As contradições de Nuno Melo

Já existem poucos adjectivos para qualificar a direita parlamentar portuguesa. Desprovida da sua intelectualidade que, em alguns casos, até se confronta com os próprios partidos do seu espectro político; resta a mediocridade de ler um Henrique Raposo ou um Camilo Lourenço numa coluna de jornal. Manifestamente pouco para quem gosta do exercício de pensar. Alguns artigos destes até se assemelham mais a prestações de serviço do que propriamente a textos opinativos.

O cenário torna-se mais abjecto quando nos debruçamos sobre as reflexões dos representantes políticos. Ainda que a declaração de interesses venha no currículo – ou na falta deste -, a pouca objectividade e honestidade no momento da análise sugerem uma crítica a Lafargue, exercendo o direito à preguiça. Intelectual, neste caso.

O deputado europeu Nuno Melo resolveu mais uma vez brindar leitores com o seu anti-comunismo mais primitivo e básico. No seu texto mais recente, e receoso do fenómeno Podemos, o autor procura refugiar-se em episódios passados para justificar o perigo vermelho em tons de roxo no país vizinho. Talvez se esqueça que o Podemos limita-se a ocupar o nicho de social-democracia abandonada pela Terceira Via e descontentes com a Izquierda Unida para tão somente denunciar as ilegalidades do PP no exercício da austeridade, conseguindo até atrair eleitorado à direita. Se existem governos que procuram enfranquecer trabalhadores e criar desemprego para baixar salários, além de alimentar os mercados com sectores públicos e salvar a classe dominante – prefiro este conceito a casta -, nada mais resta que a desobediência para recuperar o que nunca deveria ter sido roubado. E Pablo Iglesias merece crédito por isso.

Mas o medo não pode justificar tamanha boçalidade como mecanismo de defesa. Falar do culto de personalidade da esquerda histórica para em seguida culpá-la pelas mortes da Guerra Civil espanhola é colocar a memória das vítimas do franquismo em xeque. Quererá Nuno Melo apagar episódios como Guernica ou simplesmente dizer que o revivalismo das ditaduras portuguesa e espanhola merece uma visão mais romântica? Fica latente uma outra admiração pelos respectivos líderes. Talvez diferente e mais doentia.

Sabemos também que umas palavras escritas por este senhor sem mencionar PCP ou Bloco de Esquerda, ou o socialismo (?) do PS, fariam qualquer um duvidar da sua autenticidade. E assim se pula da falange para a queda do Muro de Berlim. Percebo que não compreenda ou não queira compreender uma visão materialista dialéctica, dada a aflição que o atinge. Por isso só pedia que falasse dos efeitos da reestruturação económica a leste da cortina. Da miséria e da política predadora que o fim da URSS trouxe. NInguém aplaude a burocracia que se tinha apoderado do processo revolucionário, mas é preciso compreender que o imperialismo – sim, o imperialismo – aproveitou o descontentamento e a força de trabalho barata de socialistas, assim como as empresas a privatizar, para avançar com a sua própria agenda. Duvido que os trabalhadores pretendessem que o modelo em que viviam fosse convertido em mercado de abutres. Quem critica a oligarquia russa no poder tem de perceber a sua origem, Nuno.

Enfim, a Oeste nada de novo. A miséria filosófica da direita austeritária encerra as suas contradições. Fala de um socialismo antigo de pobreza para depois abrir champanhe por um processo que trouxe menos salários, menos saúde e educação mas mais desemprego. Fala de ilegalidades do partido Podemos quando aplaude o governo que mais atentou contra a Constituição da República Portuguesa. Porém, a mais interessante é: Nuno Melo acusa a esquerda de nostalgia quando ele é o crítico mais passadista das suas fileiras. De facto, a deturpação do passado pode ser um bom subterfúgio de um presente que não é muito animador para o PP espanhol, mas sobretudo para o PP português.

2 thoughts on “As contradições de Nuno Melo

  1. Apoiado!. Eu teria sido mais cáustico. Teria perguntado (ter-me-ia perguntado) se o Sr. deputado Nuno Melo, na sua lenta e custosa caminhada até às luzes da ribalta política, teve tempo para estudar, entre outros assuntos, a Guerra Civil de Espanha, aqui se incluindo a confrontação de algumas das muitas fontes em que o tema é pródigo.

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