Girls gone wild, west and black (Parte II)

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Modelos kogyaru (ou kogal) a posar numa revista.

Na primeira parte deste post, tracei uma genealogia da equivalência entre delinquência sexual e delinquência racial na raiz do conceito moderno de shoujo (“jovem rapariga”), desde a school girl da Era Meiji, passando pelas moga (“modern girl”) nas décadas de 20 e 30, até às prostitutas panpan no pós-guerra. Agora, fazemos fast forward para a progenitura mais espampanante e kawaii desta linhagem: as gyaru (transliteração japonesa do inglês “gal”) e os pânicos morais que estas meninas com microssaias e muitas horas de solário suscitaram durante os anos 90s e early noughties.

O gyaru é uma das subculturas femininas mais persistentes do Japão contemporâneo. Ao contrário da maior estabilidade estilística de outras street fashions duradoras (como o Lolita), esta longevidade deve-se em grande parte à sua heterogeneidade e capacidade de reinventar-se em intermináveis (e, muitas vezes, efémeras) subcategorias – afectando looks que vão desde a high schooler dropout à bimba californiana on steroids, passando pela diva hip hop às hostesses dos clubes nocturnos japoneses. Em comum, mantêm-se uma certa qualidade de delinquência posh e slutiness ocidentalizada (por vezes elevada ao ponto da paródia), as shopping sprees nos grandes armazéns de Shibuya e, em geral, uma vibe de party girl descontrolada que, para o bem e para o mal, está nos antípodas da Yamato nadeshiko (a personificação normativa da “rapariga japonesa ideal’). Mas, afinal, quem são e de onde vêm estas moças?

GGW_1Duas kogyaru numa rua de Shibuya.

O termo “gal” entra no jargão nipónico ainda nos anos 70, mas é nos anos 80, em plena bubble economy, que a subcultura começou a ganhar forma em torno de revistas cor-de-rosa trashy para adolescentes e jovens office ladies interessadas em moda, roupa justa (chamada bodicon, de “body conscious”), idas a boates – em particular, a mítica Juliana’s Tokyo, conhecida pelas plataformas descomunais das suas go-go dancers – e, last but not least, rapazes (não por acaso, um slogan icónico da primeira geração gyaru era “I can’t leave without men”). Ou seja, comparadas com o cânone de feminilidade japonês altamente espartilhado pela obediência ao protocolo e os papéis de género tradicionais, o gal representava uma nova estirpe de raparigas mais sexualmente agressivas e, ao mesmo tempo, easygoing e despretensiosas. À primeira vista, a coisa pode parecer ter pouco de “revolucionário”; mas o facto do parlamento japonês ter caído com mão de ferro em cima das revistas femininas associadas ao lifestyle das gals (levando a que muitas delas fossem descontinuadas em meados dos anos 80), é bem indicativo de como este tipo de comportamentos licenciosos não eram bem-vindos pelo controlo patriarcal.

GGW_2Capa da revista feminina Gals Life (anos 80).

Mais do que qualquer outra coisa, porém, o nascimento do gyaru enquanto street fashion é inseparável do emergir de Shibuya como hotspot da cultura jovem e nocturna de Tóquio, na ressaca da bolha das designer clothes conceptuais e avant-garde que dominavam a cena de Harajuku no final dos anos 80 (liderada por marcas como a Comme des Garçons e a Y’s). Nomeadamente, o gyaru ligou-se à popularização do estilo shibukaji (“shibuya casual”), inspirado na cultura preppy norte-americana e caracterizado por uma fartura de jeans, polos e (entre os miúdos mais endinheirados) acessórios de marcas como a Chanel ou a Louis Vuitton – usados com uma nonchalance de quem não quer a coisa.

GGW_3Vista nocturna do bairro de Shibuya.

GGW_4Exemplos do estilo shibukaji (anos 80).

