‘”ACUSEMOS ISRAEL”, “A IDENTIDADE impura, todas as identidades são impuras – sobre o último livro de EDWARD SAID”, “Amor, Morte e Gaza”‘, por Boaventura Sousa Santos, Carlos Vidal e Shahd Wadi*

1ACUSEMOS ISRAEL

Por Boaventura Sousa Santos*

Os cidadãos do mundo deviam propor a criação na Palestina de um Estado secular, plurinacional e intercultural, onde judeus e palestinos possam viver juntos.

Podem simples cidadãos de todo o mundo organizar-se para propor em todas as instâncias de jurisdição universal possíveis uma ação popular contra o Estado de Israel no sentido de ser declarada a sua extinção, enquanto Estado judaico, não apenas por ao longo da sua existência ter cometido reiteradamente crimes contra a humanidade, mas sobretudo por a sua própria constituição, enquanto Estado judaico, constituir um crime contra a humanidade? Podem. E como este tipo de crime não prescreve, estão a tempo de o fazer. Eis os argumentos e as soluções para restituir aos judeus e palestinos e ao mundo em geral a dignidade que lhes foi roubada por um dos atos mais violentos do colonialismo europeu no século XX, secundado pelo imperialismo norte-americano e pela má consciência europeia desde o fim da segunda guerra mundial.

O termo sionismo designa o movimento que apoia o “regresso” dos judeus à sua suposta pátria de que também supostamente foram expulsos no século V AC. Há, no entanto, que distinguir entre sionismo judaico e sionismo cristão. O sionismo judaico tem origem no antissemitismo que desgraçadamente sempre perseguiu os judeus na Europa e que viria a culminar no holocausto nazi. O sonho de Theodor Herzl, judeu austríaco e grande poponente do sionismo, era a criação, não de um Estado judaico, mas de uma pátria segura para os judeus. O sionismo cristão, por sua vez, é antissemita, e a ideia de um Estado judaico deveu-se a políticos britânicos, sionistas e anglicanos devotos, como Lord Shaftesbury, que, acima de tudo, desejavam ver o seu país livre dos judeus-enquanto-judeus. Eram tolerados os judeus cristianizados (como Benjamin Disraeli, que chegou a ser Primeiro Ministro), mas só esses. Esta tolerância estava de acordo com a profecia cristã de que é destino dos judeus converterem-se ao cristianismo. O mesmo sentimento se encontra hoje entre os evangélicos norte-americanos, que apoiam Israel como Estado judaico, bem como a sua desapiedada expansão colonialista contra os palestinos, por acreditarem que a redenção total ocorrerá no fim dos tempos, com a conversão dos judeus na Parusia (o regresso de Jesus Cristo).

Terá sido Lord Shaftesbury quem, ainda no século XIX, formulou o pensamento “uma terra sem povo para um povo sem terra” que ajudaria mais tarde a justificar a criação do Estado de Israel na Palestina em 1948. E alguns anos mais tarde, foi outro sionista não judeu (Arthur James Balfour) quem propôs a criação de “uma pátria para os judeus” na Palestina, sem consultar os povos árabes que habitavam esse território há mais de mil anos. “Os Grandes Poderes” (Áustria, Rússia, França, Inglaterra), lê-se no Memorandum Balfour de 11 de Agosto de 1919, “estão comprometidos com o Sionismo. E o Sionismo, correto ou incorreto, bom ou mau, tem as suas raízes em antiquíssimas tradições, em necessidades atuais e em esperanças futuras, que são bem mais importantes do que os desejos de 700.000 árabes que neste momento habitam aquele antigo território”. Urgia, pois, transformar esses árabes em um não-povo.

Em 1948, com o beneplácito dos poderes ocidentais, especialmente da Inglaterra, foi criado o Estado de Israel numa Palestina povoada de árabes e 10% de judeus imigrantes. Argumentava-se então que havia de se encontrar um espaço para o povo judeu, que ninguém queria receber depois do genocídio alemão. Muito antes dessa catástrofe, os sionistas judeus tinham já pensado em vários locais para o seu futuro Estado. No final do século XIX, a região do Uganda, no que é hoje o Quênia, então colônia inglesa, foi ponderada como um possível local para o futuro Estado de Israel. Um espaço na Argentina chegou também a ser considerado. Mais tarde, auscultado sobre um local no norte de África (no que é hoje a Líbia), o rei da Itália, Victor Emmanuel, terá recusado, respondendo: “Ma è ancora casa di altri”.

