Não basta querer para poder, se quem se lixa não estiver para aí virado

self-sufficiency-mythNão partilho da viscosidade revelada pelo João Labrincha relativamente a todos aqueles que não estão convencidos da necessidade de um novo partido ou para aqueles que, estando disso convencidos, têm dúvidas sobre se estarão reunidas as condições para o fazer já.

Vários dias depois da Assembleia Cidadã que tomou em mãos a tarefa de ponderar esta proposta, nenhuma das pessoas, organizações ou partidos que ali se reuniram foi para a rua recolher assinaturas, nenhum grupo de trabalho reuniu (excepção feita ao que procura desenvolver uma ferramenta digital de participação) nomeadamente para desenvolver um esboço de estatutos ou uma base programática, entre outras etapas necessárias para a constituição de um partido. Não basta uma calorosa mas vazia declaração de intenções. Era preciso mais. O que seria natural se esta proposta tivesse a centralidade que a Assembleia lhe deu é que em poucos dias o burburinho desse lugar à actividade política e, ao invés do habitual ronronar dos estrategas em reuniões infinitas, os cidadãos estivem num processo quase selvagem de dinamização da tal panaceia. O que aconteceu ao entusiasmo votado é algo que deve ficar claro nos próximos dias, mas que não me parece alheio às declarações de cooptação entretanto anunciadas.

Acordou-se tarde, quer-me parecer. Não vejo que se deva perder a oportunidade de criar um movimento de raiz pela ida precoce às urnas. O perfume do voto, como lhe chamou o bilioso incondescendente, pode ser, entre outros desperdícios, o abismo que liquida a possibilidade de ir já a votos nas próximas eleições legislativas. Muitos dos envolvidos neste processo deviam ter pensado nisto antes, sobretudo aqueles que sempre enjeitaram a ideia de transformar o protesto social em organização política e aqueles que, antes mesmo do protesto social existir e se consolidar, já acumulavam várias organizações políticas.

Não é por chegarmos tarde que tal não deve acontecer. Há muito para fazer que pode começar a ser feito para que, a prazo, todas as ferramentas estejam ao nosso alcance. Avançar sem freio, ainda por cima sobre a confirmação de que são poucas condições para criar um novo sujeito político, é só um inconsequente acto de voluntarismo ou, em casos piores, uma capitulação à pressão eleitoral, essa que todos dizem ser o menos importante dos palcos. Pagaremos caro se o tempo dos que são necessários se substituir à impaciência dos que avançam sejam lá quais forem as circunstâncias, mas o contrário também é verdadeiro. Quem aguarda por condições deve saber que provavelmente nunca estarão todas reunidas. Em todo o caso, a transformação da pressa em insulto ou em manobra política não será capaz de produzir nada de novo a não ser uma farsa ou uma trágica comédia que nos levará o dobro do tempo a superar. A auto-suficiência nunca rompeu com a marginalidade e é sobretudo disso que precisamos.

Descarrega aqui a acta da mesa da Assembleia Cidadã, vídeos da iniciativa na página do Podemos Falar ou do evento da Assembleia.

10 thoughts on “Não basta querer para poder, se quem se lixa não estiver para aí virado

  1. Gostava de obter mais detalhes relativamente à génese deste movimento. Importante para mim como cidadão anónimo saber quem são os lideres deste movimento e se entre eles existem pessoas ligados ao passado recente.

  2. Tanto derrotismo, Renato. (Além de não teres aflorado que a razão para não se ter avançado tenha sido uma posição, uma vez mais, de bloqueio de uma comissão dinamizadora que tem membros que a querem transformar em comissão dinamitadora) Não leves a mal mas, ao ler-te, só me veio à cabeça a imagem do menino da lágrima.
    E aquilo que eu vi na assembleia, que vejo nas ruas, nos blogues, em todo o lado, é uma imensa vontade de fazer acontecer. E o que constato é a urgência de o fazer. Isto, conjugado com a muita experiência – boa e má – de organização colectiva de muitas pessoas envolvidas no processo, só me faz pensar uma coisa: ninguém nos pára! Isto vai acontecer e vai ter sucesso! Vamos! Podemos!

