Elogio do excesso (IV): LIBERTA O TEU PIROPO!

ou: Era mesmo necessário também o Bloco contribuir, com a sua patetice, para fazer do espaço público um deserto de relações humanas?

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A questão da dominação masculina deve ser considerada, hoje como sempre, um assunto da máxima urgência – que aliás já procurei, sem grande sucesso, trazer a debate nesta tasca, particularmente aqui. Porque vivemos numa sociedade onde a dominação masculina está de tal modo enraizada na mentalidade dominante, quem a combate fica geralmente a milhas das suas raízes. Um sinal deste enraizamento profundo: a constante repetição de casos em que mulheres, num quadro geral de conivência com o poder masculino, servem de saco de pancada e de alvo de humilhações para a fúria de homens potencialmente assassinos, sem que elas sejam capazes de denunciar esses maus tratos, seja por falta de motivação individual, seja por falta de protecção institucional. E um sinal de que quem combate a dominação masculina fica geralmente longe das suas raízes: ao pretender criminalizar o piropo, o Bloco de Esquerda escolhe assim um mero sintoma da dominação masculina para procurar abrir fendas no chão, firme e robusto, onde prolifera a dominação masculina.

Desde logo um ponto elementar mas necessário nesta discussão: o piropo, ao contrário do que defendem algumas feministas do Bloco, não é uma invenção da dominação masculina. Alguns piropos (abjectos) são, sem dúvida, sintomas de dominação masculina – tal como a maioria dos anúncios, muita literatura infantil, muito cinema, muita música (pimba e não pimba), muitas revistas do quiosque… Mas não existem só piropos abjectos (nem sequer estes são uma maioria) que pretendem fazer vergar a mulher à fúria dominadora do homem.

Não estando necessariamente vinculada ao exercício da dominação masculina, a maioria de piropos exprime no plano da vida pública – e assim questiona porque terá o espaço público de ser um deserto de relações humanas – algo que está habitualmente blindado na redoma da esfera privada.

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O que ela exprime, exactamente, é uma diversidade de formas espontâneas de responder a um qualquer estímulo erótico, geralmente feminino, enquanto vontade de estabelecer precariamente contactos, ligações, relações (sexuais ou amorosas). Existem piropos que verbalizam essa vontade (de romance), outros que a manifestam por simples gestos ou olhares. O piropo é tão antigo como a faculdade do homem para comunicar. Talvez a comunicação humana (verbal ou gestual) mais antiga tenha mesmo sido… um piropo. (Um crime?!)

O que é comum a todos os piropos é uma mesma busca (espontânea, precária, superficial) do contacto, o qual, na contemporaneidade, está habitualmente banido do espaço público (se exceptuarmos, claro, a ‘noite’, esse último reduto público das relações espontâneas). Já vi um piropo acabar com um apalpanço mútuo de genitais em plena rua. Haverá algo mais excitante do que isto (dois desconhecidos apalpando mutuamente os genitais na rua)? Nesta sociedade sobre-policiada há claramente falta de excessos e de aventuras. E de piropos que desencadeiem essas aventuras. Onde está a excitação na carruagem do metro ou nas ruas das cidades, espaços mortos que se atravessam (de casa para o trabalho, do trabalho para o ginásio, do ginásio para o Pingo Doce…) mas que não se vivem, onde já ninguém se toca, onde os desconhecidos se ignoram e atropelam?

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Por outro lado, poderia igualmente questionar-se: se quisermos erradicar o piropo abjecto da sociedade, aquele que procura reduzir a liberdade da mulher ao torná-la dependente do desejo masculino, a melhor forma de fazê-lo será a de criminalizá-lo, policiá-lo, persegui-lo com o fantasma dos tribunais e das prisões? Nesse caso não teríamos igualmente de criminalizar mais de 90% dos videoclips ou das séries infantis que passam na televisão, mas também as missas, a música pimba, o programa do Partido da Terra, enfim, todos os inumeráveis campos culturais que, tal como o piropo, são particularmente férteis para a manifestação da dominação masculina? Teríamos sem dúvida de criminalizar metade do país, já que o patriarcado é um dos pilares da sua moralidade, dos seus (árabes e católicos) costumes. Em vez de lutarmos pela transformação profunda de mentalidades (e as mentalidades não se transformam por decreto), atacando assim as raízes de uma estrutura social tão arcaica como é o patriarcado, estaríamos meramente a reprimir alguns dos seus sintomas, os quais logicamente iriam passar a manifestar-se em (ao transferirem-se para) outros campos da cultura e da sociedade.

