A minha casa é a tua casa

unnamed (1)Basta escrever em qualquer motor de busca: “houses around the world” para se perceber o tamanho do disparate da mais recente conclusão do IKEA. Casas em barcos, casas suspensas, casas de todos os feitios. Por mais que quem as habite até nasça parecido as quatro paredes que habitamos são todas diferentes. Qualquer antropólogo de quinta categoria sabe que cada casa é um autêntico ensaio sobre o modo de vida, uma vez que ela reproduz sempre elementos fundamentais de compreensão, uma natureza morta que nos dá um testemunho vivo sobre o que se passa fora de portas. Assim é desde as cavernas, espaços pouco manipulados e que apesar disso permitem que se leia o mundo antes da revolução neolítica. Não é diferente com as casas dos pescadores ou os abrigos nas montanha usadas por caçadores e recolectores. Os apartamentos minimalistas e ultra-produtivistas do Japão, o inenarrável bloco indefinível do realismo soviético, as colmeias da classe média dos EUA com o jardim entalado nas traseiras entre o charco e o churrasco, são outros exemplos que nos mostram que não há casa que não seja capaz de nos transmitir um rol infinito de indicações precisas sobre a sociedade que as envolve.

365-manual-habotacao-fed2Não é nova, longe disso, a propaganda da casa. O Millenium BCP – ou qualquer outro banco que se encheu de dinheiro durante décadas à conta da agiotagem dos juros para o crédito habitação – foi dos mais arrojados na radicalização da mensagem. “A minha casa é a minha vida”, cantada ad nauseam no pequeno ecrã no “bom feeling” da Sara Tavares, enganou uma geração inteira de jovens que acabou amarrado a 100 metros quadrados de chão e refém de um infinito matrimónio com a banca. Não era diferente o velho e bafiento “quem casa quer casa”, que fez o seu caminho mesmo antes do 25 de Abril.

Se é evidente que as pessoas precisam de casa, ela não devia substituir a igreja na mudança do paradigma e da reforma das profecias que nos procura manter de costas voltadas uns para os outros e alheios às virtudes da vida colectiva. O direito à habitação condigna, designo que já devia ter sido conquistado pelo menos na ressaca do sobressalto industrial, não pode ser confundido com o fanatismo residencial que nos coloca a todos a viver para dentro numa forma de vida resumida à solidão ou ao núcleo familiar mais directo. A teologização da casa é mais uma finta do capitalismo liberal radical para nos impor o juro, um fundamentalismo anti-social que dissemina uma nova forma de fanatismo individualista.

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