Este estilo “casual” acabou por ser adoptado pelos chamados chiimaa (de “teamers”), miúdos ricos malcomportados que, em vez de estudarem, se dedicavam a organizar festas underground em Shibuya, comer fast food e andar às voltas de carro a engatar miúdas. Contudo, em 1991-92, uma série de lutas territoriais violentas entre gangs rivais de chiimaa (que resultaram na morte de um estudante universitário e de um sem-abrigo) puseram as forças policiais em alerta e condenaram esta passageira e mal-afamada subcultura, dominada por rapazes, ao desaparecimento. Ao contrário, foram as raparigas que se moviam nos círculos dos chiimaa, onde até então ocupavam um papel secundário – as chamadas paragyaru (“paradise gals”), por cultivarem um visual bronzeado à la beach girl de Los Angeles –, que sobreviveram para desenvolver aquele que se tornou um dos estilos mais icónicos da street fashion japonesa dos anos 90: as kogyaru (‘ko’ é um sufixo que indica ‘pequeno’ou ‘criança’). É neste sentido que se pode dizer que “as primeiras kogyaru de Shibuya eram, essencialmente, as namoradas dos chiimaa” (Marx 2012).

GGW_5Bando de chiima (ou teamers).

GGW_6Exemplos do estilo paragyaru (início dos anos 90).

O kogyaru começou por ser um estilo usado por high schoolers rebeldes de liceus “bem,” que em vez de querem parecer mais velhas (como a anterior geração gyaru) exibiam orgulhosamente os seus uniformes escolares modificados usando-os, inclusivamente, ao fim de semana – uma tendência conhecida como “seifuku pride,” também resultado do movimento de Identidade Escolar (circa 1987), que levou a que muitas escolas contratassem designers profissionais para reformular os uniformes antiquados, dando-lhes uma aura mais moderna (por exemplo, introduzindo o blazer para raparigas). O novo visual teve o seu pico entre 1993 e 1998 e captou a atenção mediática com as suas minissaias plissadas descaradamente curtas, penny loafers, pele bronzeada e o cabelo pintado de castanho claro ou arruivado (o chamado “chapatsu”).

GGW_8Características do estilo kogyaru.

Entre os acessórios preferidos das kogyaru, estavam pagers e telemóveis primitivos que mitigavam o controlo parental, assim como as emblemáticas loose socks: um tipo de meias brancas, espessas e largas como perneiras (originalmente de montanhismo e importadas dos Estados Unidos), que as raparigas esticavam, alargavam e colavam abaixo do joelho com uma fita adesiva chamada sock glue. No auge da sua popularidade, surgiram variantes como as super loose e gom nuki loose, chegando algumas a ter mais de dois metros de comprimento.

GGW_7Exemplo de loose socks.

Rapidamente entraram em circulação trocadilhos depreciativos como “loose socks ou loose sex?, e por todo o lado corriam relatos de homens mais velhos que compravam a companhia (e, eventualmente, os favores sexuais) de colegiais de classe média e alta a troco de dinheiro ou géneros, como roupa de marca e produtos de luxo – epitomando, assim, a imagem de uma clique de raparigas adolescentes aborrecidas, materialistas e destituídas de qualquer fibra moral, utilizando os próprios corpos como mercadoria transacionável. O fenómeno, que ficou conhecido por enjo kousai (“compensated dating”), transformou-se no pânico moral da década, alimentado pelos jornais sensacionalistas e conservadores ao mesmo tempo que, nas revistas masculinas, as kogyaru eram romantizadas como fantasia sexual número um do homem japonês contemporâneo.

GGW_9Publicidade a “sexy dating” num telefone público.

Esta power play – em que duas faces da mesma agenda ideológica repressiva tratam de “sexualizar raparigas adolescentes e depois castigá-las por agirem sobre essa sexualidade” (Shamoon 2012, 28) – não é nova; na verdade, é traçável até à school girl da Era Meiji, surgindo como tema central em clássicos da literatura japonesa moderna como Futon (1907) de Katai Tayama. E apesar de, em retrospectiva, os estudos indicarem que o enjo kousai como prática disseminada entre as kogyaru será pouco mais do que um mito urbano (as raparigas parecem, de facto, ter começado a fazer mais sexo mais cedo, mas com os seus namorados e não a prostituírem-se), isso não impediu que tivessem de lidar com o crescente assédio de salaryman que se deslocavam às ruas de Shibuya à espera de sexo. Como reação, muitas kogyaru adoptaram um jargão macho e uma postura intimidante que afastava os pretendentes indesejados e teve um impacto decisivo nas gyaru dos anos 2000.

