O Tempo dos Assassinos I – O Nome da Era

o nome da era

Em 2000 e poucos, durante uma conferência, o geólogo Paul Crutzen afirmou ser impossível continuar a afirmar que vivemos no Holoceno, a época geológica dos últimos 12 milénios cuja estabilidade climatérica permitiu o aparecimento da agricultura e consequentemente de uma “civilização humana”. Segundo Crutzen, nos últimos dois séculos e meio, desde a revolução industrial, deu-se uma antropização total do planeta, ou seja, uma extensão da presença humana tão vasta e tão profunda que a “natureza” deixou de ser a vastidão orgânica que circunda as comunidades dos homens para se tornar numa rede de ilhas desconexas. A explosão das megalópoles, a ramificação global das vias de transporte, a dependência de combustíveis fósseis e a hegemonia da produção industrial implicam que não só não há canto do mundo intocado por uma técnica humana, como também que é precisamente o “homem” o principal agente das transformações ecológicas, geológicas e climatéricas do planeta. A análise científica do conjunto de mudanças e de impactos já em curso necessitam, segundo Crutzen, de uma nova periodização e um novo nome, um nome que traduza as suas realidades e os seus desafios. Crutzen sugeriu então que viveríamos agora no antropoceno – A era do Homem.

Os sinais da urgência desta mudança de nome são vários. Em 2009 o Stockholm Resilience Institute estabeleceu nove critérios essenciais de sustentabilidade ecológica: Mudanças climatéricas, acidificação dos oceanos, depleção do ozono estratosférico, disponibilidade de água de doce, perda de biodiversidade, interferência nos ciclos globais de nitrogénio e fósforo, mudanças na utilização dos solos, poluição química, taxa de aerossóis atmosféricos. Em qualquer um destes campos a superação de um valor especifico seria potencialmente catastrófica. Neste momento três já foram ultrapassados e outros três estão em vias de superação. Qualquer avaliação ecológica contemporânea sugere um menu de desastres e inevitáveis cataclismos, e qualquer gráfico relativo a valores de sustentabilidade, consumo e emissões adquire uma mesma curva de súbita aceleração nos últimos 50 anos. A questão já não parece ser como preservar o meio ambiente mas, pelo contrário, de como gerir a absoluta barbárie climatérica e ecológica que vem. A reticularidade causal dos recursos materiais sugere que as guerras do amanhã irão ser travadas por recursos naturais, que recolocações forçadas de centenas de milhares de pessoas irão ocorrer devido a fenómenos climatéricos e que as enciclopédias botânicas serão lidas enquanto álbuns fantásticos. A questão é que parece cada vez mais real o amanhã categórico desses amanhãs metafóricos. A política do Séc. XXI deixará de ser a expressão soberana da finitude da economia e da escassez de recursos para se tornar a expressão soberana da finitude do mundo e da escassez da natureza. Se por um lado por toda parte se escuta com fanfarra o anúncio de que o homem finalmente domina a natureza, por outro nunca esteve tão sujeito, enquanto espécie e civilização, aos seus caprichos. Um tsunami já não provoca apenas milhares de mortos mas também hecatombes nucleares. Um artigo deste mês afirma que toda a vida oceânica estará extinta em 2048, daqui a 34 anos. As questões levantadas por este novo paradigma civilizacional necessitam então de um nome: o antropoceno, a idade do homem enquanto sujeito do apocalipse. O termo está há vários anos a ser analisado pelo grupo de geólogos que irá oficializar a sua validade científica e conceptual. A investigação especificamente geológica do termo é relativamente complexa, já que não se trata de analisar estratos sedimentados ao longo de centenas milhares de anos mas de observar a disseminação de resíduos que raramente têm mais de dois séculos. O carácter fundamentalmente ctónico e intemporal da geologia esvai-se em fumo e esta torna-se então numa ciência do devir e da transformação, o próprio tempo não-humano das rochas e da terra sai do eixo e colapsa na brevidade acelarada do homem. Questionado pela esposa sobre como corria o trabalho, um dos assistentes de Crutzen terá alegadamente respondido que o trabalho corria bem, mas que lhe parecia que era mesmo o fim do mundo.

