Porque Podemos?

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Além da crónica certeira do Nuno Ramos de Almeida, onde afirma, coberto de razão, que “o problema dos partidos como o BE e o PCP não é estarem indisponíveis para patrocinar os governos da ala de centro-esquerda do bloco central, é terem sido incapazes de transformar uma maioria social contra estas políticas numa maioria política. Aliás, o que as pessoas exigem às forças políticas é uma ruptura com aquilo que existe, não que se proponham comer à mesa do sistema. O drama surge quando as alegadas novas alternativas têm como alfa e ómega da sua política o desejo de se aliarem ao partido do próximo governo, independentemente de tudo o resto”, vale a pena ler a entrevista que Juan Carlos Monedero deu ao JN, onde esclarece algumas das críticas que são dirigidas ao Podemos e explica, com precisão, que a razão do sucesso do Podemos, passa pela compreensão não só do papel dos partidos da casta mas também que “que os partidos de direita são de direita, mas é mentira que os partidos de esquerda sejam de esquerda.”

José Luis Seixas
Excerto da crónica de José Luís Seixas, Destak, 05.11.14

Depois da banca no Estado Espanhol e de algumas figuras em Portugal já terem mostrado o quanto lhes tremem as pernas com o aparecimento de fenómenos deste género (ouça-se, por exemplo, a Manuela Moura Guedes) vale a pena mergulhar no medo de outro dos que tremelica, José Luís Seixas, que não deixa no entanto de sintetizar, ainda que tomado pelo pânico, as razões pelas quais todos os Podemos têm condições para partir de vez partidocracia vigente.

Não é, naturalmente, nem se apresenta como tal, como mais um partido da panaceia revolucionária. Quem ainda, e bem, se mantém nesse campo sabe que as revoluções aparecem nos becos sem saída e não vão chegar nem pelas urnas de voto nem pela dita democracia representativa. Essa deve continuar a ser conspirada na sombra, nos subterrâneos, e deve fazer um caminho absolutamente de costas para o circo eleitoral da burguesia. As possibilidades que o Podemos abre, em Espanha ou onde quer que surja, são outras, e prendem-se com objectivos que, a prazo, muito contribuem para a instalação fecunda da desordem. Além de se constituir como uma saída realmente útil para o voto – deixou de haver onde o deixar com o mínimo de esperança – abre brechas sem as quais o poder popular dificilmente conseguirá sair da marginalidade. Enquanto a esquerda grita que é de esquerda sem que isso se perceba nos seus programas, o Podemos apresenta um conjunto de propostas que, a serem aplicadas, cumprem bem o papel que qualquer programa de transição deve ambicionar. Os bolcheviques sabem bem, ou deviam saber, que não há revolução de Outubro sem a revolução de Fevereiro, que de uma a outra bastou aos sovietes gritar por paz e pão, e que a reinterpretação do leninismo passa mais pela inteligência táctica do Podemos do que pelo dogmatismo da esquerda arqueológica ou pelo oportunismo da esquerda democrática.

No próximo Domingo continuaremos a ver o que Podemos por cá. Participa! 

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10 thoughts on “Porque Podemos?

  1. (…) que a reinterpretação do leninismo passa mais pela inteligência táctica do Podemos do que pelo dogmatismo da esquerda arqueológica ou pelo oportunismo da esquerda democrática.” Sem dúvida.

    1. Exactamente. De nada tem servido encher a boca de socialismo se depois não sobra nenhum socialismo além das fronteiras da palavra. Pode ser que, invertendo a ordem dos factores, a coisa mude.

  2. As maiorias sociais transformam-se em maiorias politicas através do voto!
    Ou não vivemos em democracia?
    Agora que não há eleições o PODEMOS é o maior!Mas será no dia do voto?
    Não falem à toa!!!!!!!!!!!!

  3. Gostei de ver o Nuno R. Almenida (NRA )dizer que “o problema dos partidos como o BE e o PCP (…) é terem sido incapazes de transformar uma maioria social contra estas políticas numa maioria política (…n)uma ruptura com aquilo que existe [em vez de se proporem] comer à mesa do sistema.” [desculpem a síntese, mas ao contrário do NRA – certamente uma excelente pessoa – tenho a mania parva de preferir a clareza ao estilo pseudo-rigoroso mas na verdade confuso q.b. que se pratica em Portugal].
    ;)
    Agora, recentrando: o NRA creio que foi um dos líderes do QSLT, supostamente o mais parecido com os Indignados espanhóis que temos por cá.

    Acho que não foram só o PCP, o BE e os outros partidos da área que “não foram capazes”. A malta que esteve à frente do QSLT também.
    E isto não é bota abaixismo, tomara eu estar enganado.

    Há duas provas – além da desmobilização em que deixaram cair o movimento – de que não perceberam.

