O Tempo dos Assassinos II – O Antropoceno e os seus Descontentes

capitaloceno

A narrativa “oficial” do antropoceno divide a era em três grandes épocas. O período começa no início do Séc. XVIII com a utilização do comboio a vapor, ou seja, quando a produção industrial começa a utilizar combustíveis fosseis, iniciando a sua extensão global, consequentemente multiplicando as modalidades de antropização da terra, através da construção de infraestruturas ou do depósito de resíduos. Este período de expansão dura até ao final da Segunda Guerra Mundial, quando se dá finalmente uma disseminação global da produção industrial e uma aceleração brutal da indústria militar que irá posteriormente encontrar aplicações civis. A terceira fase, a “grande aceleração” do pós-guerra, é marcada pelo acesso de milhões de pessoas ao consumo de mercadorias altamente poluidoras e pela massificação dos meios de sua produção e distribuição. Nos anos 90 soa o alarme ecológico relativamente ao aquecimento global e à destruição da camada de ozono, iniciando-se uma época de relativa autorreflexividade face às questões do ambiente, instituindo-se a “ecologia”, a “engenharia de ambiente” e o chamado “capitalismo verde”.

A narrativa oficial coloca então no centro desta história a figura ilusiva do antropos – a espécie humana achatada em sujeito moderno. Esta figura é problemática por duas razões, a primeira é que coloca enquanto bode expiatório de uma sucessão de escolhas políticas a universalidade abstracta da espécie, como se “todos” fossemos igualmente responsáveis por um desastre iminente (exactamente do mesmo modo como se culpa de modo igual pela crise o recipiente do rendimento mínimo de inserção como alguém com responsabilidades administrativas no estado). Esta culpa representa um primeiro ónus ontológico do sujeito moderno: o homem contemporâneo deve sempre algo às múltiplas instâncias que formam a sua primeira, segunda e terceira natureza. Deve algo ao seu estado-nação, que lhe deu uma identidade; deve algo à sua economia, que mobilizou recursos para o fazer viver e deve algo à “natureza”, que perece para lhe dar um sentido de espécie. A segunda razão pela qual o antropos é um sujeito problemático é que a sua autonomia o coloca enquanto algo separado da natureza, traçando uma cisão no cerne da espécie: de um lado a cultura e a excepcionalidade humana e do outro a natureza, simultaneamente alvo de projeções relativas ao sagrado e ao “subhumano”, local da maior das harmonias e da maior das violências. A referência às entidades orgânicas não-humanas enquanto “natureza” ou “ambiente” traduzem desde logo o regime ideológico dos termos. O “ambiente” será então um mero cenário do protagonismo humano e a “natureza” uma base, mais real ou mais espiritual, de tudo o que existe, partindo de uma série de qualificações ideológicas: harmónica, inesgotável, priva de alma, sagrada, etc. O “homem” e a “natureza” continuam assim entidades separadas e distintas, ideologicamente constituídas e amputadas. Esta fronteira – do humano e do não-humano, do político e do privado, da vida sagrada e da vida dispensável – não apenas separa mas também constitui e é então também a fronteira que percorre as modalidades de dominação política contemporânea.

Em alternativa ao antropoceno várias propostas têm sido feitas, sublinhando outras questões materiais e históricas centrais à fenomenologia geológica observada. Entre estas encontramos o fossilceno (que sublinha a utilização dos combustíveis fósseis), o tanathoceno (que fala do progresso industrial enquanto sucessiva aplicação de tecnologias militares experimentadas e desenvolvidas em cenários de guerra), o angloceno (onde tudo se deve ao imperialismo do mundo anglo-saxónico), etc. A proposta mais interessante parece ser a do capitaloceno, que liga a história dos últimos séculos à afirmação do capitalismo a nível global. Nesta proposta o início do antropoceno não se daria então no momento de aplicação uma técnica industrial em especifico mas, pelo contrário, no momento em que tomariam forma as lógicas políticas, económicas, produtivas e financeiras vulgarmente conhecidas por capitalismo.

