A IDENTIDADE impura, todas as identidades são impuras – sobre o último livro de EDWARD SAID

Edward-Said-40771-1-402
Freud and the Non-European foi o último livro publicado em vida por Edward Said. Banido por grupos sionistas habituais e conhecidos, trata-se de uma conferência que não pôde ser lida no Instituto Freud de Viena e passou para o “exílio”, como o próprio Edward Said, e acolhimento do Museu Freud de Londres. Lida e publicada em 2003 (ano da morte do autor), fiz também e recensão deste texto para a madrilena “Exitbook” nº2.
Mostra aqui Said como a identidade judaica é não-judaica: Moisés e o monoteísmo nasceram no Egipto. É este o meu texto.

Said-Freud

Orientalism: Western Conceptions of the Orient, de 1978, é um dos livros mais divulgados de Edward Said. Neste ano das «Bodas de Prata» [2003] da sua publicação, a Universidade americana de Columbia, a que Said está ligado desde há muito, homenageia o professor com um evento especial (uma conferência alargada), no preciso momento em que Said publica um novo livro: Freud and the Non-European.

A obra de Edward W. Said é hoje lugar de paragem obrigatória em qualquer debate que na arte contemporânea comente a alteridade, a representação do Outro (de Gramsci a Terry Eagleton), os Estudos Culturais, os «Subaltern Studies», juntamente com os trabalhos de Homi Bhabha, Gayatry Spivak, Edouard Glissant ou Ramajit Guha (o «fundador» dos «Subaltern Studies»), mas Said é também um dos mais notáveis ensaístas do pós-guerra, com uma obra extensíssima de problematização, erudição e crítica, resistência e activismo político. Conheço poucos autores onde se detecte tão evidentemente uma ligação entre teoria e activismo, entre pensamento e prática e, já agora, entre livros, facetas e impacte de umas áreas de interesse noutras, através de uma minuciosa teia de autores, disciplinas e metodologias.

É flagrante a marca dos seus estudos sobre o orientalismo na sua definição de crítica (ver The World, the Text and the Critic, 1983), e deste labor teórico na sua realidade de resistente e exilado palestiniano (ver os artigos que desde há anos publica no jornal egípcio Al Ahram – que obrigatoriamente leio na edição inglesa on-line, ou os livros Blaming the Victims, Covering Islam, etc). É ainda verdadeiramente espantoso como tudo isto cirurgicamente se interliga com a sua definição de intelectual (Representations of the Intelectual, 1994) e com os seus importantíssimos estudos musicológicos (e uma vez mais quando estuda as relações entre a Aida de Verdi e a identidade cultural, está a retrabalhar a sua crítica ao orientalismo, entre muitos outros exemplos). Vejamos a relação entre intelectual e nação: para Said, o triunfo do nacionalismo nunca é um objectivo final, no que segue Frantz Fanon, Aimé Césaire ou Amílcar Cabral – sobre o terreno da nova nação, descolonizada e liberta, o intelectual tem de inventar novas identidades, novas «almas» ou personalidades, mostrando ainda e sempre que o sofrimento de um povo está para além dos limites desse povo. Cabe ao intelectual revelar consonâncias entre o sofrimento e a ocupação de um determinado povo estabelecendo paralelos com outras gentes, pois ninguém – por critérios nacionalistas – tem o «monopólio do sofrimento». Só a interacção e o mútuo conhecimento libertam. Seguindo o historiador Giovanni Vico e a tese de que os homens fazem a sua história, Said vai considerar o «orientalismo» como uma invenção do ocidente, e partir daí para uma defesa da crítica secular, como lhe chama, contra a crítica religiosa, esta povoada de lugares-comuns e de estereótipos como essa oportunista invenção «orientalista» (ver The World, the Text…., pp. 1-31 e pp. 290-292).

Neste contexto, qual é o fulcro deste Freud and the Non-European ? É a temática de sempre em Said: a crítica da imposição política de um espaço identitário uno e puro. Partindo do texto de Freud, Moisés e o Monoteísmo, Said vai desenvolver a tese do fundador da Psicanálise, de que Moisés era um egípcio, para atacar o fascismo identitário de Israel. Política esta fundada numa identidade segregativa e de legitimação fundamentalista religiosa (que oprime cerca de 2 milhões de árabes … «israelitas»), que explica o recalcamento deste texto de Freud no contexto da preferência do estado judaico por abrir uma fenda sem futuro entre judeus e árabes para alimentar uma guerra infinita sob o patrocínio da hiper-potência americana.

Moses.1

Sigmund Freud não é propriamente um pensador integrável no que hoje chamamos de estudos pós-coloniais, tal como outros representantes da sua geração, Thomas Mann, Romain Rolland ou Eric Auerbach também não o foram, e o seu tempo não era afectado por aquilo que hoje consideramos a «problemática do Outro». Ainda assim, o que sobressai dos textos freudianos sobre as culturas não-europeias é a inexistência (teórica ou outra) de um muro a separar os europeus dos restantes. Como falar então de Moisés e o Monoteísmo, um dos últimos ensaios de Freud? Said começa por considerá-lo em função daquilo que nos seus estudos de musicologia chama de «late style», ou seja, o «estilo derradeiro», que apreende em autores como Beethoven sobretudo: Beethoven conduz-se e conduz-nos à pura «estranheza» (nos últmos quartetos de cordas sabemos bem o que isso quer dizer), combinando processos compositivos arcaicos com soluções contrapontísticas avançadíssimas; por seu lado, Freud escreve talvez o seu único livro não didáctico nem pedagógico. Este facto leva Said a considerar que Freud, aqui, pretenderia algo mais do que uma simples «teorização».

Freud credita o Faraó Akhenaton como o inventor do monoteísmo, cruzando essa afirmação com a origem egípcia de Moisés. O facto de Freud desenhar em alto contraste a relação entre Moisés (fundador de um povo e seu outsider) e a comunidade que ele estabeleceu, serve a Said para considerar que toda a identidade histórica é compósita, o que no caso judaico é tanto mais evidente porquanto teremos de equacionar a morte do pai (Moisés assassinado) e a fuga do Egipto com acontecimentos anteriores, como os cultos a Jahve, partilhados por várias tribos de todo o Sul da Palestina. Assim, Said conclui, com Freud, que o recalcamento da ambiguidade de Moisés conduz em Israel a uma purificação identitária (que se serve não apenas de um exército destrutivo, como ainda de uma ciência como a arqueologia) que apenas sobrevive interditando aos outros a posse da sua identidade. Israel torna-se desta maneira a casa fechada dos judeus e, pelo contrário e em Freud, essa terra só poderia existir como casa aberta: porque a origem dos judeus é não-judaica.

akhenaton04
Akhenaton

2 thoughts on “A IDENTIDADE impura, todas as identidades são impuras – sobre o último livro de EDWARD SAID

  1. Apetecia-me fazer qualquer coisa com isto,quero dizer um grande momento Vidal,todas as identidades são impuras mas umas são mais impuras que outras da identidade roubada à identidade fragmentada essa mesmidade é altamente contraditória – a maior parte das identidades são mais camisa do que pele(Hobsbowm) desvelar o fio da identidade já vivida
    a da sua fundação em relação com uma realidade autêntica revivida – a crítica da imposição política de um espaço identitário uno e puro chamarei de identidade qualquer coisa que me preocupe mas também eu não tenho o monopólio do sofrimento.

Deixe o seu comentário.

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s