Considero por isso que a proposta de penalizar o piropo resulta menos de uma crítica consistente à dominação masculina (dominação que, repito, está obviamente presente nalguns piropos, abjectos e agressivos, sendo porém apenas, e pontualmente, uma entre múltiplas dimensões que neles se entrecruzam) do que de uma patetice irreflectida que não contribui senão para acentuar a atomização desta sociedade, fragmentada numa profusão de nano-nichos individuais (ligados menos a outras pessoas do que a tecnologias: o automóvel, gadgets variados, internet, aparelhos de masturbação, etc.), no interior dos quais cada indivíduo se refugia em busca do calor (do amor, da paixão, do sexo) que deixou de saber procurar no espaço público, doravante gélido, inóspito, desértico. Cada vez mais afastados uns dos outros, atomizados e perdidos na sua facebookiana solidão, os indivíduos evitam progressivamente no espaço público todo o tipo de contacto, o qual consideram excessivamente intrusivo. Evitam assim tudo o que possa conduzir a relacionar-se com (e a apaixonar-se por) desconhecidos.

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Se repararem bem, um traço que distingue perfeitamente a classe média (classe modelo desta sociedade) das classes ditas ‘populares’ é a sua discrição. No interior de um prédio ou de um restaurante de classe média, as diferentes pessoas estão devidamente instruídas sobre como manter as suas conversas num tom que jamais possa perturbar os desconhecidos. E, se não o fizerem, não tardarão a surgir os ‘ofendidos’ por tamanho descuido. Ora, se o simples ‘falar alto’ é já considerado um ‘pequeno crime’ segundo os cânones morais da classe média (leia-se: segundo os cânones morais desta sociedade) submersa nas suas invioláveis e sagradas bolhas, o excesso imoral do piropo só poderia ser considerado um crime imperdoável – pelo que o projecto punitivo do Bloco de Esquerda está (ideo)logicamente sintonizado com as aspirações da classe média.

Dada esta rejeição generalizada do contacto, da intromissão, das relações, dos romances, cada vez mais gente opta, literalmente, por foder com gadgets. Não será uma consequência lógica? Slavoj Zizek apresenta-nos no seu último livro um gadget particularmente bem sucedido: “hoje, encontramos no mercado o chamado ‘Stamina Training Unit’, um instrumento de masturbação semelhante a uma lanterna (para não causar constrangimento quando transportado):  coloca-se o pénis erecto no orifício situado na ponta do objecto e ele é movimentado para cima e para baixo até que se atinja a satisfação… O produto é encontrado em diferentes cores, ajustes e formas, imitando as três aberturas para penetração sexual (boca, vagina e ânus). O que se compra, neste caso, é simplesmente o objecto parcial (zona erógena) sozinho, desprovido do fardo adicional e constrangedor da pessoa como um todo.”

Não é um traço estrutural de todos os fascismos a destruição radical dos laços que ligam livremente as pessoas? Ora, a criminalização do piropo, ao penalizar uma forma específica de comunicação/relação no espaço público, avança claramente nesse sentido: destruir mais um laço, ainda que precário e espontâneo, que nos liga livremente uns aos outros. O fascismo neoliberal sai uma vez mais reforçado, com a sua lógica de atomização social, de separação radical dos indivíduos, de proibir tudo o que na vida humana possa transcender as esferas do trabalho e do consumo – ou seja, transcender a mera multiplicação de capital.

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Que seja o Bloco de Esquerda a guiar-nos nesta árida travessia pelo deserto da negação da vida tem o seu quê de cómico, mas tem também, indubitavelmente, algo de trágico.


Fotos de Michael Wolf, da colecção ‘Tokyo Compression’ 

About PDuarte

Historiador, jardineiro, horticultor. Vive na província. No tempo vago, que procura multiplicar de dia para dia, perde-se em viagens, algumas pelos montes em redor, outras pelos livros que sempre o acompanham. Prefere o vinho à blogosfera, a blogosfera ao Parlamento.

34 thoughts on “Elogio do excesso (IV): LIBERTA O TEU PIROPO!

    1. O piropo não é um tesouro meramente português. Os italianos, esses “grandes tarados” (como dirão as feministas do Bloco), são conhecidos por terem uma cultura do piropo particularmente desenvolvida. Em Cuba, outro paraíso dos tarados e dos piropos, é frequente ouvir os homens dizerem às mulheres que passam na rua “Camina!”, manifestando-lhes assim esse seu gosto tarado em verem o balanço dos seus corpos semi-despidos, simplesmente caminhando pela rua. Já os japoneses, segundo consta, inventaram um adjectivo (Bakku-shan) – que muito jeito daria aos cubanos – para valorizar o corpo feminino apenas quando visto de costas.

