Última hora: mercearias asiáticas invadem a grande Lisboa!

E agora? Fugimos pra onde?

No rio Coina
É no rio Coina
No jardim de Alvalade
É no jardim de Alvalade
No 78 - A da Av. Almirante Reis
É no n° 78 da Almirante Reis
É no mercadinho biológico do Príncipe Real
É no mercadinho biológico do Príncipe Real
É na Damaia
É na Damaia

Bom, agora mais a sério e indo por partes. É um facto assente que tudo o que há de melhor na ‘cultura portuguesa’ (credo, que raio de expressão mais nonsense: ‘cultura portuguesa’!) veio do Oriente, o berço incontestado da civilização. Muitos milénios antes de Maomé ter incitado aos raids muçulmanos à Península do séc. VIII, que trouxeram consigo por exemplo metade dos alimentos que ainda hoje usamos, já a neolitização tinha disseminado por cá um extenso pacote de aquisições culturais originárias do Próximo Oriente. Resumindo, sem Oriente não haveria nem laranja, nem vinho, nem azeite e o pão de bolota seria o nosso pequeno almoço. Não haveria tão pouco escrita, matemática ou filosofia.

Outro ponto. ‘Portugal’, ‘cultura portuguesa’, ‘Lisboa’ são abstrações ocas que na esmagadora maioria das vezes se usam para defender e reproduzir identidades conservadoras (aliás, todas as identidades são por definição conservadoras como já mostrei aqui, ainda que em contextos muito concretos possam ter usos progressistas), identidades que procuram cristalizar artificialmente aquilo que naturalmente se encontra num fluxo incessante. ‘Lisboa’ não é nada senão um fluxo permanente de pessoas, de matérias, de ideias, de situações e também de lojas. ‘Lisboa’ não é a entidade estática que se empacota num monumento, num restaurante ou num souvenir para vender aos turistas e num cd de fado para vender aos portugueses. Só o é para os industriais, para os políticos e para os reaccionários.

Agora as mercearias asiáticas. Elas existem de facto em Lisboa, onde aliás se vão rapidamente multiplicando, como acontece noutras metrópoles europeias (na verdade, todas as que eu conheço): há aquelas mercearias que se dedicam à venda de uma vasta gama de produtos asiáticos, tão loucamente apreciados e explorados cá em casa, e que podem ir de um desconhecido cogumelo seco ao inexplicável rebuçado de azeitona; e aquelas, onde raramente ponho os pés, que vendem basicamente as mesmas mercadorias que também se encontram no vasto exército de distribuição da Sonae ou da Jerónimo Martins onde tão pouco tenho por hábito entrar.

Agora, alguém insinuar que é por racismo que eu não ponho os pés em lojas que nesta sociedade espectacular se dedicam à respeitável tarefa de distribuir mercadorias poluídas e falsificadas – as quais pouco ou nada acrescentam à pobre e falsa escolha na prateleira do hipermercado –  é capaz de ser um abuso. Abuso ainda maior é ninguém querer discuti-las por elas vestirem a roupagem abusada da diversidade cultural.

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About PDuarte

Historiador, jardineiro, horticultor. Vive na província. No tempo vago, que procura multiplicar de dia para dia, perde-se em viagens, algumas pelos montes em redor, outras pelos livros que sempre o acompanham. Prefere o vinho à blogosfera, a blogosfera ao Parlamento.

17 thoughts on “Última hora: mercearias asiáticas invadem a grande Lisboa!

  1. Lol. Continuo sem perceber o teu critério de verdadeiro e falso. Talvez sejas tu então a explicar-me o link evidente entre as ditas lojas chinesas e a gentrificação. De resto não percebo como este assunto é continuamente empurrado para uma questão de gostos ou quem é que acusou alguém de racismo por frequentar ou não os dito estabelecimentos.

    1. O link entre lojas chinesas e gentrificação? Que raio de tema, Tiago… Como chegaste a um tão estratosférico não-assunto? Quanto à questão mais terrestre de se insinuar ser racista quem critica determinado género de estabelecimentos (neste caso asiáticos), pareceu-me que era um assunto que andava por aí a sobrevoar várias discussões que tiveram por epicentro uma reputada historiadora e apeteceu-me deixar também o meu ponto de vista (talvez por me parecer ser um ponto de vista precariamente representado nessas discussões). Não te sintas visado, gostei aliás bastante do teu texto sobre o racismo e acho que nesta tasca devíamos tomá-lo como ponto de partida para se explorar uma questão fundamental que está escandalosamente silenciada.

