EM TOTAL REPÚDIO E ABJECÇÃO COM O POST “A morte de Casanova e a sua importância para a política” de zemanelclemente, aqui publicado

Não, não sei quem é zemanelclemente, não o conheço de lugar nenhum, nem a pessoa, nem a existência nem as “ideias”. Mas sei quem não é zemanelclemente. O meu repúdio do post que cito no meu título prende-se com um facto básico: não é crível nem debate aproveitar a morte de um militante de um partido comunista (não por acaso o meu) para querer propor uma discussão do “centralismo democrático”. Não acredito que se acredite que isto tem lógica, ideológica ou humana ou política. Eu não aproveito a morte de alguém para discutir algo em que esse alguém acreditou, militou, enriqueceu, desenvolveu, cimentou.

Vamos por partes: o CENTRALISMO DEMOCRÁTICO, julgo eu, devo estar certo e concordo, não é uma máquina de consensos, nem mais ou menos nem minimamente. É uma forma de “organização política” (essa ideia que mesmo o mais radical e heterodoxo dos comunistas, o filósofo que estudo, Badiou, sabe ser necessária, a “organização”, num partido ou num anti-partido, digamos, num “movimento” – e desafio “clemente” a trabalhar esta diferença entre “partido” e “movimento”, mas não em cima de gente falecida). O “centralismo democrático” não é uma trituradora máquina de consensos, porque admite a dissensão, apela à dissensão, supõe a discussão pacífica e agressiva (como eu por vezes gosto), supõe aí, acompanhando tal situação agregadora ou desagregadora, e elaboração de textos, pensamentos ou “teses”.

Este é o funcionamento de determinadas organizações políticas, numa das quais, não por acaso, disse, milito e, por vezes, milito dogmaticamente, pois o dogmatismo interessa-me e muito. Por isso estou aqui a escrever este texto.

Ao militar no PCP tenho expressado sempre no seu interior uma profunda aversão à democracia parlamentar e tenho visto muitas das minhas ideias (quem sou eu? ninguém) terem eco, também porque muito antes de eu nascer aquele já era um lugar de luta e desobediência, em suma, um lugar de defesa de lutas colectivas e de massas ilegais – as massas e as lutas.

Quanto a José Casanova. Recentemente, participei com ele, Pedro Pousada e Manuel Gusmão no “Avante!”, festa de 2012, numa mesa-redonda sobre arte e política em torno dos 75 anos da “Guernica”. Depois de eu ter exposto a minha não muito consensual tese sobre a obra que julgo conhecer bem, Casanova mostrou um grande interesse na leitura do meu texto, um tanto mítico e místico, onde misturei alusões a mitos e dispositivos religiosos, afastando a obra de qualquer conteúdo explícito (como aliás Cunhal faz em “A Arte, o Artista e a Sociedade”). O jornal “Avante!” publicou depois o seguinte texto sobre o polémico debate:

guernica.jpg

Guernica, o quadro que Pablo Picasso pintou quase imediatamente a seguir ao bombardeamento desta cidade pelos nazis, foi mote para o debate A Arte e a Luta Política, realizado na sexta-feira à noite, no Auditório do Espaço Central.

Com o seu quadro Guernica – que mereceu na Festa um espaço específico –, Picasso quis mostrar que «uma das faces da humanidade é a barbárie» e, por outro lado, que o artista pode ser agente e simultaneamente independente. Quem o diz é Pedro Pousada, que lembra ter Guernica inspirado toda a vanguarda artística da época, levando à criação de inúmeras obras, nomeadamente de grandes escritores e poetas.

