“Ai Portugal Portugal….”, por Soraia Simões

10866890_877603242270821_828567553_nDepois da significativa ascensão no mercado musical nacional, parece que o querem tornar num objecto de debate entre ‘sectores intelectuais’. Com tanta frequência estes demonstraram uma visão negativa em relação ao estilo, visto por vezes como símbolo de um Portugal atracado ao antigo regime disperso territorialmente entre os nichos que compoem as comunidades emigrantes, como uma identificação para a maioria dessas comunidades. Género: se ele conseguiu qualquer um de nós conseguirá.

No que se refere à interpretação vocal, não há grande diferença desde que se iniciou, não há maior ou menor uso de ornamentos melódicos, percebemos que a maneira de cantar nos apresenta, ao longo dos tempos, similaridades.

Não se denota nenhum alcance de precisão das notas mais agudas ou mais graves da sua extensão vocal, de forma a criar uma expressividade que, a meu ver, marque de modo distintivo a sua interpretação.

No que concerne ao âmbito jornalístico as suas canções parecem observar agora uma importância nunca antes recomendada.

No que se refere às letras das canções, pode-se considerar que o teor romantizado, muitas vezes marcado por um carácter festivo, aparente principalmente no acto da performance, desde a forma de se vestir até a de se movimentar, nos vieram a demonstrar um grande potencial comercial a ser aproveitado que se alargou a mais grupos sociais fora dos nichos da emigração portuguesa pelo mundo, fora das aldeias, aproximando-se dos centros urbanos.
A crítica desfavorável de outrora, a que era tecida aos padrões interpretativos de um «cantor romântico», parece que é assim que apelidam, ressaltou um olhar negativo que se estabeleceu, especificamente, sobre a produção de cantores como este dentro e fora de Portugal.
Agora, parece que o encaixam numa espécie de novo segmento, entre o nacional e popular — bandeira identificativa de um conjunto de outras valorizações –, expressão sintomática de uma indústria pouco clara.

Dentro de um quadro de crescente afastamento organizacional da indústria fonográfica, que marcou o período entre os anos de 1960 e 1990 em Portugal, consta que este ‘artista’ vende.

Acho porreiro que a estratégia de controle de investimentos para o mercado passe por devolver aos públicos o que estes querem ouvir (argumento mais utilizado pelas tecnologias de produção e recepção musical) com a reciprocidade que a televisão, barómetro ainda para muitos mesmo com a projecção dada pela internet, lhes oferecer, mas a abrangência de público de um Toni estará de acordo com as intenções dos mecanismos de produção e recepção, de quem os gere, revelando em simultâneo a pouca importância que é atribuída às especificidades do público consumidor, mostrando ser este um sinalizador de prestígio no meio em que gravitam.

Para quem tem ligações, directas e indirectas, à música que por cá é feita, o argumento do mercado não parte de princípio nenhum de carácter cultural, musical, musicológico, antropológico ou mesmo sociológico, embora pareça, parte isso sim do princípio de que o que diferencia este de outros autores não é propriamente o carácter do trabalho que desempenha, as suas escolhas ou o modo como as suas canções são executadas ou chegam e ”tocam” os indivíduos, mas sim um conjunto de tensões que evidenciam uma dinâmica que tende a estabelecer-se na esfera cultural pós-modernista, com a força de um mercado de massas, alavancada pelas estratégias dos poderes dominantes, que tem estrangulado a criação de um número considerável de músicos em Portugal.

O problema, que nem é um problema, não é o Toni Carreira, o problema mesmo é este discurso mais actual que indicia que o declínio da popularidade de autores e compositores em Portugal e o desgaste decorrente das suas experiências profissionais e da falta de apoios se deve a ele. E não. Deve-se sobretudo a esta ideia pré-concebida que os meios de comunicação e difusão têm de que dão ao povo aquilo que o povo quer.

Ora, partir para um trabalho auto-denominado «serviço público» com esta premissa é meio caminho andado para dar vários tiros para vários lados, mas muito pouco certeiros na missão auto-apelidada.

A propósito disto ler “A star e o sonhador”.

Publicado originalmente aqui.

Anúncios

Deixe o seu comentário.

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s