GGW_10Imagens associadas à prática de enjo kousai.

Na cultura popular, a magnum opus do kogyaru é Love & Pop (1998), o primeiro filme live action de Hideaki Anno, mais conhecido como o cérebro por trás de Neon Genesis Evangelion (1995-96, uma das mais populares, aclamadas e estudas obras de animação japonesa).

GGW_11Imagem promocional de Love & Pop (1998).

Adaptado de um romance de Ryuu Murakami, a história é narrada por Hiromi Yoshii (Asumi Miwa), school girl de uma família normal de classe média, que, juntamente com o seu grupo de BFFs, pratica enjo kousai para ganhar uns trocos. A vida corre-lhe sem problemas de maior – mais do que os salaryman lascivos que as abordam, preocupam-na o futuro depois do liceu e a relação com as suas amigas –; até que um dia, por causa de um anel demasiado caro, Hiromi perde o controlo e acaba por descer ao submundo mais perturbador e perigoso do “compensated dating.

É certo que Love & Pop tem os seus momentos de fábula admoestatória, mas Anno (que conhece demasiado bem, ele próprio, os meandros da depressão) sabe melhor do que ser condescendente com as suas heroínas, representadas, apesar das suas manias e inseguranças, como miúdas intelectual e emocionalmente inteligentes – ao contrário dos homens que as rodeiam, todos eles de alguma forma patéticos e/ou uns grandes weirdos. Acima de tudo, Love & Pop é toda uma fenomenologia do kogyaru, fazendo uso pioneiro de câmaras de mão digitais para captar as raparigas enquanto sensação crua. Desde a cena inicial, em que vemos de um ponto de vista subaquático a silhueta de Hiromi em uniforme a flutuar na água, obscurecida pela contraluz de um sol alaranjado (poderia ser um mar de LCL como o de Evangelion, “um mundo em que existes em todo o lado, e como tal em lado nenhum”); passando pelo motivo recorrente das unhas impecavelmente arranjadas, alongadas e distorcidas por lentes olho de peixe – inclusivamente, o fascínio de Hiromi perante a visão abjecta da sua mão coberta pelo esperma de um “cliente” nojento; até à icónica cena final, um travelling longíssimo em que as raparigas caminham incansáveis lado a lado, em direção à câmara, ao longo de um canal alagado e ladeado de betão e prédios.

GGW_12GGW_13GGW_14Corporalidade das kogyaru em Love & Pop.

Logo no início, Anno consegue até o prodígio de fazer uma panchira ou panty-shot invertida, em que em vez de vermos as cuequinhas de Hiromi como seria habitual, vemos o ponto de vista das cuequinhas em si: de entre as pernas para o chão. Esta inversão deliciosamente irónica – porque é tanto o culminar do voyeurismo subjacente ao plano da panty-shot (estar na própria cueca), como seu anulamento final (uma vez que a cueca deixa de ser visível) – é, aliás, uma característica que atravessa Love & Pop: a proximidade radical ao corpo enquanto sujeito (animado) mais do que objecto (inanimado). Apesar de existir, sem dúvida, uma componente fetichista nesta aproximação, as gyaru (e mundo por elas habitado) são representadas enquanto matéria e sensação bruta, mudando a perspectiva pela qual os seus corpos são habitualmente olhados (de fora, como imagem desencarnada, realidade com a qual Hiromi e as amigas constantemente se deparam ao longo do filme) para reclamá-los enquanto presença irredutível que resiste a qualquer reificação.

GGW_15Panty-shot invertida de em Love & Pop.