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Apesar da lenta validação científica, o termo tem vindo a ser adoptado com menos fricção pelas ciências sociais, essencialmente porque esta nova periodização lhes permite tanto pensar novos paradigmas de governamentalidade como, por outro lado, questionar qual o seu próprio papel enquanto regime de conhecimento especificamente humano e cultural, aparentemente separado da “natureza”. É no entanto enquanto urgência inadiável de medidas excepcionais que o termo tem ganho mais tração e registado mais polémica, já que a necessidade de aplicação de facto de medidas ecológicas nada diz sobre o regime político da sua aplicação. No antropoceno tanto cabem “revoluções cidadãs” por “justiça climatérica” como a emergência de eco-fascismos locais; o termo tanto supõe a emergência de comunidades com estratégias autónomas de governo como a solidificação de um macro-estado global, o único alegadamente capaz de aplicar medidas de emergência a um nível planetário. De outro modo, o conceito de antropoceno surge para tornar compatíveis as “cidades em transição” com os macro-muros que irão separar as ilhas de estabilidade ecológica do mundo desertificado, infértil e faminto; e surge também para baralhar todas as concepções que se possa ter sobre o lugar de uma vida política no mundo contemporâneo.

A era do homem. O termo em si é extremamente ambíguo porque tanto pode significar uma instrumentalização utópica e harmoniosa da “natureza” como o absoluto esfrangalhar do sonho humanista de uma ética universal e racional. Não obstante o mundo enquanto palco de catástrofe generalizada seja ainda um local estranho – é ainda impossível conceber algo como o colapso absoluto da vida oceânica e o aquecimento global desenvolve-se numa rede de fenómenos que a limitada sensibilidade física humana não consegue ainda experienciar – a ideia de uma vida precária num mundo em crise é no entanto cada vez mais familiar, porque, deste lado dos futuros mais negros ou mais risonhos, o sujeito do antropoceno é literalmente o sujeito da crise, e o que se vem desenhando enquanto especificidade política do antropoceno é uma austeridade global num horizonte de crise permanente: crise financeira, crise económica, crise ambiental, crise ecológica, crise de valores, crise geracional, crise alimentar.

Dar um nome é um acto paralelamente criativo e destrutivo. Criativo porque um nome institui uma possibilidade de existência, de identidade e de sujeito. Destrutivo porque a partir do momento que temos o nosso fado inscrito na carne há tanto que deixamos de poder ser. Dar um nome é também um exercício de soberania: Adão, o primeiro homem, baptizou os animais, os pais escolhem o nome dos filhos, os donos treinam os cães a responder a determinada graça, os amantes escolhem alcunhas, o estado decide quais são legítimos ou não. O que significa receber enquanto espécie o nome de antropos e ser assim convocado à ribalta da era? Significa considerar que a história da humanidade foi uma alegre e ingénua caminhada consensual rumo a um apocalipse que servirá de exame final à excepcionalidade humana. Com a herança familiar do antropos ficam à porta todas as questões políticas que atravessaram a história e dividem o presente. Ante a era do homem somos todos iguais, partilhando uma história unificada onde colonos e escravos foram agentes equivalente do mesmo progresso. Quem nos deu então este apelido universal de antropos e nos transmitiu assim a ocupação familiar de sobreviver à hostilidade do mundo? A resposta mais fácil seria encontrar uma mão cheia de cientistas, políticos, economistas e alta burguesia internacional, mas este entendimento particular da “crise” e da centralidade que o “homem” joga nela é transversal a várias classes e vários quadrantes ideológicos. A crise do antropos não é uma mentira do poder mas um mecanismo posto em marcha que cria, condiciona e modela o desenrolar de vidas colectivas e singulares. A crise inverte os termos “espectaculares” em que o poder simulava um tempo sem fim, um “eterno presente”, para postular sucessivas crises, aproveitando-as para os desígnios de governo e reorganização. Não se trata então apenas de questionar o “espectáculo”, porque hoje por trás da representação “separada” do tsunami vem efectivamente um tsunami.

Uma ideia simples começa a espalhar-se por todo o lado, por todos os filmes, por todas as séries, por todos os discursos: o mundo tal como o conhecemos está a acabar. A política irá doravante passar cada vez menos pelo debate entre hipóteses universalistas e holísticas concorrentes (capitalismo versus socialismo) que aparentam “pairar” sobre a materialidade do planeta, e cada vez mais pelas hipóteses subjectivas capazes de fazer face a um determinado colapso e às medidas da sua gestão e representação pelo poder.

(continua)

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