noite. Fora dela, não têm vida. E, como dentro da fábrica tão pouco há vida, são gente que foi privada de viver. É isto que escondem as mercadorias (sejam elas gadgets, saias, cadeiras ou bananas) que se consomem no capitalismo: exércitos de pessoas obedientes, disciplinadas, cumpridoras, mas sem vida. Qualquer comparação que se faça disto com a escravatura é pura má língua, claro.

Deixo-vos a impressionante reportagem que a BBC acaba de estrear que retrata as condições infra-humanas da produção de gadgets para a marca mais amada e prestigiada da contemporaneidade.

About PDuarte

Historiador, jardineiro, horticultor. Vive na província. No tempo vago, que procura multiplicar de dia para dia, perde-se em viagens, algumas pelos montes em redor, outras pelos livros que sempre o acompanham. Prefere o vinho à blogosfera, a blogosfera ao Parlamento.

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