Pelo meio, há ainda momentos bunuelianos dignos de um Belle de Jour; como a sequência em que, no final de um “date” com um salaryman inconspícuo, Hiromi e as amigas acabam numa sala de karaoke a mastigar uvas Moscatel que, depois de metodicamente colocadas em placas de Petri, serão vendidas a cavalheiros por quantias elevadas (um piscar de olho às chamadas burusera, lojas onde se vendem itens usados por estudantes de liceus, desde uniformes escolares e roupa interior, a pensos higiénicos e tampões, ou mesmo saliva, urina e fezes).

GGW_16Hiromi coloca na boca a respectiva uva Moscatel.

Anno não foi o único a aperceber-se das virtudes estéticas e políticas das kogyaru. Outros artistas usaram-nas como imagem de resistência (ou ataque) ao status quo, por exemplo, animações de Tabaimo como Japanese Zebra Crossing (2000), em que uma colegial defeca sobre a Hinomaru (bandeira nacional japonesa), ou  Harakiri School Girls de Makoto Aida, um admirador confesso da subcultura gyaro.

GGW_17Harakiri School Girls (1999) de Makoto Aida.

Concebido como poster para a primeira exposição individual de Aida (depois transformado em pintura para a Bienal de Singapura de 2006), Harakiri School Girls retrata com a elegância decorativa das ukiyo-e aquilo que poderia ser uma cena de slasher film, com a respectiva abundância de violência gráfica e gore. Harakiri School Girls é um palco de suicídio colectivo, em que um grupo de gyaru bronzeadas, de cabelos pintados com madeixas loiras e ruivas e loose socks, se evisceram e decapitam com catanas de samurai, entre bilhetes de karaoke e lenços de papel usados. No cenário, há ainda um arco-íris (reflexo da luz no jacto de sangue que irrompe de um pescoço) e até um gatinho, que espreita curioso. Os intestinos que percorrem a imagem como serpentinas, o sangue que jorra luxuriante das entranhas, e os sorrisos arrebatados de êxtase dão à cena um sentimento festivo, pop, psicadélico. As school girls de Aida são menos psicológicas e ambíguas do que as de Anno, e talvez por isso a mensagem é aqui mais clara: disruptivas, iconoclastas, deleitando-se “na mortalidade como negação de tudo aquilo que se define, moralisticamente, como pró-vida” (Edelman 2004, 33).

GGW_18Detalhe de Harakiri School Girls.

Na próxima parte: as “caras negras” e “bruxas” tomam o controlo em Shibuya!

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BIBLIOGRAFIA

Ashcraft, Brian e Ueda, Shoko. 2013. Japanese Schoolgirl Confidential: How Teenage Girls Made a Nation Cool. Nova Iorque: Kodansha USA.

Edelman, Lee. 2004. No Future: Queer Theory and the Death Drive. Durham (NC, USA): Duke University Press.

Kinsella, Sharon. 2005. “Black faces, witches and racism“. In Bad Girls of Japan, edited by  Laura Miller, and Jan Bardsley, 143-158. Nova Iorque: Palgrave Macmillan.

Lara. 2012. “Gyaru, uma história.” Galaxy 109. Acedido 2 Dezembro, 2014.

Marx, W. David. 2012. “The Japanese Diet vs. Popteen.” Néojaponisme.  Acedido 2 Dezembro, 2014.

Marx, W. David. 2012. “The History of Gyaru.” Néojaponisme.  Acedido 2 Dezembro, 2014.

Shamoon, Deborah. 2012. Passionate Friendship: The Aesthetics of Girl’s Culture in Japan. Honolulu: University of Hawaiʻi Press.

About ɳek✿usagi✞aɲ

Nekousagitan nasceu em Lisboa e é demasiado velha para andar a fazer bonecos e a ver desenhos animados. De dia, está a tirar um doutoramento em Pintura na FBAUL. Quando o sol se põe, faz parte do colectivo de zines Clube do Inferno (para compensar). Quando for grande, o seu sonho é ter uma dakimakura.

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