  1. Cheio de equívocos. cheio de patetice, cheio de maus argumentos (n se combatem os sintomas combatem-se as causas, que argumento é este? então as vítimas de tratamento desigual, de violência doméstica, etc etc, tudo sintomas… devem esperar a revolução enquanto não se tornam iguais? mas o argumento ainda consegue avançar pior – demagogia grosseira – se combatermos este sintoma o machismo ao bater aqui vai virar-se para outro lado de forma pior). Depois quando se cavalga a onda da demagogia isso nunca mais pára, o BE defensor da burguesia porque a burguesia não faz barulho…e mais, o fascismo. Os laços que ligam livremente as pessoas não são o assedio sexual lamento informá-lo. Não confunda piropos, trocas de palavras entre pessoas livres e iguais, consentidas com agressões verbais que visam humilhar e aviltar o outro, seja mulher, seja homem, seja quem for. Confundir isto logo de início não é honesto para começar qualquer discussão.

    1. Quando quiser “começar qualquer discussão”, avise, que estamos cá para isso. Na verdade, já dei o meu contributo… Lembre-se apenas de uma coisa, se quiser debater: seja honesto e leia atentamente o que os outros escreveram. De resto, plenamente de acordo com o seu ponto de vista: humilhar e aviltar o outro (numa palavra, dominar o outro) é um nojo intolerável que temos de contribuir para erradicar desta sociedade. Resta-nos pensar seriamente nos meios para tal e NAS SUAS CONSEQUÊNCIAS.

  2. Não entendo qual é o problema de atacar um problema pelos sintomas, nem como é que isso impede de o atacar pelas causas. E que tal atacar pelos dois lados? Se só é válido atacar as causas “reais”, “profundas” da dominação masculinas. enraizadas de milénio, mais vale esperar sentado… Quais são? O que é isso? Como se faz?
    Depois o piropo aos proponentes bloquistas como conjunto de burgueses, clássico do repertório da direita, acrescenta o quê à discussão?
    A proposta de lei impede pessoas de se seduzirem e apalparem mutuamente? A sério? Explique lá isso

    1. Atacar particularmente este problema pelos seus sintomas (onde o piropo abjecto é um sintoma entre inúmeros) parece-me sem dúvida inteligente: criminalizemos portanto “mais de 90% dos videoclips ou das séries infantis que passam na televisão, mas também as missas, a música pimba, o programa do Partido da Terra, enfim, todos os inumeráveis campos culturais que, tal como o piropo, são particularmente férteis para a manifestação da dominação masculina”. Criminalizemos todo o país! Como é que se atacam as causas profundas da dominação masculina? ORA AÍ ESTÁ A DISCUSSÃO RELEVANTE QUE O BLOCO NÃO QUIS FAZER.

      1. Ainda não explicou como esta proposta criminaliza encontros e aventuras entre pessoas que tenham tusa uma pela outra. Ela permite de facto que uma mulher (e não só) que se sinta ameaçada pelo que o PDuarte chama “piropos maus” possa usar a justiça para se defender, se quiser. Isso é mau?
        Também não vejo como é que daí se dá o salto para a criminalização das missas, da música pimba, do país todo e do universo. Faz lembrar os argumentos fundamentalistas de conservadores e liberais contra as quotas de paridade de género.
        Se o Bloco não atacou as causas profundas da dominação masculina, faça favor de dar a sua solução para esse grave problema que é bem vindo. Eu, como mulher que anda pelas ruas, não me importo nada se da próxima que um javardo se meter comigo repetidamente lhe puder responder que vou chamar a polícia. Acredite, para mim faz mais diferença no dia-a-dia que atacar as causa profundas da dominação masculina, seja lá isso o que for.

      2. Cara VH,

        O que na proposta do BE é preocupante (e patético, se pensarmos que se trata de um partido de esquerda), e que neste post me interessou particularmente, é que ela aponta no sentido da atomização social e isso é indiscutível. De resto, não mudo uma vírgula na minha conclusão: “Não é um traço estrutural de todos os fascismos a destruição radical dos laços que ligam livremente as pessoas? Ora, a criminalização do piropo, ao penalizar uma forma específica de comunicação/relação no espaço público, avança claramente nesse sentido: destruir mais um laço, ainda que precário e espontâneo, que nos liga livremente uns aos outros. O fascismo neoliberal sai uma vez mais reforçado, com a sua lógica de atomização social, de separação radical dos indivíduos, de proibir tudo o que na vida humana possa transcender as esferas do trabalho e do consumo – ou seja, transcender a mera multiplicação de capital.” Eu não escrevi que, com esta sua proposta, o Bloco contribui CONSCIENTEMENTE para a atomização social. Pouco me interessa a (in)consciência que o Bloco tem das suas propostas. O que eu afirmo é simplesmente que a proposta avança no sentido da atomização social, um tema que me preocupa tanto como a dominação masculina.