      Abraço

      1. Talvez devesses visitar os comentários da reputada historiadora para perceberes então o que ela diz sobre lojas chinesas e gentrificação. Quanto às insinuações de que ela seria racista por não apreciar determinados aspectos da cultura oriental ou das lojas chinesas acho que essa é uma interpretação que o Renato fez das críticas, eu pelo menos não ouvi ninguém dizer semelhante enormidade.

      2. Essa discussão em torno da célebre historiadora não produziu, se bem me recordo, nenhum momento que valha muito a pena ser recordado (a começar pelas demasiado infelizes declarações da mesma), por isso não vou fazer o esforço de recapitular textualmente as enormidades que nela foram proferidas. Na verdade preferia que, em matéria de argumentos, andássemos para a frente e não para trás nas discussões. Logo, e no sentido de fazer esta discussão avançar, acho que os multiculturalistas cosmopolitas ainda vão a tempo de dar a resposta que devem aos anticapitalistas: em que é que os estabelecimentos/negócios a que me referi no post vêm beneficiar a vida (também multicultural e cosmopolita) dos habitantes/visitantes de Lisboa?

      3. Se já é problemático falar de gentrificação tout court em lisboa, então relacioná-la com o pequeno comércio chinês significa apenas que não se percebeu patavina do que é a gentrificação e que apenas se está utilizar o conceito como buzzword (um pouco como vocês têm utilizado hipster). E de resto se não queres discutir as palavras da historiadora, então porque é que saltas a pés juntos para uma polémica que não seguiste e que no entanto defines à partida os termos enquanto de um lado a defesa inequivoca do comércio chinês e do outro o anticapitalismo? Peço-te que me mostres uma única citação onde a) alguém faça uma defesa do tipo particular de capitalismo dessas lojas e/ou b) alguém afirme que a pessoa X é racista por não apreciar produtos de determinado local. Dúvido que apesar de todas as tuas categóricas certezas encontres qualquer uma delas.

        De resto que raios é um “multiculturalista cosmopolita” e porque raios está oposto aos “anticapitalistas”? Acho que vais ter de explicar melhor essas categorias antes de prosseguir o debate (que prossigo com boa vontade) porque assim como estão expressas querem dizer muito pouco. e “devem” uma explicação? devem por alma de quem?

        As lojas chinesas são um merda. como são todos os locais onde há trabalho assalariado, onde há compra e venda de mercadorias, onde há produção alienada. Dá-me igual que seja a loja chinesa que seja a biocoop.

        E antes multi culti pós moderno queer hipster que paleoesquerdista conservador

      4. (indo por ordem aos pontos do teu comentário antes de me pisgar para o tripalium)

        1 Não relaciono gentrificação com comércio chinês nem insinuo semelhante coisa. / 2 As palavras da historiadora interessam-me ZERO. As discussões têm pontos de partida, mas ganham vida própria. Não uso este espaço para fazer clubismo com ninguém: nem com a reputada historiadora, nem com o Renato, nem contigo. / 3 Entro a pés juntos em TODOS os assuntos onde entro, aliás como tu, o que muito prezo em ti; este assunto não teria porque constituir excepção. / 4 Tens toda a razão: exagerei na minha provocação ‘anticapitalista’ (que não enunciei de um modo devidamente sustentado/argumentado) dirigida aos ‘multiculturalistas cosmopolitas’ (as categorias assinaladas não foram de facto explicadas, nem eu tenho paciência para tal). Era apenas uma provocação; ou talvez um nadinha mais do que isso, como às vezes sucede com algumas provocações. / 5 Discordo dessa tua abstracção fácil que coloca a priori todos os espaços onde há trabalho assalariado no mesmo plano de alienação (e esta parece-me ser uma fragilidade da tua argumentação): funciona muito bem teoricamente mas não resiste um segundo na prática. Porquê? Porque basta saíres da biblioteca para perceberes que não é exactamente igual a produção alienada vendida nas ‘lojas chinesas’ (com os suicídios que foram necessários para se produzir cada mercadoria vendida) e na Bio Coop (onde pelo menos uma parcela do que aí é vendido foi produzido por gente que não só não se atirou de um décimo andar de uma fábrica como ainda pôde alcançar os recursos que lhe permitiram viver qualquer coisa nas pausas da produção). Às vezes, faltam uns pozinhos de ‘real’ nas nossas teorias, como quando afirmas “Dá-me igual que seja a loja chinesa que seja a biocoop.” / 6 Finalmente, coloque-se no mesmo caixote a pós-modernidade hipster e o paleo-esquerdismo conservador. Não tenhas muitas ilusões com o hipster que vem, tal como eu não tenho nenhumas com os diversos ismos dessa esquerda que deixou de saber ler (e de agir sobre) o presente.