    A primeira é que não se mostram capazes de propor nada de mobilizador e polarizador dessas hostes de descontentes.

    A segunda é julgarem que um PODEMOS à espanhola é a solução.

    Sabem, eu conheço mal o Podemos, apesar de pelo menos me ter dado ao trabalho de dialogar e de conhecer militantes do mesmo, sem mediações distorcedoras.

    Mas parece-me que uma coisa é óbvia: a base social do Podemos lá, é idêntica à do QSLT e do 15Out de cá. E provavelmente idêntica (com algumas nuances locais) à das “primaveras” brasileira e venezuelana.

    Depois de conhecer todas elas no terreno, fica-se a perceber melhor porque estes movimentos têm tido poucas bases para andar, ainda que possam fazer uns fogachos.

    Trata-se de pessoas mais ou mens revoltadas, mas com muito pouca política na cabeça, notoriamente impreparadas, tão depressa capazes de apoiar radicalismos de esquerda como de direita.

    Mas que este meu comentário não releve a favor de linhas políticas fósseis nos partidos do costume.

    Talvez o que seja necessário é começar a construir algo novo, mas com princípio meio e fim – por exemplo, uma grande frente assumidamente política – e, já agora, com um programa e principios ontológicos muito claros, como rejeitar o racismo e a xenofobia, e apontar a vampirização do mundo pelos monopólios e cartéis capitalistas como um dos pilares da destruição levada a cabo nas nossas sociedades.

    Que tal?

  4. Ah… e já agora, para não virem dizer que isso é mais ou menos o que o Podemos propõe, a diferença é que eu acredito que seja necessária uma vanguarda.
    Eh pah, que chato…! Pois é, não está na moda, é muito mais giro a coisa com um ar anarquistazinho, dá aquele toque de liberdade que convém a quem foi educado na pura estupidificação política que é a que este sistema ofereceu hora após, hora, dia após dia, mês após mês, ano após ano à malta toda, principalmente aquela na casa dos 20s, 30s e 40s que nunca lutou por nada e agora anda nas manifs.
    Só uma pergunta: conhecem alguma coisa que funcione sem uma direção rigorosa como o caraças? R: NÃO (assim, claramente, preto no branco).
    Então deixemo-nos de merdas. Direção haverá sempre, existem é duas alternativas: ou ser disfarçada, ou ser às claras.
    Eu prefiro, exijo, que seja às claras. E vocês, se pensarem bem, também, estou certo.

    Agora, movimentos como o Podemos o que é que propõem? Provavelmente uma difusa direção democrática, escolhida por difusos movimentos de cidadãos com muito pouca política na cabeça (como expliquei atrás).
    Mas já cá tivemos disso, alguns é que já não se lembram: o “movimento” da Helena Roseta, por exemplo.
    É isso: figuras mediáticas, que se impõem à massa meio acrítica de fãs, sempre com o rabinho a-dar-a-dar.
    Viram no que resultou, não viram? Se quiserem um desenho para se perceber melhor, posso fazer.
    ;)

    1. O teu problema é que não sabes quando é que deves parar de atirar postas… Podias ter ficado quieto a seguir ao 1º comentário.
      Nada de mais e a coisa ficava por ali…
      Mas tiveste que fazer o 2º onde revelaste o que realmente vales.

      Então presta atenção ó seu vanguardista arrogante, politicamente superior aos demais mencionados:
      – Muitos que estão na casa dos 20s, 30s e 40s, provavelmente lutaram muito mais do que tu pela vida fora.
      – Enfia a tua vanguardice e a tua crença de que é preciso uma ‘direção’ onde te der mais conforto em ti próprio.
      – Espertalhaços é o que não falta por aí a mandar bitaites fatelas.
      – Aprende a sair de cena em quanto é tempo.

  5. Simplesmente não respondo a anónimos que, como de costume, não possuem um único argumento e se limitam à arruaça.
    Quando é que em Portugal as pessoas aprendem a ser frontais e a não se esconderem atrás do anonimato? Aliás, quem o faz, pelo menos fica conhecido por quem tem os meios para entrar e sair das nossas contas como quer, ou seja CIAs, SIS, etc., o que deve dar imensa vantagem… Também, para quem é bacalhau basta.

    Aos demais leitores, e depois de reler calmamente os meus comentários anteriores, feitos um pouco no impulso do momento, queria só explicar que a liberdade de linguagem que usei não deve ser interpretada como arrogância mas tão somente como linguagem coloquial, que supostamente serviria para incentivar o diálogo.
    A ideia era também ver se nos habitamos a ser menos sisudos e mais soltos em tudo, desde as ideias políticas à própria linguagem.
    O que, para mim, não se confunde com as anarqueiradas dalgum pessoal que acha que a revolução é uma espécie de festarola, ou então em algo que termina em mais um governo PS ou outro partido qualquer dos do costume.

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