E porquê o capitalismo e não a civilização humana em abstracto? Duas razões surgem à dianteira. A primeira prende-se ao modo como o capital procura constantemente taxas de lucro mais altas e como essa busca implica a ininterrupta proletarização de novas populações, a exploração de novos recursos, a criação de novas mercadorias e a fomentação de novos mercados. A história da expansão do capital é a história da irradiação das vias de comunicação entre diferente locais e métodos de produção industrial e diferentes locais de compra e venda de mercadorias. Esta incessante procura de lucro não só fomenta a busca por modos de produção e distribuição industrial mais rápidos e mais eficazes como procura sempre novos territórios “virgens” que possam ser incluídos no seu processo de valorização. A segunda razão observa o modo como no capitalismo sempre foi orquestrada uma separação entre trabalho renumerado e trabalho não renumerado, sendo essa fronteira precisamente uma das que contribui para a constituição ideológica de algo como uma “natureza”. Trabalho abstracto serão as horas de produção enquadradas no processo de valorização directo de uma mercadoria especifica (as horas que eu passo a produzir um objecto, um conceito ou um serviço); Trabalho reprodutivo serão todas as horas gastas na reprodução do trabalhador: o tempo dedicado ao descanso, à alimentação, ao transporte, à saúde e a todas as actividades que lhe permitem apresentar-se dias após dias no local de trabalho. Tal como os conhecemos hoje, os campos do “privado” e do “público” não são anteriores ao capital mas essencialmente criados por este, sendo esse mundo do intimo o que mais rapidamente é identificado com o “natural”. Historicamente o capitalismo sempre dependeu deste trabalho reprodutivo de modo mais ou menos óbvio, sendo o melhor exemplo o trabalho não-renumerado doméstico (essencialmente feminino), não apenas no seu sentido das funções de manutenção da unidade familiar (arrumar, limpar, cozinhar), mas também nas suas funções afectivas (fazer bebés, criar das crianças e dos idosos, etc). Ora incluída nesta produtividade não-renumerada, que no fundo é uma captura não contabilizável, está o continuo devir biológico da natureza não-humana. Do mesmo modo que o capitalismo foi descobrindo sempre novos modos de aumentar a produtividade do trabalho também foi descobrindo novos modos de apropriar e aumentar a rentabilidade da natureza. A expansão do capital pelo planeta ocorreu então numa fronteira dupla de proletarização das populações e “naturalização” dos recursos biológicos de determinado território enquanto devir interminável de “natureza barata”.

O que esta hipótese vem estabelecer é que a utilização de combustíveis fosseis não ocorre num processo linear e determinista, onde o engenho humano naturalmente descobre tecnologias especificas, mas que pelo contrário obedece a um projecto particular e político de organização das sociedades, cuja afirmação global foi constantemente moldada, e sofisticada, pelas inúmeras resistências exteriores e pela sua inerente conflitualidade interior. É precisamente uma determinada concepção técnica do capitalismo que faz com que tanto a actividade humana quanto a não-humana sejam recodificadas em mero stock e reserva de recursos.

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Os mais cépticos ante a centralidade do capital responderão que tudo seria igual se o movimento operário tivesse triunfado, se Trotsky e não Stalin tivesse sucedido a Lenin, já que no projecto socialista não se dava qualquer alteração substancial destes aspectos do funcionamento do capital: continuaria a ser produzida uma mais-valia que seria controlada pelo estado e não pela burguesia e prosseguiria um regime de produção industrial com a mesma ordem de consequências. A conclusão óbvia desta observação não será porém um colapso conceptual das análises sobre o capital mas que o “socialismo”, tal qual foi aplicado e discutido, está afinal bastante mais próximo do capitalismo do que se poderia à partida supor e que de facto a essência do capitalismo, aquilo que o reproduz tal qual ele é, não é o domínio capitalista sobre a produção mas um determinado regime de produção que produz afinal um determinado regime de domínios.

(continua)

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