Cartas do vale #10

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O espírito meditativo contemporiza a natureza em qualquer lugar. Nem a floresta, nem o espaço infinito existem sem a essência coroada do olhar que os medita. Assim pensava um homem chamado Elefante. Sabia sobre a melancolia o que se dizia e aceitava a imagem da representação do ilimitado conhecimento humano num formato puramente alegórico. Levantou-se, puxou para trás os cabelos com a mão que não segurava um cigarro e achou que todas as metáforas da melancolia se aplicavam ao seu estado: o instrumento da contemplação era definitivamente o olhar humano.

A melancolia é uma mulher com asas que está sentada num degrau baixo, que tem as pernas dobradas, que apoia a cabeça nas mãos e que tem os cotovelos em V sobre os joelhos. E como se não tivesse intenção de se levantar outra vez, afigura-se central na sua imobilidade. E assim está para ser olhada, parecendo afectada de morbidez. Apenas o olhar está vivo, rodeada à sua volta por objectos que apenas servem para encher o espaço dado que na opulência também existe melancolia. A aparente desordem é retirada de um tratado que se desconhece. Acendeu outro cigarro, espreguiçou-se, esticou as pernas. Alguém terá afirmado que todos os homens que se excedem na vida são na arte melancólicos.

E nisto, o dia estendeu-se e demorou-se no fio ténue que separa o propósito das acções. Uma ferina aparência assumiu por momentos a forma de uma canção popular, cantada ao longe por um tigre. Tratou-se, evidentemente, de um acidente da melancolia, pensou. A canção foi transportada por um fio de vento que agitava um campo de arroz todo vermelho guardado por um dragão de fumo. Quando no mundo se ouve o cantar do tigre com a gravidade de mil homens as cegonhas alimentam as crias com esferas de luz. Os pássaros são sempre criações do ar, e o ar, como decorre do tempo, é a própria melancolia.

Assim corria o dia quando aquilo aconteceu. Foi repentino, disseram os vizinhos. Estava ali sentado e deu-lhe uma coisa. Ali, apontavam, ali mesmo no degrau do vão das escadas onde o policia de giro tem o hábito de pedir a alguém que passa que lhe acenda um cigarro. Virou-se de pés pelas mãos, continuava outro, só visto. Ele estava sentado e de um salto vomitou uma versão integral de um sutra, acenderam-se-lhe os olhos com a intensidade de mil faróis e por cima da sua cabeça vi por momentos aparecer um peixe dourado feito de brilho. Saltava sem parar de um lado para o outro a dizer coisas de louco, e, por isso, eu fugi com receio que rebentasse, disse uma mulher muito morena e com sardas da cara. Quando lá chegou, o homem chamado Elefante apenas sentiu o perfumado clarão da madrugada que acabava de aparecer para dar continuidade à sensação de novidade que se instalara naquele sítio.

Ao local começaram a chegar atraídos pela curiosidade outros. O homem que se chamava Elefante pode então ver desfilar em frente do acontecimento ursos de muitas cores naturais; uns pardos, cinzentos e brancos. Todos muito direitos e cem mulheres cujas conas eram feitas de chocolate desciam nuas e sem pudor com passo elegante e sorriso fino. Um grupo de operários do carvão que marchavam de pá ao ombro cobertos de pó preto. O homem chamado Elefante ouvi-os cantar e perdeu-os do olhar no fim da avenida, muito pequeninos e uns tipos incaracterísticos que levavam pela trela iguanas que acariciavam com as línguas as próprias patas. Colados a elas, uns caralhos de cerâmica tão grandes que roçavam o céu. Havia pulgas a puxar carroças carregadas de fruta e um faquir russo transportava à frente deste cortejo uma bandeira dourada com letras bordadas a azul. Lia-se “O tempo corre para o tempo ser”. Atrás de dele seguiam cães de raça disfarçados de ministros que atiravam rebuçados a quem os via passar. Os homens de respeito guardavam distância e estavam vestidos de preto. Olhavam de lado e acenavam discretos para as famílias de bem que os via passar das janelas de suas casas. Subitamente o cortejo desapareceu do olhar do homem que se chamava Elefante. À rua voltaram rapazes sujos para jogar às fisgas e a metafísica floriu como sorriem raparigas com naturalidade.

About JMGervásio

Sou pessoa alta, magra por criação, amante de velocípedes e de quase tudo que implique não fazer à segunda - quero dizer, sou do tipo espontâneo. Licenciado em altos estudos artísticos na ESBAP, tenho, desde lá, desenvolvido uma certa tendência para o comércio a retalho e agricultura de terraço. Possuo momentos de grande felicidade e civilidade que nem sempre são devidamente apreciados.

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