Expresso Espinosa – da Vidigueira para o Mundo

Quando andava a estudar uma dessas coisas que as pessoas estudam, encharcaram-me de Hobbes. Naquela coisa em concreto, Hobbes era mais do que seminal. Tanto assim foi que o paradigma povo > soberania > estado ressoava ao longo de toda a coisa durante todo o tempo que durou e a armadilha era tão eficaz que Rousseau era o mais fresco que poderia ser adquirido de qualquer lufada quando, na realidade – descobri mais tarde -, pouco mais era do que uma bufa benevolente no mesmo ambiente armadilhado. Uma contingência do medo ou uma expressão ancestral de uma vontade colectiva, a soberania delegada era total, irredutível e inelutável e pronto.

Anos mais tarde, através de uma das quatro trilogias fundamentais para a teoria política contemporânea [Star Wars – episódios 4, 5 e 6; Senhor dos Anéis; Matrix e Império/Multidão/Commonwealth], decidi que tinha de apanhar o Expresso Espinosa que partira da Vidigueira para o Mundo no século XVII e que eu tinha perdido completamente lá naquela coisa que eu estudara.

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Bom, e bastou, numa fase inicial, ler uma coisa tão breve e inacabada quanto o Tratado Político para me impressionar. “Multidão” sem transmutação em “povo”; “potência” prévia a “soberania” e sem incorporação total; “representação”, sim, mas naturalmente contingente e reversível; “liberdade absoluta” que impede, em todos os casos, o “poder absoluto”; “sujeitos livres” como condição de poder político; um paradigma multidão > potência > afecto completamente “outro” em relação a povo > soberania > estado.

Mas isto não pretende ser uma aula sobre Espinosa (porque já as há, bastante mais competentes e completas, como, por exemplo, esta).

O que pretende ser é um desabafo ridículo. E porquê? Porque reencontrei o Expresso Espinosa estacionado, vazio, numa rua longe do centro.

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E não pude deixar de ficar confuso porque, quando foi a minha vez de apanhá-lo, ia cheio e parecia imparável com destino ao futuro no que supunha ser uma tendência crescente de 2011 a 2014 – e numa versão até bastante mais de prática política do que de “inconsequente” leitura intelectual. Ou seja, primavera árabe, indignados, occupy, passe livre… Parecia que todos tinham apanhado o autocarro e, afinal, ei-lo aqui, abandonado fora da coroa central de Lisboa.

Depois, há duas hipóteses: a desolação ou a esperança no devir (assumo já aqui que as minhas crónicas dominicais referirão, sempre que possível, esta coisa do “devir”, que, para a esquerda, é a meta-narrativa substitutiva da do “progresso”, e que nos fode a felicidade do “agora” como cantava o Zé Mário Branco). A esperança é a hipótese do Espinosa (é o que move a multidão livre, que cultiva a vida, em vez do medo – e desolação -, que move a multidão subjugada*) e de discípulos e influenciados contemporâneos – ora topem lá este menino, por exemplo. Mas esta coisa do Expresso Espinosa deixou-me mesmo desolado, caralho (marca registada, Análise Social).

* Veja-se ESPINOSA, Tratado Político. Lisboa: Temas e Debates, 2011, pág. 113.

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