        Saudações campestres

      5. essa do sai da biblioteca é optima, até porque a mais valia que me é alienada é gerada bem longe das bibliotecas, mas não dou azo a esse tipo de discussões.

        Parece-me obvio que há locais diferente dentro do diferentes sectores de valorização do capital, mas isso não significa que uns sejam menos capitalistas do que os outros, pq o capitalismo não é uma qualidade moral mas um sistema politico, económico e material. A biocoop é tão capitalista quanto o mcdonalds por mais que os trabalhadores sejam mais felizes num sitio do que o outro. é produzida mais-valia? há uma separação entre valor de uso e valor de troca? há troca e venda de mercadorias? há trabalho assalariado? bom então é capitalismo. preferia que houvesse mais biocoops do que mercearias chinesas? preferia evidentemente, mas dentro do capitalismo tb tenho preferências.

        Longe de mim fazer uma defesa das glórias da modernidade. Mas longe de mim fazer-lhes uma critica a partir de essencialismos como “verdadeiro” e “falso” sem explicar pelo menos que critérios uso. Entre a “pós-modernidade” e a sua critica escolho a sua critica, mas entre a “pós-modernidade” e a ideologia escolho a “pós-modernidade”.

        Por último dizes que te são indiferentes as declarações da raquel, mas escreves um post de resposta a criticas que nunca lhe foram feitas, assumindo que foram. A postura à qual respondes simplesmente não existiu: ninguém disse que não gostar de determinado modelo de negócio era racista, ninguém disse que não apreciar determinada expressão cultural era racismo.

        abraço

      6. Abraço para ti também e lamento sinceramente qualquer exagero da minha parte. És um escriba que muito prezo e não quero alimentar mais esta polémica que está a derivar para discussões que pouco me interessam. (Onde escrevi ‘da bilioteca’ – era simplesmente uma metáfora – podes ler também ‘da esfera dos livros’.)

  2. Nem mais nem menos. Não devia ser tão fácil a simplificação de chamar racismo a tudo e mais alguma coisa. Deve ser herança do orientalismo lusitano ou então uma nova forma de condescendência. Depois do capitalismo de rosto humano, chegou a vez de vingar o pudor com a crítica ao capitalismo na sua versão multicultural. :)

  3. O problema é que este tipo de negócio ou comércio é transversal e isolar isto num problema de “comércio chinês” ou de “chineses” é puro racismo. Pode-se sempre criar um ghetto chinês ou ghetto do comércio chinês à maneira do ghetto de Varsóvia. Até porque este tipo de textos puxa logo a discussão para o racismo (e acho bem porque é isso que eu sinto) e não para o tipo de comércio ou tipo de loja. A prova é que estamos aqui a discutir o racismo.
    Que é uma coisa chata. Muito chata.

    1. Tens toda a razão. Isto descamba logo para o racismo. Gostaria de ter deixado claro que há um género de estabelecimentos/negócios em expansão, onde os empreendedores/trabalhadores são de facto ‘asiáticos’ (mas poderiam ser aqui da minha aldeia), estabelecimentos/negócios esses que levantam várias questões pertinentes. Mas claramente não fui capaz. E pior, ainda passei por guarda-costas de uma reputada historiadora.

      1. Eu li “asiáticos” e não “minha aldeia”. Nem “aldeia global”. Eu também posso dizer “criminalidade” (se o assunto me interessasse…) ou “criminalidade de negros” ou “africana”. E depois, seguidamente, viria dizer que me estava a “referir a todos e mesmo à minha cidade branca”.