      3. PS – Acescento apenas que a sua argumentação serviria perfeitamente para acabar com todos os crimes de ordem “simbólica”, não material. Ameaça, coacção, incitamento ao ódio… a lista de restrições à liberdade absoluta de comunicação é longa. Longe de mim defender o Estado penal como panaceia para tudo, mas tamanha exaltação quanto se tenta pô-lo ao serviço das mulheres num problema concreto que enfrentam todos dias é desconcertante à luz das coisas que por aqui escreve. Enfim.

    2. Sintoma não tem aqui um sentido médico mas psicanalítico. Um sintoma não se trata directamente, não vale nada em si mesmo, senão como sinal de algo que lhe é subjacente. Tratá-lo directamente tem um nome – repressão. E todos já ouvimos falar do “retorno do reprimido”: normalmente aparece de forma inesperada e violenta.

      Como tratá-lo directamente não funciona, ele persiste e engendra novos sintomas, o resultado é esta fúria legisladora que, inutilmente, transforma a vida num inferno politicamente correcto.
      Por outro lado traduz uma tentativa de esconjurar o elemento mínimo de risco que qualquer relação propriamente humana comporta: não é possível eliminar uma e ficar com a outra.

      Claro que a objecção a isto é que não é possível viver sem leis e que qualquer lei tem, também, a função de limitar esse risco.
      A resposta a isto é política, é a escolha política: o que distingue, a um nível muito fundamental, a esquerda da direita é a(s) forma(s) de lidar com a relação risco/limite.

      Com esta esquerda não é preciso direita.

      1. Homem, se você acha tão convictamente que dar a uma mulher a hipótese de recorrer à justica por ser assedidada na rua (a hipótese, não quer dizer que a use, aliás só uma minoria a usará) leva INDISCUTIVELMENTE à atomização social, à separação radical dos indivíduos, ao FASCISMO, não vale a pena tentar convencê-lo de que isso é exorbitante.

      2. Cara VH,

        Bem sei que a minha conclusão é incómoda, e é-o apenas e só porque não diz nenhuma mentira, quando transporta todo este debate sobre o piropo e a proposta do BE para um campo novo, à luz do qual ele ganha uma nova leitura. Essa leitura é particularmente bem feita aqui no comentário de M.. É ler com atenção o que ele/a escreve e depois aqui estaremos para seguir este bate-papo.

        Saudações inobedientes

  3. Li com atenção o que escreveu. Ataca o BE por criminalizar uma coisa que o PDuarte entende por ser piropos quando o que está na proposta do BE não é isso. É isso que não e honesto para começar. N se sinta aviltado nem humilhado porque estamos a discutir ideias e não o seu corpo que, aliás desconheço e com o qual não faço fantasias (apesar de poder ser excitante fazê-lo porque é um verdadeiro desconhecido preocupado com a atomização social).

    1. Eis a proposta do BE: “Assédio sexual

      1. Quem, reiteradamente, propuser ou solicitar favores de natureza sexual, para si ou para terceiros, ou adotar comportamento de teor sexual indesejado, verbal ou não verbal, atentando contra a dignidade da pessoa humana, quer em razão do seu caráter degradante ou humilhante, quer da situação intimidante ou hostil dele resultante, é punido com pena de prisão até 3 anos, se pena mais grave não lhe couber por outra disposição legal.
      2. São puníveis, nos termos do número anterior, os comportamentos de conotação sexual, verbal ou não verbal, que, ainda que não reiterados, constituam uma grave forma de pressão com o fim real ou aparente de obter, para si ou para terceiros, ato de natureza sexual. (…)”

      O que está aqui exposto é susceptível de várias interpretações. Eu fiz a minha, provavelmente equivocada, com base neste antecedente (que aliás citei):

      Portanto, o/a CR, do alto da sua honestidade, quer-me dizer que “comportamentos de conotação sexual, verbal ou não verbal, que, ainda que não reiterados, constituam uma grave forma de pressão com o fim real ou aparente de obter, para si ou para terceiros, ato de natureza sexual” tem zero que ver com a discussão pateta que algumas feministas do Bloco levantaram sobre o piropo (e que culminou nesta proposta)?

