A música dos anos 80 e o eclipse das formas clássicas do movimento operário

O Renato Teixeira tem vindo a afirmar que os anos 80 foram a pior década de sempre em termos musicais, apresentando para o efeito uma lista de 23 canções onde mais de metade são gigantescos clássicos. Imaginamos que ele se refira ao quadrante generalista da música pop, já que seria uma afirmação demasiado ousada dizer, por exemplo, que a música feita entre 1980 e 1989 é imensamente pior do que a feita entre 1380 e 1389, onde houve uma crise terrível. Ainda assim, antes de proceder à demonstração empírica de que essa afirmação é errónea, procederemos a demonstrar como a concepção Renatista relativamente à música pop é fundamentalmente equivocada e até conservadora. Seguiremos avante por uma série de teses.

1. O grupo/cantor pop/rock é uma forma de subjectividade proletária. Está por fazer uma história que correlacione as formas que foram assumindo as expressividades do pop/rock com as múltiplas formas dos movimentos operários e plebeus. Sobrevoando essa urgente tarefa digamos que não é por acaso que o grupo pop tal como o conhecemos hoje se afirma nos anos 60 e que o Punk surge exactamente no mesmo momento em que 68 começa a reconhecer as suas derrotas. Nesse sentido, os anos 80 são precisamente aqueles em que a consciência revolucionaria do proletariado inicia a sua travessia do deserto da qual apenas começaria a vislumbrar uma saída no final da década passada. De outro modo, é precisamente a total captura da subjectividade operário pelo capital operada nos anos 70 que faz com que este procure nas expressões malditas da pop, no seu hedonismo vazio, na sua sincera artificialidade e nas suas mais patéticas aporias do sujeito uma compreensão do triunfo do capital.

2. A música dos anos 80 é o canto do cisne do movimentos revolucionários do Séc. XX. E como tal não poderia senão ser extremamente ambígua. Nas suas formas elegíacas o niilismo sonoro adquire expressões extremas, que ainda hoje não foram ultrapassadas, e nas formas celebratórias adquire uma artificialidade também extrema, tão exagerada que passa facilmente para o lado da caricatura. É por isso que, como em nenhuma década anterior ou posterior, no anos 80 o underground e o mainstream, separados, estão sempre extremamente próximos. Tornando-se secundária a questão do gosto pessoal é precisamente na música dos anos 80 que começam a ser delineadas as aporias políticas do período em que vivemos: a crise permanente, o abismo do sujeito, a falências das hipóteses de movimento operário mais burocratas ou mais descentralizadas, etc. É natural que para o abrilismo todo este pacote surja enquanto tragédia porque vem precisamente pôr em causa formas culturais que em Portugal formaram escola e, por via da sua chegada tardia, foram contemporâneas a esse processo de catarse e dispêndio proletários que foram os anos 80. Aliás, surge enquanto latente a tese de que o presente colapso da esquerda portuguesa se deve precisamente a nunca ter encarado de frente o deserto que devia ter atravessado.

3. Apenas na década de 80 se pode afirmar que existam o underground e o mainstream. Nos anos 60 e 70 a indústria discográfica e musical estavam ainda a constituir as formas modernas da sua produção e distribuição. Nos anos 90 a indústria percebeu que o underground vendia, nos anos 00 a internet veio acabar com o monopólio da indústria sobre a forma Pop e todo o edifício ruiu. Nos anos 80 a cultura DIY do Punk e do Hip Hop espalhou-se como fogo criando mil e uma cenas alternativas que subsistiam fora do radar, sendo, no entanto, a partir delas que eram forjadas as novas tendências que se sucediam nos tops. Madonna veio da mesma cena que os Sonic Youth. Bruce Springsteen era amigo dos Suicide. Os Human League partilhavam origens com os Throbbing Gristle. Hoje a distinção underground/mainstream tem mais a ver com estereótipos estéticos: o underground obedece a concepção masculinizada da seriedade e a um fetishismo da autenticidade no apelo a sentimentos mais “profundos” ou mais “agressivos”, enquanto o mainstream é aparentemente mais pueril, dedicando-se de aos epifenómenos da domesticidade. A distinção cai por terra quando o BILLBOARD TOP 10 dos Estados Unidos é composto por nomes tão desconhecidos quanto a lista das melhores demos do ano da Maximum Rock n Roll.