        Cito:
        «Agora as mercearias asiáticas. Elas existem de facto em Lisboa, onde aliás se vão rapidamente multiplicando, como acontece noutras metrópoles europeias (na verdade, todas as que eu conheço): há aquelas mercearias que se dedicam à venda de uma vasta gama de produtos asiáticos, tão loucamente apreciados e explorados cá em casa, e que podem ir de um desconhecido cogumelo seco ao inexplicável rebuçado de azeitona; e aquelas, onde raramente ponho os pés, que vendem basicamente as mesmas mercadorias que também se encontram no vasto exército de distribuição da Sonae ou da Jerónimo Martins onde tão pouco tenho por hábito entrar.

        Agora, alguém insinuar que é por racismo que eu não ponho os pés em lojas que nesta sociedade espectacular se dedicam à respeitável tarefa de distribuir mercadorias poluídas e falsificadas (…)»

        Isto é muito claro. Está lido. Faz-me lembrar um determinado período da história noutra geografia e com outras gentes que não “asiáticos”. E não, não gosto de brincar nem tenho sentido de humor.

      2. Carlos, concordo absolutamente quando dizes que isolar um tipo de negócio que é transversal num problema de “comércio chinês” ou de “chineses” é puro racismo. Em cheio. A questão aqui é que existe um género de estabelecimentos/negócios em expansão que é na minha (possivelmente equivocada) opinião de tipo novo (ou seja, não são transversais e isto não ficou bem retratado no meu texto pelo que a tua crítica é muito justa e pertinente): trata-se de hipermercados em miniatura que não materializam o conceito de mercearia ou pequeno comércio que a mim me interessa, que é aquele onde, grosso modo, quem vende mantém algum elo com quem produz (questionando o princípio capitalista da ‘separação’). Tenho um único critério na escolha das lojas onde compro: que quem me venda possua algum elo com o que me é vendido, ou seja, que me possa responder a um leque de informações que considero relevantes sobre o produto. Não peço muito: peço apenas “algum elo” (o capitalismo pela sua natureza destrói constantemente esses elos; é o paraíso da separação, da atomização). É a única forma de eu poder verificar as condições (laborais, ambientais, etc.) em que a produção ocorreu. Nos hipermercados e nos estabelecimentos em questão (que por acaso são asiáticos, mas poderiam ser luxemburgueses) eu não consigo fazer isso. A mercadoria chega-me às mãos totalmente alienada, das mãos de funcionários totalmente alienados. Ora isto é exactamente o mundo invertido pelo capital que eu procuro combater todos os dias (e em todos os posts), seja ele americano, chinês ou português. Que este mundo se propague alegremente por toda a Lisboa deixa-me preocupado. Que ninguém abra a boca também.

        Bom, voltando atrás, os ditos negócios, tendo contornos próprios, estão em mãos de asiáticos como poderiam estar de alentejanos ou ugandeses. Essa mera constatação sobre a origem dos proprietários das lojas não traduz nenhum preconceito contra os asiáticos e parece-me inacreditável isto não ter ficado claro no meu post (que dedicou todo um parágrafo a sublinhar o espantoso contributo civilizacional do Oriente), sendo que a culpa em (grande) parte foi minha.

      3. O problema Pedro é que no actual momento este texto junto a muitos outros (que existem) é potencialmente incendiário. E isto vem a posteriori: “os ditos negócios, tendo contornos próprios, estão em mãos de asiáticos como poderiam estar de alentejanos ou ugandeses”. O que lá está (no teu texto) e apenas é a referência aos asiáticos. E eu ouço todos os dias comentários desejosos de “vingança” sobre quase apenas os asiáticos. Em todas as ruas e em todas as praças.

    2. Faz de facto lembrar outro período da história onde o “multiculturalismo cosmopolita” era chamado “cosmpolitismo sem raízes”. Uma crítica ao racismo deve entender que paralelamente a um racismo abjecto e basilar, assente em questões fenotipicas, sempre houve um outro, intelectual, que rejeitava motivações biológicas promovendo questões culturais.

  4. Aquela foto do “jardim de alvalade” não é mas podia ser a minha avó em Moçambique nos anos 50. Claro que não é racismo, claro que não tenho que ficar ofendido. Se um homem branco diz que não é, quem sou eu na minha indianidade burguesa e parasitária-mercantil para contestar? A sério, PDuarte, vá-se encher de moscas.

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