Paroles, Paroles, Paroles…

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Apesar do ódio que nutro por todos os dias úteis (e horários de expedientes), a sexta-feira de manhã custa-me sempre menos por causa das crónicas do António Guerreiro. São, regra geral, óptimos textos e, aqui e ali, há mesmo textos fenomenais. E, depois, há também os ambiguamente menos bons (para não dizer maus): e esses são os meus favoritos. Hoje é o dia!

«Género» não faz o género de António Guerreiro. «Homofobia» também não. São teoricamente importantes, numa perspectiva de história das ideias, e lixo da praxis. São mais do que lixo da praxis, dá ele a entender: são veneno e, como os sabonetes, gastam-se com o uso e vão-se tornando cada vez mais escorregadios enquanto conceitos (é como «classe»). O autor vai, ainda, mais além: o uso desmedido falta ao respeito a quem da violência de género e/ou homofóbica sofre «na realidade». E, claro, nada há de mais ambíguo do que este «na realidade». Ou seja, em nome da clareza conceptual e contra «dandismos vocabulares e semânticos», lá está o complemento que arrecada o prémio da ambiguidade dandy, porque a realidade de António Guerreiro não é a realidade de todos nós, a não ser que sejamos todos António Guerreiro, e a experiência que António terá da violência de género deve ser muito semelhante à minha: cá deste lado da hegemonia, não se sente nadinha para lá da porrada de meia-noite na vizinha.

Há «dandismo vocabular e semântico»? Tenho ideia que há. Mas porquê «género» e «homofobia» para descrevê-lo? O que vai na cabeça de António Guerreiro? Há pouco tempo, o próprio fez uma das melhores crónicas do ano – o tema era fascismo. O que fez ele com esse conceito? Fez o alargamento semântico. Na altura não veio o seu «compromisso ético» perante a linguagem segredar-lhe ao ouvido que uma imagem de um micro-fascista que habita em cada um de nós poderia operar uma banalização linguística que, por sua vez, representaria uma falta de respeito («um insulto») às vítimas do holocausto, por exemplo. O que António Guerreiro fez com «fascismo» foi uma tentativa de «política de significação» em que, num ambiente de polissemia que permite um jogo ideológico de associação de sentidos, alargou-lhe o sentido e, com isso, agiu sobre o próprio significado. Aliás, a política faz-se muito deste jogo. Não ficámos todos, politicamente falando, melhor servidos? Ficámos.

2 thoughts on “Paroles, Paroles, Paroles…

  1. Quer-me parecer que o zemanelclemente revela aqui uma interpretação muito muito livre do texto de António Guerreiro. Parece mesmo que estamos a ler dois textos completamente diferentes.

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