FEMINISMO COM CLASSE: Ou como a misoginia e a androfobia se equivalem

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Carlos Latuff, cartoonista brasileiro comprometido com a resistência, esteve na berlinda a semana passada depois de publicar o desenho que abre este post. Dias depois, porém, deu o dito por não dito, escrevendo e desenhando uma retratação. Tendo sido uma das pessoas que aplaudiu a sua primeira abordagem, e não estando, nem de perto nem de longe, convencida da retratação, achei por bem explicar os motivos pelos quais não acompanhei a mudança de opinião do Carlos Latuff.

A primeira razão pela qual mantenho o meu aplauso ao primeiro desenho de Latuff prende-se com a ideia de que o feminismo é um assunto tanto das mulheres como dos homens e que todos têm iguais responsabilidades no combate ao machismo e ao patriarcado. Algum feminismo, sobretudo nos tempos em que este se divorciou da luta de classes, aplaude a chegada ao poder das mulheres com o mesmo entusiasmo com que se avançou em lutas concretas como a conquista do voto, a legalização do aborto e do divórcio e a democratização dos métodos contraceptivos.

Longe dos temas que efectivamente oprimem a mulher, o feminismo “radical” prefere colocar no cepo o género oposto, caindo no mesmíssimo erro que o marialvismo sexista caiu ao longo dos séculos. Vejo de facto poucas diferenças entre um Papa que ostraciza as mulheres ou uma “feminista radical” que exorciza o homem.

O feminismo “radical”, sempre com aspas porque raramente vai à raiz do problema, continua sem entender que os além dos homens, as mulheres são igualmente necessárias para o combate ao patriarcado, porque uns e outros são responsáveis por ele. Por isso mesmo o que se deve colocar no cepo é o machismo e não a cabeça de ninguém, mesmo que seja alguém que, homem ou mulher, seja intérprete desse mesmo machismo e, de forma inconsciente, um propagandista do patriarcado.

A emancipação precisa de todos porque a opressão tem como origem homens e mulheres. Importa menos o género do que a qualidade da opressão. De resto, se for avaliada historicamente, dificilmente não será a mulher o berço do patriarcado pela simples razão que ela, vítima da tarefa social da procriação, sempre foi o principal molde moral dos homens e das mulheres que lhes permitiram a perpetuação do seu reinado. Não obstante é mais relevante o papel dos homens, porque normalmente são eles os autores das expressões mais violentas do que se quer combater e enviar de vez para o museu de antiguidades. Mas reconheçamos de vez que não se resolve nenhum problema metendo no cepo a cabeça de alguém que pratica sobre outras a excisão da mesma maneira que não se resolve nenhum problema decepando quem pratica sobre a mulher a violência doméstica. A emancipação, sobretudo em matéria de comportamento humano, terá que vir da base de um processo colectivo de luta que para ter sucesso terá necessariamente que incluir todos os géneros. Faça-se tudo o que houver para fazer de forma a travar a barbárie, mas a linha de fuzilamento, útil na revolução social, nada nos dará na hora de alinhar a percepção moral da vida.

Acrescentar por fim que as feministas “radicais” que não percebem que elas próprias são, não raras vezes, intérpretes de machismo, e que outras tantas vezes resvalam com demasiada facilidade para a androfobia, estão substancialmente mais longe da libertação e menos preparados para a luta emancipatória do que o Carlos Latuff ou que qualquer outra pessoa que comece este debate por assumir que os seus comportamentos exprimem, aqui e ali, expressões e mecanismos machistas, patriarcais ou até misóginos. De resto, a resposta que algumas delas deram é disso uma ilustração perfeita que em meu entender cobre de inteligência o desenho que deu forma à primeira crítica.

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15 thoughts on “FEMINISMO COM CLASSE: Ou como a misoginia e a androfobia se equivalem

  1. “A emancipação, sobretudo em matéria de comportamento humano, terá que vir da base de um processo colectivo de luta que para ter sucesso terá necessariamente que incluir todos os géneros.”
    não poderia estar mais de acordo. o problema é não existir nenhum processo colectivo de luta, nem mesmo um q incluísse apenas um género, por exemplo o feminino.
    os processos colectivos de luta devem ser mais abrangentes, não te parece?
    não será melhor assim? não estaremos nós a perder força por dividir a luta em sectores, como se fez no fim do século passado…as mulheres, a ecologia, os homosexuais, etc…não estamos todos em luta?
    penso q deveríamos deixar-nos de merdas e apontar baterias ao capitalismo neo-liberal que nos está a comer vivos, a todos…as mulheres estão no fundo da cadeia alimentar, são as primeiras a ser comidas (sem qq segundo sentido)
    um processo colectivo de luta é q era! :)

  2. é impressão minha ou está mais na moda apontar para o ismo que para os grupos concretos envolvidos? é que o que não falta por aí são grupos truculentos que praticam expulsões por falta de ortodoxia. Assim todas juntinhas como chineses em parada solene dos jogos olímpicos até parecem a invasão dos body snatchers; ou um imenso cefalópode internacional com riquezas acumuladas, genocídios históricos e domínio territorial. Ou um movimento marginal que não é suficientemente considerado para ser conhecido, só tolerado pela bitola do senso comum.

  3. Eu não sei o que são feministas “radicais”. Nem este texto me ajuda a compreender. Não sei por que radicais está entre aspas. Quer dizer feministas conservadoras? De direita? Está a falar de quem exactamente? Este cartoon não é mau, é muito mau. Porque reproduz o discurso anti-feminista da caverna patriarcal. “elas n querem igualdade, elas quem é cortar-nos a cabeça” androfobia? claro que sim, n sabe que o destino do homem branco é deixar de ser homem branco e devir mulher negra ou asiática? n leu a valerie solanas? Leonor, este texto denuncia-o todo. Claro que podia ser uma mulher machista. Mas este post só podia vir de um homem branco paternalista.

  4. Leonor Guerra existirá? É que de facto este texto soa bem masculino, no estilo lembra muito os escritos do Renato. Como aliás os textos do Menor. É tudo pseudónimos do Renato?

    1. Gosto do elogio. Mas não me teria em tão boa conta e não faria tal destrato à Leonor. Não deixa de ser curioso que quem gosta tanto de imputar pseudónimos aos outros se multiplique em c.r. e em vh. Estarei a falar com um homem paternalista ou com uma mulher incapaz de se libertar da androfobia?

      1. Agradeço o esclarecimento. Lá que o estilo se parece ao seu, parece, mas amigas e amigos pegam-se tiques e maneiras. Já o Menor às vezes parece você, às vezes outros aqui da casa, é muita disparidade para uma só cabeça. Deve ser um projecto de heterónimo à Pessoa, mas esses tinham consistência interna, o Menor parece um caso de personalidade múltipla. Nada contra, mas não se percebe bem a lógica. Daí ter imaginado que Leonor Guerra pudesse da mesma lavra.
        Nada tenho a ver com c.r., nem sei quem é.

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