      Quanto ao resto, dou-lhe o meu n° de telemóvel no próximo comentário para marcarmos um encontro secreto no 726, direcção Sapadores, numa qualquer hora de ponta (são as horas mais excitantes nos transportes públicos, não acha? cheias de átomos sociais à deriva pela rotina…). Isso queria o/a malandro/a do/a CR…

  4. Pduarte, os encontros de estranhos à deriva são determinados pela possibilidade da aleatoriedade. É isso a deriva, mas prometo não o desiludir caso nos encontremos na carris.
    Também fiz as minhas interpretações, ao contrário de si não considero esta discussão pateta, acho que pode ser estranha por ser inesperada e não vir ao encontro das narrativas sociais e individuais que somos e construímos. Quando lhe contavam a história do Capuchinho Vermelho em criança aposto que não se identificou, como todas as meninas, com a função “didáctica” que lhe subjaz e justifica a sua existência. É uma história milenar.
    Falar em sintomas, também aqui, não é só falar em sintomas. Sabemos que se tornam causas ao reproduzirem e multiplicarem situações. Podemos concordar em que o policiamento, ou a extrema legislação não é a cidade ideal ou o espaço comum ideal a encontrar. Mas também temos de concordar em que há um problema quando há mulheres que se sentem vítimas deste tipo de assédio nas ruas e que há outras pessoas, muitos homens até, que acham isso uma patetice, esse não é o problema, o problema do patriarcado está noutro lado, se se sentem vítimas o problema é vosso portanto. Um amigo dizia a propósito do video da americana em ny a caminhar durante 10 horas: “mas nem lhe disseram nada de especial, tirando uns dois gajos”. Naturalizar um comportamento chamando outros valores presumivelmente mais latos e altos (a liberdade de expressão, a espontaneidade da vida) lembra-me bastantes coisas. A discussão sobre se os índios teriam alma, o fim da escravatura, os direitos civis, os opositores usavam argumentos semelhantes. E também usavam o que o PDuarte usou: a antiguidade. Se o piropo é tão antigo como o homem não é pecado, é natural, não pode ser mau.

    1. Caro/a CR,

      Folgo em saber que, lentamente, começamos a concordar nalguma coisa: “o policiamento, ou a extrema legislação não é a cidade ideal ou o espaço comum ideal a encontrar”.

      Quanto aos sintomas, leia por favor o que M. escreveu acima:

      Um sintoma não se trata directamente, não vale nada em si mesmo, senão como sinal de algo que lhe é subjacente. Tratá-lo directamente tem um nome – repressão. E todos já ouvimos falar do “retorno do reprimido”: normalmente aparece de forma inesperada e violenta.

      Como tratá-lo directamente não funciona, ele persiste e engendra novos sintomas, o resultado é esta fúria legisladora que, inutilmente, transforma a vida num inferno politicamente correcto.
      Por outro lado traduz uma tentativa de esconjurar o elemento mínimo de risco que qualquer relação propriamente humana comporta: não é possível eliminar uma e ficar com a outra.

      Claro que a objecção a isto é que não é possível viver sem leis e que qualquer lei tem, também, a função de limitar esse risco.
      A resposta a isto é política, é a escolha política: o que distingue, a um nível muito fundamental, a esquerda da direita é a(s) forma(s) de lidar com a relação risco/limite.

      Com esta esquerda não é preciso direita.”

      E com isto, na minha humilde opinião, fica tudo ou quase tudo dito.

      Saudações do campo.

  5. Uma mulher ser assediada na rua é liberdade. É bom saber.
    Devias experimentar por um dia ser uma mulher para ver se gostavas de ser tratado no espaço público como um objecto que está constantemente a ser avaliado em voz alta como uma mercadoria num leilão. E talvez os relatos super sensuais que descreves não reflictam a vivência das mulheres com o assédio sexual. Se quiseres filosofia a sério sobre o controlo que exercido sobre os corpos vê isto e tenta aplicar ao piropo:

    PS: Assim como há dildos já existem fleshlights há muitos anos e é simplesmente um objecto para masturbação, as pessoas não vão todas deixar de querer fazer sexo por causa de um brinquedo sexual. Antes dos fleshlights industriais as pessoas usavam outras formas de replicar orifícios para se masturbarem como fruta ou outra coisa qualquer que lhes estivesse à mão, não é uma invenção ideológica que vai destruir as relações humanas. Não ligues a todas as tretas pseudo intelectuais do Zizek.
    PSS: Se desconstruir a forma como as mulheres são tratadas no espaço público e o controlo sobre os seus corpos é “feminismo do Bloco” estou à espera que me digas o que é então o feminismo.

    1. Caro André,

      Puxe por favor uma cadeira e sente-se numa mesa aqui da tasca que ainda esteja livre. Ali ao fundo parece-me ver uma. Agora beba um whisky duplo e relaxe… fica por conta da casa. Está melhor? Pronto, descontraia. Agora, experimente ler calmamente o que escrevi no post… Depois, se quiser, conversamos. Como sempre, o prazer será todo meu.

    1. Bela fuga para fora da tasca, c.r. (leia só, antes de sair, o que M. escreveu). Talvez nos voltemos a encontrar numa qualquer outra caixa de comentários… ou num autocarro da carris. Até breve!