Mas nenhum europeu, por mais preocupado com a situação dos judeus, jamais pensou num lugar dentro da própria Europa. Havia que inventar-se “uma terra sem povo para um povo sem terra”. Mesmo que fosse necessário obliterar um povo. E assim se vem paulatinamente eliminando um povo da face da terra desde há sessenta e seis anos. A Cisjordânia palestina vem sendo desmantelada pelos colonatos ilegais e a Faixa de Gaza transformada em prisão a céu aberto. A extrema-direita israelense é apenas mais estridente do que o governo ao reclamar que os “árabes fedorentos de Gaza sejam lançados ao mar”. O que é espantoso, comenta o historiador judeu israelita, Ilan Pappé em The Ethnic Cleansing of Palestine (2006), é ver como os judeus, em 1948, há tão pouco tempo expulsos das suas casas, espoliados dos seus pertences e por fim exterminados, procederam sem pestanejar à destruição de aldeias palestinas, com expulsão dos seus habitantes e massacre daqueles que se recusaram a sair. O controverso comentário de José Saramago de há alguns anos de que o espírito de Auschwitz se reproduz em Israel faz hoje mais sentido do que nunca.

Assim foi sacrificada a Palestina, invocadas razões bíblicas e históricas, que a Bíblia não sanciona e a história viria a desmistificar. Muitos judeus, como os que constituem a Jewish Voice for Peace, não são sionistas e consideram que o Estado de Israel, nas condições em que foi criado (um território, um povo, uma língua, uma religião) é uma arcaica aberração colonialista fundada no mito de uma “terra de Israel” e de um “povo judaico”, que a Bíblia nem sequer confirma. Como bem demonstra, entre outros, o historiador judeu israelita, Shlomo Sand, a Palestina como a “terra de Israel” é uma invenção recente (The Invention of the Land of Israel, 2012). Aliás, ainda segundo o mesmo autor, também o conceito de “povo judaico” é uma invenção recente (The Invention of the Jewish People, 2009).

A criação do Estado judaico de Israel configura um crime continuado cujos abismos mais desumanos se revelam nos dias de hoje. Declarada a sua extinção, os cidadãos do mundo propõem a criação na Palestina de um Estado secular, plurinacional e intercultural, onde judeus e palestinos possam viver pacifica e dignamente. A dignidade do mundo está hoje hipotecada à dignidade da convivência entre palestinos e judeus.

*Boaventura Sousa Santos será um dos oradores na Conferência “Palestina: Colonialismo, Racismo e Resistência”, a realizar no próximo dia 10 de Janeiro.

2A IDENTIDADE impura, todas as identidades são impuras – sobre o último livro de EDWARD SAID

Por Carlos Vidal*

Freud and the Non-European foi o último livro publicado em vida por Edward Said. Banido por grupos sionistas habituais e conhecidos, trata-se de uma conferência que não pôde ser lida no Instituto Freud de Viena e passou para o “exílio”, como o próprio Edward Said, e acolhimento do Museu Freud de Londres. Lida e publicada em 2003 (ano da morte do autor), fiz também e recensão deste texto para a madrilena “Exitbook” nº2.

Mostra aqui Said como a identidade judaica é não-judaica: Moisés e o monoteísmo nasceram no Egipto. É este o meu texto:

Orientalism: Western Conceptions of the Orient, de 1978, é um dos livros mais divulgados de Edward Said. Neste ano das «Bodas de Prata» [2003] da sua publicação, a Universidade americana de Columbia, a que Said está ligado desde há muito, homenageia o professor com um evento especial (uma conferência alargada), no preciso momento em que Said publica um novo livro: Freud and the Non-European.

