Cartas do vale #9

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Elas vinham em grupo. Caminhavam pelas ruas da cidade com grande alarido e em bando. Elas, vistas de longe, não passavam de uma mancha colorida, barulhenta e alegre. Era dia de ver o Outono, que se podia ver do local para onde se encaminhavam como em nenhum outro lugar do mundo. Elas dançavam a rir, a cantar e a aspergir desejos a quem passava. Elas cheiravam a flores e iluminavam de abundância com o seu olhar ardente as coisas em volta. Usavam decotes largos que mimavam como os camponeses mimam as abóboras e outras coisas da terra belos seios nus, era o que elas traziam ao peito, para além das últimas flores do ano. Elas muito, como em tudo que faziam, seguiam em festa.
Eu tinha saído de casa para mandar pôr meias solas nuns sapatos estafados na esperança que o restauro trouxesse aos pés outra alma mais viva. Nesse instante cruzei a minha distracção com as raparigas cantantes. Desataram na minha presença a falar alto para que as ouvisse falar. Falavam por falar, foi o que elas fizeram, sem que se perdesse a harmonia que o riso tem. Rodearam-me e envolveram-me numa espécie de dança que se não pode recusar. E assim dancei até perder os meus sapatos e o saco que os transportava. Perdi-me na pele das canções que elas cantavam. Fui levado pelas raparigas que me puseram flores no cabelo, que me perfumaram a carne com cheiros doces de canelas e madeiras exóticas, que me contaram coisas da sua intimidade que me fizeram sorrir. Uma delas, a que vinha à frente do grupo, uma que era mais roliça de entre todas as outras raparigas e que tinha um sinal de nascença no peito, sabia-o eu ser filha de Górgias, o ser mítico do lago. Nascida primogénita de uma unha do seu pé, sob o auspício de um tempo morno, ela era a rapariga-mulher que um dia seria a mulher-crisálida. E eu conhecia bem esta rapariga de a ver passar à porta da minha casa, fazendo-me acenos de felicidade que faziam chover no meu quintal enquanto eu preparava o café da manhã à janela da cozinha.
O Górgias nasceu do ar leve da cidade e teve muitas filhas desde que mora com a Madresssilva e as doze mulheres na Pensão “Vigo no Porto”. As raparigas eram filhas de Górgias e dessas mulheres. Entre essas mulheres especiais, a mulher-cabeça-de-veado, a mulher-lagarto, a mulher-cabeça-de-cristal, a mulher-ouro-azul, a Madressilva, a mulher-rosa-flor e a mulher-borboleta foram as que mais filhas deram a Górgias. A casa grande que tem visto nascer todas as raparigas do mundo fica do outro lado da cidade, no extremo oposto à casa onde moro.
Górgias é filho da água e de uma especial tonalidade de verde. É feito de lamas férteis e terra vulgar. É filho da sombra e filho da luz. Foi moldado por um dos deuses menores que habitam o vale e que acabou em desgraça depois da obra feita. Antes de partir para a gruta dos esquecidos, Estúrnidas, o menor dos deuses, depositou-o no jardim dos Lázaros nas pedras do lago, mesmo no centro da cidade que é o centro umbilical do mundo. Foi então recolhido pela Madressilva e pelas doze mulheres que o levaram para o local onde ainda hoje vive.
As raparigas do mundo são todas filhas do Górgias, da Madressilva e das doze mulheres que vivem na pensão “Vigo no Porto”. E isto é tudo aquilo que sei sobre dias barulhentos e finais felizes.

About JMGervásio

Sou pessoa alta, magra por criação, amante de velocípedes e de quase tudo que implique não fazer à segunda - quero dizer, sou do tipo espontâneo. Licenciado em altos estudos artísticos na ESBAP, tenho, desde lá, desenvolvido uma certa tendência para o comércio a retalho e agricultura de terraço. Possuo momentos de grande felicidade e civilidade que nem sempre são devidamente apreciados.

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