O Tempo dos Assassinos III – C’est La Guerre

c'est la guerre 2

Que o “verdadeiro nome” do antropoceno seja capitaloceno não significa que este seja o “abre-te sésamo” das suas aporias e limites. Apesar do conforto inerente ao regresso a casa – afinal fala-se de capitalismo há alguns séculos – a recolocação da problemática ecológica numa esfera capitalista não implica que o sujeito do antropoceno seja uma reunião entre o sujeito do capitalismo e o sujeito da ecologia e que portanto se trate de repensar uma modalidade de agenciamento “eco-anarquista” ou “eco-comunista”. Não se trata apenas de pensar a superação do capitalismo numa chave de sustentabilidade dos recursos naturais, de organizar uma “revolução verde” ou de multiplicar polos de decrescimento, de transição ou de autonomia. Se é verdade que “a humanidade não assume tarefas que não é capaz de resolver” então dar um nome é uma tarefa que pressupõe desde logo um actor. Assim sendo seria duvidoso afirmar que o sujeito político do capitalismo é ipsis verbis o sujeito de um capitaloceno.

Duas questões importantes parecem transformar o campo da política. A primeira destas questões tem a ver com o conceito de “crise”. A teoria do antagonismo político ocupa-se de pensar modalidades pelas quais emerge uma capacidade colectiva de acumular e encavalitar acções que provoquem a abertura de uma brecha no encadeamento do sistema. Abertas essas fendas no mundo seria apenas questão de as atravessar e de as multiplicar, fazendo finalmente ruir a estrutura. A “crise” seria então algo que os danados da terra levariam até ao cerne do império, ou, pelo menos, uma das inadvertidas brechas estruturais pela qual aplicar o golpe de misericórdia a um regime caduco. Não obstante a maioria das considerações críticas sobre a “recuperação” sejam agora tão interessantes quanto a mais empoeirada literatura secundária do marxismo-leninismo, há algo nessa reflexão que podemos “recuperar” também para esta temática: a ideia de que a “crise” em si não é um enviesamento do sistema mas sim, desde há algum tempo, o seu principal dispositivo de organização e exercício do poder, ou seja, que o poder do estado e do capital se exerce hoje através de uma sucessão de activismos que procuram precisamente abrir brechas nos muros. O capitalismo procura constantemente quebrar as fronteiras que o separam de produtividades não valorizadas, através da constante captura de novas esferas de acção, e o estado procura constantemente quebrar os muros das resistências que ele próprio vai constituindo, quer sejam alianças de classe quer sejam conflitos entre grupos económicos diferentes, instrumentalizando estrategicamente os espaços de excepção abertos. A crise não é então um percalço do sistema, um sinal da sua imperfeição, um limite na sua reprodução, um glitch no sedoso deslizar das coisas, mas precisamente o modo pelo qual este governa e produz sentidos e realidades. Ora o cidadão modelo deste status-quo não é a habitual caricatura do conformismo burguês ou da passividade proletária mas precisamente o incansável e resiliente activista que dia após dia inova e questiona o colapso à sua volta.

A segunda questão que parece transformar o campo da política é sugerida pelo modo como o capitalismo parece cada vez mais girar no vazio. Não se trata unicamente de acusar os modos como o trabalho vai mudando, de como tanto dele se tornou imaterial, criativo ou logístico, ou de mapear o crescente modo espectral da valorização financeira do capital, de como este se tenta continuamente livrar da sua componente “trabalho”. A reorganização da produção em módulos cada vez mais atomizados, a multiplicação de nichos isolados de macro-exploração e o alcance de um estádio fantasmagórico da relação entre produtor e produção contribuem a um questionamento de quais serão os vínculos que materialmente constituem a pólis. A proletarização do trabalho afectivo e criativo sugere uma situação extremamente ambigua: se um por lado significa que esses campos são desterritorializados da sua metafísica conservadora e reorganizados dentro de uma eventual consciência proletária que pode operar neles a sua subjectividade tendencialmente resistente, por outro lado essa extensão do domínio do capital a todos os aspectos da reprodução humana pode também sugerir o fechar de um circulo perfeito de dominação onde não sobram pontas soltas por onde desfazer o nó. A afirmação sectorial de uma burguesia que controla os meios materiais da informação e da sua circulação, e não da produção, contribui a fomentar então uma forma cada vez mais religiosa do capitalismo, um capitalismo zen, não enquanto metafísica da dívida mas enquanto omnipresença perfeita que estende a mesma lógica do chefe de estado ao status update. É este emergir do capitalismo enquanto produtor de hiperobjectos, que estão em todo o lado mas são intangíveis, que tudo moldam mas a nada respondem, que afirma precisamente o fim do mundo.

O fim do mundo não significa, necessariamente, o fim do planeta enquanto biosfera, o fim da presença humana na terra ou o colapso total da civilização ocidental, mas sim o ruir de uma imagem do mundo fundamentada numa ideia de universalidade e de que no âmago do existente estaria essa forma perfeita da natureza, a esfera global perfeita, cuja geometria divina preconizaria de um modo ou de outro uma hipótese harmónica universal.