A obra de Edward W. Said é hoje lugar de paragem obrigatória em qualquer debate que na arte contemporânea comente a alteridade, a representação do Outro (de Gramsci a Terry Eagleton), os Estudos Culturais, os «Subaltern Studies», juntamente com os trabalhos de Homi Bhabha, Gayatry Spivak, Edouard Glissant ou Ramajit Guha (o «fundador» dos «Subaltern Studies»), mas Said é também um dos mais notáveis ensaístas do pós-guerra, com uma obra extensíssima de problematização, erudição e crítica, resistência e activismo político. Conheço poucos autores onde se detecte tão evidentemente uma ligação entre teoria e activismo, entre pensamento e prática e, já agora, entre livros, facetas e impacte de umas áreas de interesse noutras, através de uma minuciosa teia de autores, disciplinas e metodologias.

É flagrante a marca dos seus estudos sobre o orientalismo na sua definição de crítica (ver The World, the Text and the Critic, 1983), e deste labor teórico na sua realidade de resistente e exilado palestiniano (ver os artigos que desde há anos publica no jornal egípcio Al Ahram – que obrigatoriamente leio na edição inglesa on-line, ou os livros Blaming the Victims, Covering Islam, etc). É ainda verdadeiramente espantoso como tudo isto cirurgicamente se interliga com a sua definição de intelectual (Representations of the Intelectual, 1994) e com os seus importantíssimos estudos musicológicos (e uma vez mais quando estuda as relações entre a Aida de Verdi e a identidade cultural, está a retrabalhar a sua crítica ao orientalismo, entre muitos outros exemplos). Vejamos a relação entre intelectual e nação: para Said, o triunfo do nacionalismo nunca é um objectivo final, no que segue Frantz Fanon, Aimé Césaire ou Amílcar Cabral – sobre o terreno da nova nação, descolonizada e liberta, o intelectual tem de inventar novas identidades, novas «almas» ou personalidades, mostrando ainda e sempre que o sofrimento de um povo está para além dos limites desse povo. Cabe ao intelectual revelar consonâncias entre o sofrimento e a ocupação de um determinado povo estabelecendo paralelos com outras gentes, pois ninguém – por critérios nacionalistas – tem o «monopólio do sofrimento». Só a interacção e o mútuo conhecimento libertam. Seguindo o historiador Giovanni Vico e a tese de que os homens fazem a sua história, Said vai considerar o «orientalismo» como uma invenção do ocidente, e partir daí para uma defesa da crítica secular, como lhe chama, contra a crítica religiosa, esta povoada de lugares-comuns e de estereótipos como essa oportunista invenção «orientalista» (ver The World, the Text…., pp. 1-31 e pp. 290-292).

Neste contexto, qual é o fulcro deste Freud and the Non-European ? É a temática de sempre em Said: a crítica da imposição política de um espaço identitário uno e puro. Partindo do texto de Freud, Moisés e o Monoteísmo, Said vai desenvolver a tese do fundador da Psicanálise, de que Moisés era um egípcio, para atacar o fascismo identitário de Israel. Política esta fundada numa identidade segregativa e de legitimação fundamentalista religiosa (que oprime cerca de 2 milhões de árabes … «israelitas»), que explica o recalcamento deste texto de Freud no contexto da preferência do estado judaico por abrir uma fenda sem futuro entre judeus e árabes para alimentar uma guerra infinita sob o patrocínio da hiper-potência americana.

Sigmund Freud não é propriamente um pensador integrável no que hoje chamamos de estudos pós-coloniais, tal como outros representantes da sua geração, Thomas Mann, Romain Rolland ou Eric Auerbach também não o foram, e o seu tempo não era afectado por aquilo que hoje consideramos a «problemática do Outro». Ainda assim, o que sobressai dos textos freudianos sobre as culturas não-europeias é a inexistência (teórica ou outra) de um muro a separar os europeus dos restantes. Como falar então de Moisés e o Monoteísmo, um dos últimos ensaios de Freud? Said começa por considerá-lo em função daquilo que nos seus estudos de musicologia chama de «late style», ou seja, o «estilo derradeiro», que apreende em autores como Beethoven sobretudo: Beethoven conduz-se e conduz-nos à pura «estranheza» (nos últmos quartetos de cordas sabemos bem o que isso quer dizer), combinando processos compositivos arcaicos com soluções contrapontísticas avançadíssimas; por seu lado, Freud escreve talvez o seu único livro não didáctico nem pedagógico. Este facto leva Said a considerar que Freud, aqui, pretenderia algo mais do que uma simples «teorização».