4. Foi nos anos 80 que se terminaram de definir as formas pop/rock que ainda hoje vigoram. Ou de outro modo, desde os anos 90 se assiste a sucessão de permanente recuperação das sucessivas vagas musicais. Mesmo a música electrónica recorrentemente regressa aos motivos musicais do pop/rock. Basicamente desde 2001 que os anos 80 estão na moda.

Ainda que de forma de breve fica então patente de que modo a rejeição pelos anos 80 é então uma posição mistificante e conservadora. A história que se segue, uma longue durée superficial e apressada da década não é uma história estética mas uma história política. Passemos então à sua demonstração empírica. Como a maioria dos leitores sabe em 1977 dá-se a explosão mediática do Punk Rock, que no entanto já existia desde o início dos anos 70. A extrema simplicidade da sua estrutura musical afirmava plenamente a caducidade das categorias criativas do “génio” e do “talento” e da “maestria”, afirmando que para ter uma banda bastava um certo tipo de atitude e disponibilidade. As consequências imediatas foram, em primeiro lugar, a formação de milhares de bandas e, em segundo, o modo como estas empreenderam a constituição da sua própria linguagem formal e estética. Ora são precisamente os anos 80 o território desta incessante exploração musical, estética e subjectiva que traça o esboço de um determinado estados das coisas que percorre tanto as melodias dos Smiths como a abjecção dos Swans. Por questões de simplicidade operamos aqui uma divisão atlântica sendo que são sempre correntes descentradas que têm expressões em ambos os lados do atlântico e, obviamente, noutros países que os Estados Unidos e o Reino Unido

Nos Estados Unidos o Punk Rock segue inicialmente dois caminhos. O primeiro, mais artsy, e na verdade o original, precedendo o Punk inglês por vários anos, assume a sua vocação cosmopolita e dandy e nos anos 80 cria uma escola própria, que escapa de Nova Iorque para se tornar transversal aos centro urbanos do pais. Nos anos 80 persiste ainda algum do espírito Glam e “maldito” da cena original mas surgem derivas para novos territórios, no sentido do Country por exemplo.

No entanto é precisamente uma vertente mais conceptual dessa cena original Nova Iorquina que vem dar origem a um dos epifenómenos mais interessantes da década, a No-Wave, que juntava a heterodoxia da música erudita à rua suja do Lower East Side. É de aqui que vâo surgir os Sonic Youth por exemplo, que têm vários dos seus momentos interessantes nos anos 80. É também aqui que surgem os Swans de Michael Gira, considerada pela imprensa de especialidade e generalista a melhor banda ao vivo de 2014.

É também neste caldo de influências diversas, e que já tem presente alguma da cultura negra e porto-riquenha emergente nos anos 70, que surge a Madonna, que contracena com Richard Hell, o primeiro Punk, em alguns filmes da época. Madonna viria a ser das maiores estrelas dos anos 80. Os Sonic Youth fizeram algures durante a década um álbum de homenagem à cantora para o qual mudaram de nome para Ciccone Youth. Tribunal popular com eles! A Pós-modernidade não passará!

É também desta vertente estética e maldita que surge o Death Rock, do qual Nick Cave será o exemplo mais conhecido. (Sendo Nick Cave outro dos “valores seguros” alternativos das últimas décadas que é inegavelmente um produto dos anos 80).

Paralelamente, no inicio da década, surge uma reinterpretação suburbana do Punk, o Hardcore. Nos primeiros dos anos surgem centenas de bandas que com uma ferocidade inédita literalmente assaltam os limites das formas do Rock. É de aqui que surgem os Dead Kennedys, que formam juntamente com os Clash e os Crass o triunvirato do rock “político”. Mas deixamos exemplos diferentes.

Desta cena surgem três vertentes. Na primeira a raiva transforma-se em postura “tough”, incorporando elementos da cultura de gangues, sublinhando os traços de masculinidade e virilidade.

Este “endurecer” vem depois influenciar as correntes mais extremas do Metal, criando o Crossover e o Trash, que viriam a abrir o interminável filão do metal extremo.

