O abraço de granito

São dois humanos contingentes e presos à realidade brutal do racismo institucional estadunidense. Ambos agarrados numa ficção que se crê quase real. Em abstracto, a polícia que assassinou Michael Brown a dar um abraço gratuito a um jovem negro. Comovedor? Entendo.

A questão é a extensão deste abraço de granito. É meramente casual e episódica como o nome deste agente e a sua idiossincrasia. Não o julgo enquanto indivíduo que terá os seus problemas, emoções e sentimentos. Ele jantou ontem com amigos e chateou-se com o vizinho que não corta o arbusto que invade a sua propriedade, para não falar das dívidas a pagar e que levam a discussões conjugais extenuantes. Provavelmente “Bob” será, como dizem, um tipo simples e boa pessoa, que todas as manhãs pousa o seu distintivo na mesinha de cabeceira antes de se deitar exaurido por mais uma patrulha nocturna. Porém, fotografias são fotografias. Dizem que vale por mil palavras, por mil nomes:  Fred Hampton, Malcolm X, Martin Luther King, Michael Brown ou Trayvon Martin. E este segundo capturado não muda anos e anos de exploração, violência e humilhação.

Sim, bem sabemos que não foi este sujeito que disparou, dispararam outros. Não foi o Zé, foi o António. O outro agente da Pide até dizem que ajudava os pobres lá da aldeia. Banalização do mal, dizia Arendt; burocratização clamava Weber. Racismo nas entranhas do materialismo dialéctico.

Oxalá o jovem negro estude isto tudo; dos campos de algodão ao motivo que o levou a esta manifestação. Estará em constante conversa consigo próprio, procurando o em-si e esbarrando no Outro num Para-si eterno. Perceberá a limitação do seu salário e da sua cor. Saberá que a facticidade é cruel num mundo desigual que eleva classes e afunda outras. Quererá a transcendência e a humanidade mas as suas chances são poucas sem lutas sociais que já trouxeram muita mágoa e lágrimas. O abraço ao Bob será lembrado com a nostalgia de quem queria vê-lo do lado de cá a combater quem enriquece com a força de trabalho sobre-explorada em cada beco do sonho americano empresarial e nos complexos prisionais-industriais. De brancos e negros. Bastantes mais negros, diga-se. Mas o seu empirismo já o preveniu relativamente ao idealismo.

Amanhã, daqui a uns anos, o Bob será acordado por uma chamada que o convoca para travar um protesto: um negro atingido por um projéctil policial. Ainda ensonado despede-se com um beijo na testa do seu filho e um até já para a sua esposa: “tenho de ir trabalhar”. O jovem Devont Hart, agora na casa dos vinte, e sob pedidos de cautela, abre a porta e avisa a sua família: “tenho de existir”.

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