Freud credita o Faraó Akhenaton como o inventor do monoteísmo, cruzando essa afirmação com a origem egípcia de Moisés. O facto de Freud desenhar em alto contraste a relação entre Moisés (fundador de um povo e seu outsider) e a comunidade que ele estabeleceu, serve a Said para considerar que toda a identidade histórica é compósita, o que no caso judaico é tanto mais evidente porquanto teremos de equacionar a morte do pai (Moisés assassinado) e a fuga do Egipto com acontecimentos anteriores, como os cultos a Jahve, partilhados por várias tribos de todo o Sul da Palestina. Assim, Said conclui, com Freud, que o recalcamento da ambiguidade de Moisés conduz em Israel a uma purificação identitária (que se serve não apenas de um exército destrutivo, como ainda de uma ciência como a arqueologia) que apenas sobrevive interditando aos outros a posse da sua identidade. Israel torna-se desta maneira a casa fechada dos judeus e, pelo contrário e em Freud, essa terra só poderia existir como casa aberta: porque a origem dos judeus é não-judaica.

*Carlos Vidal será um dos oradores na Conferência “Palestina: Colonialismo, Racismo e Resistência”, a realizar no próximo dia 10 de Janeiro.

shad_wadiAmor, Morte e Gaza

Por Shahd Wadi*

Queria partilhar histórias de amor em Gaza, de coragem, de resistência e de luta para a liberdade. Mas já não há. Tudo morreu em Gaza. Todas as palavras morreram em mim.

Não vou escrever este artigo.

Tudo o que vou escrever não terá sentido.

Nunca detestei tanto escrever assim. Já não há palavras, já não há nem sequer raiva. Sinto-me morta, cheirei tanta morte enquanto estive escondida atrás do ecrã do computador que agora me sinto morta também.

Nunca senti que escrever pode ser um acto assim tão fútil, nunca detestei a minha fuga nas palavras, tão feio o som de teclado: bom bom bom! Prefiro mil vezes ouvir o som das bombas a cair nas nossas cabeças, todos nós somos culpados neste massacre e em muitos outros que já aconteceram.

A minha solidariedade com o meu povo palestiniano em Gaza não tem sentido, tão fútil parece esta palavra “solidariedade” perante as vidas humanas que deixaram de ser vidas. Estamos aqui nesta parte do mundo, partilhamos uma foto ou duas no facebook de crianças aterrorizadas e pedaços de corpos estilhaçados de mulheres que foram um dia muito lindas, largamos uma lágrima ou duas, desligamos o computador e depois vamos a praia, no máximo participamos numa manifestação de “solidariedade” com Palestina, jantamos, bebemos um copo de vinho, vimos televisão e fazemos amor.

Também em Gaza havia amor, mas já morreu. Foi atingido por uma bomba israelita e ficou completamente em pedaços, estilhaçado e completamente queimado, o amor tornou-se cinza e foi pisado por tantas pessoas enquanto fugiam da morte.

“Também nós amamos a vida quando podemos.” disse o poeta palestiniano Mahmoud Darwish. Mas já não podemos. Já não há vida. Já não há amor. Em Gaza tudo foi morto, assassinada, massacrado.

Não consigo escrever este texto. Este texto não deve ser escrito, não faz sentido. Desde o momento em que comecei a escrever até agora já mudou tantas vezes o número das mortes que caiem como as flores numa tempestade de chuva de fogo. Queria partilhar histórias de amor em Gaza, de coragem, de resistência e de luta para a liberdade. Mas já não há. Tudo morreu em Gaza. Todas as palavras morreram em mim.

Não deveria ser eu a escrever o artigo. Quem deveria escrever este artigo já morreu.

*Shahd Wadi será uma das oradoras na Conferência “Palestina: Colonialismo, Racismo e Resistência”, a realizar no próximo dia 10 de Janeiro.

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