  6. Tanto lado bom por onde atacar o paradigma repressivo, para quê apontar armas num dos poucos em que ele pode ter um uso progressista (como aliás se for usado para defender minorias étnicas, raciais, sexuais etc). Quando se questiona coisas como:

    – como é que isto impede encontros espontâneos e consentidos entre pessoas
    – como é que contribui para a atomização e separação das pessoas
    – qual é a incompatibilidade entre atacar sintomas e causas profundas do problema (essa separação não foi aqui explicada e é bem artificiosa e vaga, sintomas também viram causas)
    – como é que daqui a dominação se transfere em pior para outro lado (a criminalização da violência doméstica, outro grave sintoma da dominação masculina, levou a um retorno do oprimido aonde?)
    – formas alternativas de atacar as “causas profundas” da dominação masculina, e em que é que isto as impede

    o que se se ouve de volta é “leia bem o que escrevi, leia bem o que escrevi, leia bem o que escrevi”, ou então alusões condescendentes e marialvas a roçanso no 726. Já várias e vários leram bem o que escreveu, e as respostas não convencem. Havia de meditar nisso.

    1. Cara VH, agradeço a sua persistência. Sinceramente.

      1: “como é que isto impede encontros espontâneos e consentidos entre pessoas?”
      R: A legislação repressiva proposta pelo BE não impede que eu, sem querer violentá-la ou agredi-la ou limitar a sua liberdade de acção ou impor-lhe tiranicamente o meu desejo, gabe à VH (não leve a mal o exemplo) os seus lindos gestos/seios/brincos/dizeres (na carruagem apertada do metro, na sala monótona do trabalho, na passadeira transpirada do ginásio, no balcão ruidoso do café); ela anuncia-me simplesmente a imagem de dois destinos prováveis (dependendo da vontade ou do humor da VH): uma tarde muito bem passada no seu sofá ou uma tarde completamente perdida na esquadra mais próxima. Doravante, deverei educadamente pedir-lhe licença antes de lisonjear os seus elegantes gestos ou as suas roupas provocadoras e os tesouros que elas escondem: “permite-me por favor que lhe exprima a minha mais sincera opinião sobre a elegância dessa sua t-shirt semi-transparente da Desigual?”. Uff, que canseira… Acho que prefiro encomendar um Stamina Training Unit e esquivar-me aos riscos (penais), mas também aos incómodos e às fadigas, do jogo da sedução policiado pelo Bloco de Esquerda.

      Há uma outra frase de Zizek que ganha aqui ainda mais sentido: “Porquê expormo-nos ao esforço da sedução com todas as suas situações potencialmente embaraçosas?”

      2: “como é que contribui para a atomização e separação das pessoas?”
      R: Limitar a comunicação espontânea (policiá-la à luz de um novo moralismo repressivo, o qual, desta vez, veste a capa simpática e inatacável do feminismo e da defesa da liberdade feminina) no espaço público contribui para nos envolvermos com cada vez mais pessoas. O número de engates nos transportes da Carris vai seguramente disparar. Está-se mesmo a ver…

      3: “qual é a incompatibilidade entre atacar sintomas e causas profundas do problema (essa separação não foi aqui explicada e é bem artificiosa e vaga, sintomas também viram causas)”?
      R: Tradicionalmente, enquanto a direita atacava sintomas (no caso da pobreza, encerrando os ladrões de mercearias e supermercados em Estabelecimentos Prisionais, e acabando assim com sintomas incómodos da pobreza, mas jamais com a pobreza propriamente dita; etc.), a esquerda atacava causas. Lá onde a direita policiava e reprimia a sociedade, a esquerda procurava transformá-la, num trabalho arriscado, difícil, demorado, (intelectualmente) exigente. Mas isto era antigamente…

      4: “como é que daqui a dominação se transfere em pior para outro lado (a criminalização da violência doméstica, outro grave sintoma da dominação masculina, levou a um retorno do oprimido aonde?)”?
      R: A dominação masculina infelizmente está JÁ em todo o lado, nesta sociedade, na qual, aliás, ela se sente comodamente em casa. Torna-se na verdade pouco relevante pensarmos para onde mais ela se iria transferir, se reprimíssemos os piropos.
      As feministas do Bloco descobriram a dominação masculina, em concentrado, no piropo; mas ela está, em concentrado, em todos os lugares que definem esta sociedade. TODOS! E, em primeiro lugar, ela está na organização e nos conteúdos do quarto de qualquer criança ou na sala de qualquer infantário, que estimulam as meninas à passividade e, consequentemente, à monotonia das tarefas repetitivas e socialmente desprezadas do lar (cozinhar, passar a ferro, cuidar dos bebés, arrumar a casa…) e os meninos à actividade e às tarefas (por vezes agressivas) mais ligadas ao espaço público e socialmente elogiadas (brincar com armas, guiar pequenos carrinhos, brincar às lutas, praticar brincadeiras envolvendo activamente o corpo e a força física). Aqui, começamos a descer às raízes do problema, e a perceber como se reproduzem eficazmente no quotidiano as terríveis ideias de que:
      – (A) é normal/natural a figura masculina ser activa e central; e a figura feminina ser passiva e marginal ou secundária e
      – (B) o espaço público é um território eminentemente masculino.
      Mas, para o feminismo preguiçoso, esta descida às catacumbas escuras e universalmente aceites do patriarcado significaria escavar demasiado fundo. A superfície é um lugar infinitamente mais cómodo para se mandar uns bitaites patetas, ridículos, ocos, mas muita fixes (apesar da suas perversas consequências – exactamente aquelas que o meu post retrata), sobre um assunto demasiado urgente, demasiado actual, demasiado injusto, para deixarmos nas mãos do feminismo preguiçoso (ao qual qualquer Fernanda Câncio se irá logicamente aliar).

