As reacções ao episódio Sócrates, uma cómica multiplicação de sintomas da trágica despolitização da sociedade

Chocou-me muito pouco, ou mesmo nada, verificar pela enésima vez, com este episódio socrático, a aptidão [A] dos governantes para se aproveitarem do poder ‘democrático’ em benefício próprio e [B] de redes de interesses (principalmente económicos) para manipularem o poder ‘democrático’. Basta não viver na Lua para conhecer alguns dos casos que na história recente um pouco por toda a parte se têm multiplicado (e geralmente abafado): Juppé, Chirac, Sarkozy, Kohl, Schroeder, Pujol, Blair, Bush, Berlusconi, Barroso, Rajoy… Creio mesmo desconhecer a existência de um único líder de governo sobre quem, na última década e meia, não tenham recaído sérias suspeitas de aproveitamento para fins privados do exercício do seu cargo público. Repito: um único (admito, com muitas reservas, a existência de não mais do que uma ou duas excepções).

A única coisa que me parece digna de ser considerada ‘chocante’ ou ‘indignante’ no episódio Sócrates é o teor das reacções que este novo caso de perversão da representação democrática tem espoletado na opinião pública. Nos diferentes média (blogs incluídos), debate-se quase exclusivamente a desonestidade de um homem particular, a sua imoralidade, o seu oportunismo, a sua ilícita fortuna bancária. Fala-se portanto dos actos ‘escandalosos’ de um homem específico, que se isola do seu contexto político, económico, histórico.

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Esquece-se que este homem específico era a peça central de uma imensa máquina política teoricamente responsável por representar os interesses de milhões de pessoas e por governar ‘democraticamente’ um país. Esquece-se igualmente que essa máquina política não existe sem as suas ramificações extra-políticas. Mantém-se assim inquestionável a obscura teia de relações em que o regime democrático se inscreve. E, por mais escândalos em que este regime surja implicado, nunca o mesmo acaba por ser discutido. O regime tornou-se pura e simplesmente inquestionável. Discute-se Sarkozy, jamais o regime. Discute-se Rajoy, jamais o regime. Discute-se Sócrates, jamais o regime. Já nenhum acontecimento é susceptível de fazer despertar a sociedade para a discussão do regime democrático, apesar do rol interminável de evidências demonstrando que as democracias governam invariavelmente para uma elite que enriquece à custa do povo.

É de facto chocante um acontecimento político (o favorecimento de actores privados pelo poder democrático corrompido que representa interesses alheios aos do povo que diz representar) suscitar leituras que não configuram mais do que o drama de uma apimentada novela, onde não falta o mais pequeno ingrediente: não lhe faltam, claro está, os seus maquiavélicos personagens (o bandido Sócrates e companhia)

images18TDPM34 imagesOS9OC336 com os seus imperdoáveis pecados (a vida de luxo em Paris, por ex.), nem o seu misterioso enredo (o motorista que fazia mais de 1000 km para ir levar dinheiro vivo ao patrão e demais esquemas montados), nem tão pouco a sua moral (ai estes malandros! ai os corruptos! ai que desonestos!) e, cereja no topo do bolo, a sua necessária e excitante catástrofe (o desfecho: vai tudo para a prisão… nem que seja por umas semanas. Yeeess!!).imagesCULXQ4LX Novelização da política. Hollywoodização da história. Westernização do real. 

A esmagadora maioria de reacções à detenção de Sócrates revela que vivemos num tempo onde a política dominante se tornou basicamente inquestionável. Quando rebenta um caso de corrupção envolvendo as mais altas patentes da administração pública, questiona-se sempre o fulano ‘A’ ou ‘B’ (a sua idoneidade, as suas qualidades morais, a sua fortuna bancária), jamais a orgânica do regime. Na análise a cada novo caso de corrupção, revelador da infinita distância que hoje separa o povo dos seus representantes legais, foge-se sempre à discussão das consequências de uma cruel evidência: nas democracias modernas o poder autonomizou-se em absoluto dos cidadãos.

Ao imenso rol de leituras novelescas e despolitizadas do caso Sócrates, devemos contrapor a cadeia de factos que emerge da única leitura politizada possível:

  • os administradores do Estado colocam sistematicamente a coisa pública, não ao serviço do interesse público, mas à mercê dos interesses de sectores privados
  • o poder democrático tornou-se de tal modo exterior e alheio aos cidadãos que já ninguém sabe exactamente a que interesses obedece a administração pública
  • a opacidade do poder democrático, com as suas contas públicas inacessíveis, faz proliferar os negócios de uma oligarquia de empresários e políticos, enquanto a maioria da população se afunda sistematicamente na precariedade

Lentamente, porém, e contra todos os contratempos, chegará inevitavelmente a hora da sociedade encetar um debate radical sobre este regime político que procura canalizar todos os seus recursos para uma oligarquia, enquanto asfixia sadicamente os serviços públicos, as redes da solidariedade e da protecção social.

About PDuarte

Historiador, jardineiro, horticultor. Vive na província. No tempo vago, que procura multiplicar de dia para dia, perde-se em viagens, algumas pelos montes em redor, outras pelos livros que sempre o acompanham. Prefere o vinho à blogosfera, a blogosfera ao Parlamento.

2 thoughts on “As reacções ao episódio Sócrates, uma cómica multiplicação de sintomas da trágica despolitização da sociedade

  1. Um artigo saudável. A corrupção é inseparável do sado-monetarismo e do austeritarismo práticas condenatórias do poder democrático:promiscuidade do poder político com formas não democráticas, o económico passa a estar ao serviço das lutas pelo poder,aquilo que parece um imenso potlach é a tradução de um poder ostentatório que assim se legitimiza através dos novos mecanismos/instrumentos do poder.

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