Paralelamente surge o noise, uma vertente artsy do hardcore. Os Big Black são das melhores bandas da década e Steve Albini viria a ganhar notoriedade enquanto um dos produtores musicais mais importantes dos anos 90, tendo-se tornado famosa a situação em que acusou os Nirvana de se terem vendido após Cobain ter recusado o seu mix do álbum “In Utero”.

No outro canto do ringue surge o Indie Rock, precisamente em reação contra essa hipermasculinização do punk e do hardcore. É este caldo do Indie Rock que eventualmente será empacotado sobre a etiqueta “Grunge” e vendido às massas pré-internet.

No polo Inglês da cultura pop há uma progressão semelhante. O punk inglês sempre foi mais popularucho, e enfim, pop. No início dos anos 80 há três vertentes importantes para além da New Wave. Sem ordem particular começamos pelo Oi! e pelo Streetpunk, caracterizado pelo encontro do Punk com aspectos particulares da cultura operária Britânica. Dividida entre a esquerda e a extrema-direita seria a partir de aqui que se tornariam conhecidos os infames Skinheads.

Ao mesmo tempo surge com bastante vigor a cena “Gótica”. Mas poupamos os leitores a exemplos e propomos pelo contrário os impecáveis 39 clocks da Alemanha.

Surgem as leituras mais extremas do punk, marcadas essencialmente pelo Anarcho-Punk dos Crass e da sua editora, pelo emergente Crust dos Amebix e dos Nausea e pelo chamado UK82, que reunia o D-Beat dos Discharge e a palhaçada que sempre foram os Exploited. O melhor álbum da época será o Death Church dos Rudimentary Peni, que só por si salvaria já a década.

Num outro manancial tão rico que qualquer descrição breve é já insultuosa surge a chamada música “industrial” que tanto vem influenciar a corrente moda dos Drones como a música de dança dos infames Human League que o paleoesquerdismo nacional tanto odeia.

Num processo semelhante ao do Indie Rock nos States surge o Indie Pop. Dispensa apresentações, todos conhecem os Smiths e os New order (que pasme-se, também usam sintetizadores). Para além destas expressões mais conhecidas há inúmeras outras, menos imediatamente digeríveis, que vão da carreira tardia dos Wire ao yellow pop dos Young Marble Giants

Surgem obviamente interpretações locais do Punk adaptadas às realidades locais e nacionais. Em Itália os CCCP compõe uma obra magistral a partir da herança do PCI, em Espanha o rock independentista basco cria escola com os Kortatu, na Escandinávia reinventam o d-beat e em Portugal aparecem os Xutos, sobre os quais não poderíamos deixar de recomendar entusiasticamente o artigo de Fernando Ramalho

É também nos anos 80 que começa a ser feita uma história do rock que recupera as gemas perdidas das décadas passadas. De ressalvar a série de compilações Nuggets e Killed by Death. Hoje começam a surgir compilações semelhantes a partir das jóias dos anos 80. A Sacred Bones acabou de lançar o mui recomendável Killed By Death Rock.

Ficamos por aqui deixando de lado todas as fontes inesgotáveis de maravilhas do Hip Hop e do Funk e os guilty pleasures do metal para além da nascente música de dança nas fábricas abandonadas de Detroit. Os exemplos aqui deixados não pretendem apresentar excepções à regra nem apresentar epifenómenos pontuais. Os anos 80 são uma década em que incessantemente se produz boa música numa continuidade de influências e discursos estéticos que só volta a encontrar paralelos nos anos mais recentes.

Fechamos então esta viagem pela década em chave de ouro, com David Bowie e o seu hit de 1983 “China Girl”, onde o Camaleão se apaixona por uma cândida moça chinesa que veio de Pequim para gentrificar o seu bairro tradicional, não se sabe bem como é que isso acontece, mas é uma tese habitualmente defendida com o argumento de “tipo porque coiso, seus pós-modernos”. O Inglês, apesar de já não conseguir comprar queijos tradicionais por culpa da asiática, encontra nela algo bem melhor: o amor.

One thought on “A música dos anos 80 e o eclipse das formas clássicas do movimento operário

  1. Belo e trabalhado ensaio. Ainda assim continuo pouco convencido de que apesar do que houve de bom nos 80 – que nunca questionei – haja outra década pior. Isso, apesar da confirmação do bom, fica por confirmar, ainda que reconheça que uma lista do worst top dos 90 tenha gabarito para enfrentar a minha teoria.

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