Para José Casanova, esta obra de Picasso é o exemplo maior da arte na luta política, pois com ela o artista interveio intencionalmente contra a guerra e pela paz, na sequência do bombardeamento indiscriminado da população pela aviação alemã. Também José Casanova considera que esta obra foi motivadora de outras obras de arte, nomeadamente em Portugal. Lembrou, a título de exemplo, poemas de Eugénio de Andrade, de Álvaro Feijó, de José Terra ou de Carlos Oliveira. Aliás, na segunda metade da década de 30, surgiu toda uma geração de intelectuais com uma importante acção na luta política, Alves Redol, Soeiro Pereira Gomes, Júlio Pomar, Manuel da Fonseca, Fernando Lopes Graça e muitos mais. Todos na linha de intervenção de Picasso, da arte na luta política.

Manuel Gusmão, que presidiu ao debate, lembrou, entre outras considerações, a reflexão de Álvaro Cunhal na sua obra «A Arte, o artista e a sociedade» e inscrita numa das paredes do espaço Guernica: «Guernica foi uma obra possível e quase “milagrosa” pela junção de um excepcional talento artístico e de uma poderosa e imperativa indignação, vontade e determinação de, num momento concreto, intervir com a própria arte na vida social, levar uma convincente mensagem à humanidade».

Carlos Vidal diz ser Guernica uma obra «exemplar» e «intemporal», que «representa o trágico na sua plenitude» e considera que aquilo a que chama «arte política» se distingue, entre outros aspectos, por «bloquear a informação rápida, o acesso imediato ao sentido», levando as pessoas a reflectir sobre ela. A sua afirmação, porém, de que se trata de «uma alegoria política e não uma obra estritamente política», viria mais tarde a suscitar alguma polémica, com um membro da assistência a defender Guernica como uma obra intencionalmente política.

Um debate interessante que não ficaria completo sem uma visita ao espaço dedicado a Guernica, onde o poema de Carlos Oliveira, intercalando as várias secções em que o painel foi dividido, funcionou, de facto, como uma autêntica visita guiada a esta obra de Picasso.

Patentes ao público estavam também as fotografias com que Dora Maar registou as transformações que iam acontecendo nos painéis que Picasso ia pintando e os vários estudos, quase todos a lápis sobre papéis azuis e brancos, que foram por ele sendo feitos até à concretização desta obra.

AVISO: Não entro em polémica com a pessoa “zemanelclemente” (que não conheço, nem sei o que é) nem com nenhum de seus apaniguados (que conheço vagamente).

 

One thought on “EM TOTAL REPÚDIO E ABJECÇÃO COM O POST “A morte de Casanova e a sua importância para a política” de zemanelclemente, aqui publicado

  1. D’accord camarade. Mas deixo algumas notas ao vento.

    A forma é importante, sem dúvida. Há aqui um período que se tem de respeitar antes de criticar as posições políticas de José Casanova (que eu também critico, embora as minhas críticas venham de outro flanco).

    Portanto não é o facto de ele não estar cá para se defender. Isso não é nada. Lenine, Estaline e Trotsky também não estão cá para defenderem, e nós criticamos as contribuições teóricas que deram ao movimento operário.

    O nojo consiste no facto de nada de original haver para discutir em José Casanova, nada de necessariamente urgente.. José Casanova não inventou o centralismo democrático, e portanto o autor do postal só tinha que discutir a ideia, e não a pessoa. Isto se quisesse discutir a ideia – que não queria, queria discutir a pessoa. O José Casanova não tinha que aparecer em memes. O nojo está aí.

    Guardo portanto a liberdade de criticar as posições e contribuições de José Casanova. Tudo a seu tempo.

    Quanto ao ‘Centralismo democrático’ tout court. A tal ideia que o autor não queria discutir, até porque tinha afazeres domésticos .. dois pontos importantes de debate:

    1) Em primeiro lugar. O que é o centralismo democrático? Que treta é essa do ‘consenso’? Unidade na ação? unidade de pensamento? Um Partido Comunista é um clube de debate ou uma ferramenta revolucionária? Num Partido Comunista discute-se estratégia ou táctica?

    2) O ‘centralismo democrático’ é a forma como se organiza o PCP? O autor fechou logo aqui um debate, dando de barato que sim. Mas eu tenho dúvidas.

    Cumprimentos

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