Um Dos Santos no Estado do Diabo

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A população portuguesa em França é uma das populações estrangeiras mais numerosas. Hoje, os nascidos em Portugal rondam os 600 mil, portanto aqueles que têm nacionalidade portuguesa, dupla nacionalidade franco-portuguesa e tutti quanti devem ser mais de 1 milhão. São mesmo muitos! Estão espalhados em França, uns visíveis enquanto portugueses outros invisíveis enquanto franceses, não há regra. Mickael Dos Santos encontra-se entre estas tantas pessoas que têm uma qualquer afinidade ou não com Portugal. Raramente uma destas pessoas, reconhecida socialmente como português, aparece na capa dos jornais franceses, não fossem os portuguesas em França essa população trabalhadora, bem comportada e sem pretensões problemáticas na sociedade francesa. E de repente, ultraje! Um francês de origem portuguesa encontra-se nas fileiras do Estado Islâmico em frente das câmaras a decapitar um inocente. Sabe-se que a mãe e avó são empregadas de limpeza, jogou futebol no clube dos lusitanos, foi à catequese, era simpático e bom estudante quando se converteu ao islão e se radicalizou à velocidade da luz. Fez as malas e rumou para a Síria em Agosto 2013 para engrossar as fileiras do jihadismo. A comunidade portuguesa está traumatizada, está chocada, o islão roubou um dos seus.

Tudo normal se no pano de fundo desta narrativa não se encontrasse uma boa dose de “racismo identitário”. Há de tudo… escusemos de encontrar razões nas diferenças de origem nacional para estas “conversões à barbárie”. Se houver um qualquer perfil comum entre estes jovens portugueses, franceses, argelinos que rumam ao encontro do terror ele traduz-se mais nas condições objectivas de vida, na coabitação em bairros degradados e nas poucas perspectivas de futuro do que na educação cultural e religiosa de cada um deles. Estas parecem-me as verdades nas trajetórias destes jovens que são desagradáveis de relatar. A “boa” integração dos portugueses em França não se pode apenas e só medir pela fraca taxa de desemprego no seio desta população. O ministro do Interior francês, claro está, para limpar o água do capote falou rapidamente no caso dos binacionais a quem se deve retirar a nacionalidade francesa, mesmo que estes tenham nascido e crescido em França.

Finalmente, há sempre um engraçadinho nas caixas de comentários que precisa de descarregar o seu sarcasmo preconceituoso, acabando, malgré lui, por resumir todos os artigos que li sobre o assunto: “Il faut le comprendre ce jeune dos Santos, on lui avait promis plein de morues au paradis de Daesch. » (precisamos compreender este jovem Dos Santos uma vez que lhe prometeram toneladas de bacalhau no paraíso do Estado Islâmico).

[Actualização: Dos Santos tornar-se-ia uma legenda, se as notícias dos meios de comunicação não fossem sinónimo de efemeridade. O Expresso (PT) constrói toda uma narrativa sobre a habitação do rapaz… morava num bairro chique e pacífico, onde através das janelas de sua casa até podia ver patos selvagens a nadar no rio Marne. Para o Expresso cataloga-se Dos Santos, a partir do indicador das condições de habitação, como pertencendo à classe-média alta. Este artigo revela um desconhecimento grave não só do perfil socioprofissional da população portuguesa como da configuração geográfica dos subúrbios parisienses.  Estas afirmações equivalem a dizer que os portugueses residentes no “intramuros” de Paris são todos de “classe alta” uma vez que existe uma forte concentração no 16ème arrondissement, o bairro mais caro de Paris. Esquece-se que muitos deles vivem nas tão conhecidas “cages dorées” e são porteiros ou empregados de limpeza. Enfim, haveria muito mais considerações a tecer sobre a catalogação de “classes”, mas o que é certo é que o suposto Jihadista parece que vivia com a mãe, de facto num bairro de vivendas, mas num prédio degradado, HLM (habitação social). Mas o que interessa tudo isto quando o que parece mesmo é que os meios de comunicação criaram uma falsa notícia, Mickael Dos Santos não estava presente no momento das decapitações.]

One thought on “Um Dos Santos no Estado do Diabo

  1. Existem estudos que comprovam que os que no presente aderem á causa islâmica pertencem efetivamente a classes médias médias altas ou altas e não a classes “baixas”, mas sugerir um estudo a um site baseado no analfabetismo funcional deve roçar o pecado capital.

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