Sobre as preocupações do Rodrigo Moita de Deus e do José Neves sobre as medidas de coação decretadas a José Sócrates

Por razões diferentes (mas com consequências não tão diferentes assim) e deixando claro que não têm nenhuma simpatia pelo ex-PM, o Rodrigo Moita de Deus e o José Neves estão preocupados com as medidas de coação definidas para José Sócrates.

O primeiro acha que a “coação é exagerada”, que não consegue justificar “que alguém, que não tenha cometido um crime de sangue, seja encarcerado à espera de acusação” e que ter 20 milhões de euros sem o conseguir explicar não é razão para grande alarme posto que “ter 20 milhões de euros só é crime para leninistas”. O segundo preocupa-o a utilização do mesmo fulgor judicial em “outros casos”, as “violações do segredo de justiça”, e “essa coisa escabrosa que é uma pessoa poder ficar 40 meses em prisão preventiva”. Vamos por partes, desde logo deixando claro que apesar de defender as medidas de coação decididas para Sócrates (e outros, tantos outros que delas precisavam) estou longe de ser um judicialista e estou longe de acreditar na cegueira (sobretudo de classes) do sistema de Justiça.

O Rodrigo Moita de Deus é um tipo mais linear. De resto, dos mais linear que por aí pode ser lido. O seu respeito pelos tribunais está ao nível do respeito de qualquer rebarbado por um salão erótico. O liberal-monárquico que respeita uma mão cheia de instituições e organizações, a começar, pasme-se pelo Governo e pelo PSD, entende que os tribunais são uma autêntica instituição mafiosa.  A súbita preocupação com José Sócrates tem, como quase tudo em Rodrigo Moita de Deus, uma explicação fácil e que ele próprio, noutro tempo, fez questão de assinar, suspirando pelas vantagens de se abrirem contas na Suíça. Como escreve no seu auto de fé ao processo de José Sócrates, a sua grande preocupação é que outros, da sua banda naturalmente, sejam sujeitos ao que Sócrates se sujeitou. Do grupo Lena aos grupos do conglomerado do governo PSD-CDS, do Portas a ele próprio, pois claro.

José Neves é mais difícil de compreender, a começar pela sagração que faz do segredo de justiça, essa que devia ser tão pública como transparente (imagina-se assim quando a multidão for capaz de gerar os seus mecanismos de justiça, não?). Se as preocupações com a jurisprudência têm razão de ser (aqui só em José Neves, não no Rodrigo Moita de Deus), sobretudo porque haverá momentos em que esta prática vai cair sobre “réus” que só serão “réus” por razões políticas, este facto acaba por perder relevância quando o exemplo do qual partimos é José Sócrates, alguém cujo rol de acusações nada têm que ver com o seu pensamento ideológico e se resumem a lavagem de dinheiro, fuga ao fisco e corrupção. Sendo provável que os 20 milhões não se expliquem sem se abrir várias caixas de Pandora (José Sócrates não tinha 20 milhões antes de chegar a primeiro-ministro), a libertação condicional do suspeito daria ainda mais tempo do que aquele que ele já dispôs para limpar o caminho das pegadas que deixou.

Uma prisão preventiva não deve durar sine die, nem tão pouco nos sujeitos que sejam suspeitos de crimes de sangue (ou será que esses não podem estar inocentes?), mas essa razoabilidade não retira sentido a esta medida de coação preventiva, desejável em todos os casos em que a libertação do sujeito seja sinónimo de ter alguém, à solta, a obstruir a apuração da verdade e, consequentemente, da aproximação a algo mais próximo de ser considerado “Justiça”. Reconhecerão, também o nervoso miudinho do Rodrigo Moita de Deus e a pedagogia preventiva do José Neves, que José Sócrates já deu provas suficientes que uma vez no terreno tudo fará para que só a sua verdade se apure.

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3 thoughts on “Sobre as preocupações do Rodrigo Moita de Deus e do José Neves sobre as medidas de coação decretadas a José Sócrates

  1. O poder dos oligarcas sempre foi muitíssimo mais ríspido para com os seus criados de ‘esquerda’, digamos assim. Basta ver os Vistos Golden e o SIS estar metido nisso e NÃO acontecer nada.Já ninguém se lembra assim, como a dona branca espirito santo.E,sde formos a pesar os pecadilhos destes ‘socrates’ com os da banca-não há proporcionalidade,certo?

  2. De Bettino Craxi a Mitterand a social democracia atolada em corrupção não é novidade nenhuma. Também convém não ter ilusões quanto ao que os governos da Social democracia representam, basta ver como Hollande está a abrir as portas descaradamente a Le Pen. Aliás se o tal de neo-liberalismo de hoje em dia é totalmente hegemónico muito o deve aos partidos socialistas por essa europa fora, quanto a isso este artigo publicado há uns anos na “Capital and Class” é bastante certeiro(http://www.academia.edu/1378746/Neither_pragmatic_adaptation_nor_misguided_accommodation_Modernisation_as_domination_in_the_Chilean_and_British_Left).
    Quanto ao Zé Neves, enfim… é o paradigma do “Radical do abstracto” e “Reformista do concreto”, ou dito de outra maneira é um reformista pró-regime com patine anarcóide.

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