      5- quais as “formas alternativas de atacar as “causas profundas” da dominação masculina, e em que é que isto as impede”?
      R: Iniciei a resposta à questão do ataque às causas profundas da dominação masculina na resposta anterior. Espero dar-lhe a necessária sequência em posts futuros até porque, no que toca a esta forma de dominação, esse é o único assunto que realmente me interessa. A questão do piropo ou não-piropo são peanuts.

      Vá passando.

      1. Há na sua argumentação uma tendência para a hipérbole e para a generalização apressada que até pode soar bem num blogue — às vezes — mas em tribunal ia passar um mau bocado.

        As respostas 1. e 2. ilustram-no bem: meras generalidades indemonstráveis. Se o macho latino se vai encher de pruridos e com ele o jovem tímido, se o número de engates na Carris vai colapsar, cada um acha o que quiser. Você ou dá argumentos sólidos ou se fica pelo achismo, que é o que faz.

        A resposta 4. foge à questão outra vez. Diz umas coisas sobre dominação masculina que subscrevo sem problemas, mas que pouco servem para ajuizar a proposta — e claro, não consegue demonstrar porque é que reprimir aqui vai dar retorno do oprimido e chatice noutro lado qualquer. Vai daí manda umas bocas às feministas do Bloco e à Fernanda Câncio sobre superficilalidade e feminismo preguiçoso. Eu não sei que não as conheço, mas pelo que vi elas percebem mais do que é a vida quotidiana de uma mulher hoje que o PDuarte. Veja aquele vídeo da rapariga a passear por Nova Iorque se estiver disposto a abrir-se a um olhar feminino. Fazia bem a si e aos seus posts futuros sobre o assunto.

        A resposta 3. é a única pertinente. A resposta penal e repressiva efectivamente é património mais da direita que da esquerda. Mas quando se trata de violentos machistas, racistas, fascistas, e outros istas do género, tenho poucos problemas com a repressão. É mesmo das poucas coisas em que a acho interessante, até excitante. O Zizek aliás, que você muita gosta de citar, tem igualmente poucos problemas quando se trata desses.

        Enfim, é surpreedente como até num blogue destes — esquerda, situacionista, anarquista, Ulrike Meinhof na capa — salta à tona um estilo de grunho machista. Você nem parece dar-se conta disso nas suas larachas sobre a Carris. Irrita-me tanto que ainda me faz aqui voltar, conversa já fria há muito. As mulheres deste blogue não fizeram esta polémica, só homens (você e o Menor, que não sei quem é mas vê-se que é homem). Revelador e matéria para pensar.

      2. Céus!!! A VH tira-me do sério! Dá mostras de descobrir machistas em tudo quanto é canto, até em quem acha que se deve atacar pela base o edifício do patriarcado…

        Digo mais: é justamente por pessoas como a VH que dá muito medo pensar na aprovação da proposta repressiva do Bloco. Se para si eu sou machista, imagine-se, por causa de umas “larachas” sobre engates na Carris (repito: umas “larachas”), não quero imaginar quantos machistas violentos não estiveram hoje na sua carruagem do metro só porque, sem o seu sagrado consentimento (sim, a proposta do Bloco vem sacralizar o consentimento feminino para ser-se… observada; não digo já ‘engatada’), fixaram o seu olhar mais de dois segundos nos seus olhos… Quando um moralismo digno dos mais fanáticos aiatolas (mas com a capa do feminismo e da liberdade) vira lei, reprimindo a livre construção de laços/relações/comunicações (e sim, simpatizo com o anarquismo, os situacionistas, a Ulrike), estamos a aproximar-nos de um perigoso abismo.