    1. Não é derrotismo João, é alguma, muita, alergia ao triunfalismo. Não há menino guerreiro capaz de me convencer que a coisa vai sem haver condições para a coisa ir. Mas claro, desta vez espero mesmo estar enganado.

      1. eu sou muito impaciente. para ir é já
        “(…) we should be goin’ nowhere fast
        It’s so much better goin’ nowhere fast(..)”
        mais uma pérola dos 80 para alegrar as festas
        feliz natal :)

  3. Renato, há que estar atento a pequenos pormenores. Quando, na Assembleia cidadã, foi proposta a formação de grupos de trabalho (a partir da própria assembleia), logo alguém tentou abafar a ideia, dizendo que já existiam… inviabilizando assim a participação. Quando alguém propôs que a comissão dinamizadora fosse aberta a membros da assembleia, logo alguém teve o descaramento de dizer assim só daria confusão… assim sendo, só se espera mais do mesmo (infelizmente)…

  4. Portanto, o MAS tomou aquilo de assalto…? É preciso alguma falta de vergonha na cara, de facto… Se já têm um partido, para que é que precisam de outro (se não for para o matar)?

  5. Aqueles que insistem em tapar o Sol com a peneira continuam convencidos que, do alto da sua verdade absoluta, conseguem que a realidade não o seja. Pois estarão sempre enganados. Os factos, por mais negados, têm sempre a faculdade de resistir. Alguns dizem aqui que não há recolha de assinaturas, depois de o R. atacar o MAS por as ter recolhido, ou mais grave ainda “coordenar a sua recolha”. Se não sabem do que falam, ao menos não digam enormidades. As mais de duas mil já recolhidas falam eloquentemente por si e desmentem a sanha destruidora que anima os que defendem nunca haver condições. Além da recolha de assinaturas, o outro grave crime do MAS é o de ter uma pessoa na mesa da assembleia e outra na comissão. Para cobrir o fantasma do assalto ao poder, estamos conversados. Mas urge desmontar as razões destas tentativas de excomunhão do MAS. Porque razão alguns detentores da verdade absoluta querem a todo o transe excluir um colectivo de participar num movimento de base? Dá que pensar. Se o MAS sempre participou e dinamizou alguns dos principais movimentos de massas acontecidos no passado recente, não se vê nenhuma razão para não integrar tb este. Será que os referidos se consideram únicos proprietários da coisa? Provavelmente deve ser esta a explicação. Mas se estou enganado, então que avancem com outro motivo qq. Mas ao menos assumam, (caraças!), destapem a cara e digam claramente por que razões combatem tão ferozmente uma organização que sempre esteve e estará com as lutas de base. Digam lá quem está a organizar o 1º sindicato dos call-center? Serão os burocratas da CGTP? Serão os situacionistas da UGT? Ou isso já não convém referir?
    O anónimo falou de matar. Quem decidiu matar não foi o MAS, mas o NRA+JAD+PG+ sus muchachos que decidiram sair para confessadamente matarem o movimento. Ainda bem que não conseguiram, antes o estimularam e isso tb justifica a raiva com que se referem ao caso. Mas a sua estatura “moral”, acima de toda a crítica, impede-os de assumir estes factos.
    Seja como for, e apesar das ferroadas destrutivas, o MJP está a funcionar, a criar núcleos em diversas cidades e a afirmar-se serenamente. Claro que isso doi muito a alguns senhores. Destruir é sempre mais fácil que construir. Para construir é preciso muito empenho, paciência, trabalho, estudo, tolerância, horizontes claros, estratégia honesta, abertura….enfim, tudo aquilo que não consta do dicionário de algumas pessoas. Mas nunca é tarde. É sempre possível e desejável que apanhem o comboio. Basta que venham por bem…as portas estarão sempre abertas…
    Não esbanjámos……. Não pagamos!!!!!
    ZM

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