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A esfera perfeita do mundo é afinal pouco mais que uma mera batata, e o seu plano simbólico de esfera perfeita esfrangalhou-se num poliedro irregular de superfícies em crise. A metáfora geométrica torna explicita a dissonância entre a forma do colapso do mundo e a forma esférica habitualmente dada às redes conceptuais: a esfera da política, a esfera da vida privada, etc. De outro modo, a questão política no antropoceno já não é apenas a de propor universalidades alternativas e globais, a de lutar por concepções mais abrangentes e éticas do humano ou a de propor sistemas produtivos que materialmente irradiem um outro tipo de comunidade entre os sujeitos. A luta de classes deixou de se expressar na luta pelo mundo para encontrar a sua expressão precisamente na capacidade de constituir mundos. Regressemos à ânsia de dar nome à era e ao tempo no qual vivemos, sintoma de um profundo desnorte e de uma complexa inospitalidade. O sujeito do antropoceno é um sujeito sem nome, em permanente crise existencial, habitando uma terra de ninguém. Juntemos as peças. Que hipótese congrega o pleno emprego do sujeito resiliente com a disputa dos nomes titulares? A guerra. Se, como dizia Walter Benjamin, “não há documento de civilização que não seja, ao mesmo tempo, um documento de barbárie” então a era do homem, a era do triunfo absoluto de uma ideia de civilização é também a era do triunfo absoluto de uma forma particular de barbárie. C’est la guerre: viver no antropoceno é viver em guerra permanente.

(continua)

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3 thoughts on “O Tempo dos Assassinos III – C’est La Guerre

  1. olá

    “o ruir de uma imagem do mundo fundamentada numa ideia de universalidade e de que no âmago do existente estaria essa forma perfeita da natureza, a esfera global perfeita, cuja geometria divina preconizaria de um modo ou de outro uma hipótese harmónica universal”. Suspeito que a a ideia de universalidade de mundo, correspondendo a uma geografia sempre existiu junto das comunidades humanas (antes da terra ser um quadrado e depois uma esfera e depois um planeta numa galáxia) e que essa imagem ou ideia sempre esteve a ruir. Se é este mundo que está a acabar parece-me que já está há algumas eras a esta parte.
    Há coisas nestes textos, como no texto sobre a organização, que não são claros,ou não resultam clareza p mim, por ex: o que significa a luta de classes deixar de lutar por um mundo para passar a lutar pela constituição de mundos?

    abc
    Josina

  2. Oi Josina, obrigado pelo comentário.

    A ideia de um mundo preso a uma determinada geografia sempre terá existido, e de facto esteve várias vezes presente a ideia de que o fim desse mundo estava eminente, ou seja, sempre houve determinadas expressões apocalipticas em várias culturas. O que me parece diferente agora é que é de facto materialmente seguro que a vida dentro de vinte anos será diferente da vida hoje, exactamente pela insustentabilidade do presente modo de produção (que não pode ser tornado sustentável, entenda-se). Sempre houve uma percepção da forma do mundo, mas não uma sua imagem – isso é algo relativamente recente – e não uma sua percepção enquanto limitado e pequeno – creio que é apenas agora que o mundo começa a ser entendido enquanto parco e não suficiente…

    Quando digo que a luta de classes deverá deixar de lutar por um mundo para passar a constituir mundos gostaria de conseguir sugerir que não se trata tanto de disputar determinadas formas de soberania e de organização económica como de engendrar as suas – e não só isso, que essa luta não passa pela construção de novos modelos universais, matematicamente aplicáveis à globalidade do mundo, mas por soluções a níveis imediatos, no sentido de não mediados por questões ideológicas.

    mas são tudo questões em aberto claro

    um abraço

  3. olá Tiago
    Está sempre tudo em aberto, o mundo também ainda que parco.
    Nos anos sessenta e setenta milhares de pessoas no nosso país deslocaram-se para as maiores cidades vindas do interior, das aldeias e vilas que deixaram de ser em poucas décadas aquilo que tinham sido durante uns poucos de séculos. A vida na aldeia no seu modo de produção tornou-se insustentável e tudo mudou radicalmente em menos de 20 anos. Os campos encheram-se de silvas, os velhotes ficaram sozinhos, alcatroaram tudo em seu redor e os filhos e netos passaram a viajar de autoestrada na Páscoa e no natal para a Terra (com sorte ainda trouxeram azeitonas ou um chouriço na volta). Esse mundo acabou. Ou foi interrompido. Como muitos outros em todos os lados do mundo em muitos tempos.
    As crises climáticas e a exploração dos recursos sem quartel a nível planetário podem trazer uma consciência a um número maior de pessoas dessa geografia difícil e esse ser um factor novo, mas tenho bastante resistência a ver esse apocalipse ou as marcas dos fins dos tempos para lá do aspecto programático, estético ou ideológico dessa perspectiva. Ou seja, concordo que é a guerra mas tendo a achar que sempre foi. Para muitas pessoas em muitos momentos ao longo dos tempos foi sempre a guerra ou o fim do seu mundo que esteve em causa (sem precisarmos das visões apocalíticas na História, referia-me mais até aos discursos da decadência).

    Também resisto a achar que há lutas ou soluções não mediadas pela ideologia mas creio que compreendo melhor o que querias dizem em ambos os casos.
    abraço

    Josina

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