        De resto, e paradoxalmente, assinalo um princípio de abertura seu para validar o conteúdo do ponto 3, que é aquele que regista talvez a mais importante conclusão acerca daquilo que o meu post se propôs tratar e que M. registou assim num comentário atrás: “o resultado é esta fúria legisladora que, inutilmente, transforma a vida num inferno politicamente correcto. (…) o que distingue, a um nível muito fundamental, a esquerda da direita é a(s) forma(s) de lidar com a relação risco/limite.” Para eliminar os riscos de expressão machista no espaço público, a VH prefere que se imponham rigorosos limites às práticas nesse mesmo espaço. Mas agora vem finalmente reconhecer que assim se comporta como um agente policiador e repressor, tão típico das sociedades de direita. E eu aproveito para lançar-lhe o seguinte desafio: junte-se a quem quer defender a liberdade feminina no espaço público e as ruínas do patriarcado com os meios de uma sociedade de esquerda, onde a repressão e o policiamento das práticas (e todo o inferno para a vida quotidiana que eles inevitavelmente implicam e que o meu post procurou retratar) sejam meramente residuais, jamais centrais.

        Quanto às admiráveis mulheres deste blog (passe o piropo), não preciso de ficar à sua espera para debater sobre o que eu bem entender. E, apesar de você me considerar um machista, elas sabem bem que tão pouco devem ficar à minha espera para escreverem sobre o que lhes der na real gana. Ao contrário da sociedade ideal da VH, a micro-sociedade virtual deste blog dá-se muito bem com a experiência da liberdade, apesar dos seus inevitáveis riscos.

        Saudações anti-machistas e volte sempre (que, apesar de me tirar do sério, devo reconhecer que o modo como escreve, raciocina e argumenta está muito acima da média…)

      3. Pensava eu que tinha este debate ao fim de muita tinta esclarecido alguma coisa, para o ver afinal voltar ao moralismo de aiatolas e à repressão do engate, mal grado ele ter sido aqui desmontado e refutado ponto a ponto. Você não cede um milímetro, nem confrontado com a lógica.

        Acho bem que se considere feminista, acredito que o seja com sinceridade, mas nem por isso deixou de empregar uma retórica tipicamente machista nas suas larachas. Não é o único, não é o pior, mas se se reclama feminista detenha-se mais na forma como diz as coisas. Sei lá, peça à sua companheira, à sua mãe, às suas amigas para lerem as suas larachas e _ouça_ o que elas acham. Também não contesto o seu direito a falar do assunto, notei apenas que nenhuma das mulheres deste blogue se meteu nele, e isso também quer dizer qualquer coisa. A dominação masculina tem subtilezas imperceptíveis.

        Numa coisa estamos de acordo: a repressão não é bela. Você acha-a inaceitável por princípio, mas também não o vejo retirar a consequência lógica e insurgir-se contra a criminalização já existente de condutas violentas análogas (ameaça, coacção, incitamento ao ódio e outros crimes que limitam a liberdade de expressão seriam por essa lógica todos para abolir). Eu acho que, embora poucos, a repressão tens os seus usos interessantes, como aliás o seu Zizek, e este é um.

        Dou o que posso para uma sociedade onde as ruínas do patriarcado dispensem a repressão, mas até esse dia inteiro e limpo agradeço as armas que nos ajudem a caminhar até lá neste mundo sujo. Faz mais diferença no quotidiano que esperar por esse dia, e não atrasam o caminho até lá, apesar de você achar obstinadamente, sem demonstrar, que sim. De resto esta arma repressiva é residual como deseja, não se preocupe. Acha mesmo que as mulheres vão em massa a correr para as esquadras por dá cá aquela palha? Vá, tenha mais confiança no nosso juízo…

        Salut

  7. o autor esquece-se que antes de temer pela “liberdade” de relações no espaço público, há uma liberdade que nos é retirada: a de usofruto do espaço público! ignora também que, independentemente do conteúdo ou forma dos piropos, constituiem-se como uma forma de violência de género e portanto devendo estar prevista na lei.

    1. Credo, Tatiana! Isto de aterrar de pára-quedas numa discussão costuma dar péssimo resultado… Ponha-se por favor a par do debate em curso nesta caixa de comentários e depois opine, que é muito bem-vinda. Ou então ponha-se a milhas. Agora, isto de aterrar e largar logo um bitaite de chapa 5 sobre liberdade feminina no espaço público e outro sobre a violência de género que os piropos exercem, como se fossem dois grandes achados seus que “o autor esquece e ignora”, é que nem pensar!

  8. A única coisa que interessa notar a propósito desta proposta de lei é que participa da tendência (cada vez maior) da regulamentação e normalização da vida (pública e privada), o que não faz mais do que evacuar a política – exactamente como para os neoliberais as decisões políticas são substituídas por decisões (pseudo)técnicas.

    Não passa de ideologia politicamente correcta.

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