Em defesa de José António Saraiva

Self-Control

Saio em defesa do JAS por um conjunto variado de razões, todas desprendidas da figura, que naturalmente abjuro. JAS é um saco de ar como muitos sacos que proliferam nas redacções dos meios de comunicação, sobretudo ao nível das directorias. Nunca li nada dele que me sugerisse uma letra sequer, porque me habituei a não apresentar oposição à indigência. Saio então em defesa do JAS não obstante tudo o que foi escrito sobre ele, aqui e aqui, esteja coberto de razão. Saio em defesa do JAS porque o mundo que ele descreve e saúda está longe de estar afogado no passado e manifesta-se de forma muitas vezes surpreendente, mesmo entre aqueles que, como eu, estão dispostos a mandar o JAS para o primeiro paredão revolucionário. Saio em defesa do JAS porque, mesmo furado da cabeça aos pés, a mentalidade que ele exprime sem nenhuma mestria está plasmada na moral mesmo daqueles que se arvoram em não ter a moral “deles” e porque, em cada esquina, se ouvem insuspeitas vozes a defender e a interpretar no quotidiano o saudosismo reaccionário do JAS.

blame“Vamos mandar o JAS para as trevas antes que o JAS traga as trevas até nós”, grita a turba, e eu, sem querer contrariar ninguém, atrevo-me a dizer que o obscurantismo do JAS ficará longe de acabar mesmo que acabe a sua triste figura. Olhem à volta. Vejam como é esmagadora a realidade. Como lida a sociedade, mesmo os seus pólos ditos progressivos, quando confrontados com a experiência concreta daquilo que JAS acha insuportável. Atentem para a torrente de moral que uma mulher enfrenta se cometer adultério. Observem o que acontece àquelas que, no seu pleno direito, usam o direito do divórcio. Não desviem o olhar das reacções da multidão, mesmo a que se acha esclarecida, quando uma mulher escolhe ter filhos de diferentes parceiros, quando privilegia a carreira ao lar, quando faz uso do seu livre arbítrio em todas as esferas da vida. Quem prestar atenção sairá como eu em defesa de JAS, porque encontrará em demasiadas pessoas um JAS dentro de cada uma delas. Que o debate sirva, claro, para ridicularizar quem já só devia ser ridículo e, sobretudo, estar só no ridículo. Mas que sirva também para que se perceba que o ridículo está ainda demasiado disseminado nos comportamentos da massa, mesmo aquela que, sem credo ou desejo de regressar ao século passado, insiste em não deixar para trás o que acabou.

banner

One thought on “Em defesa de José António Saraiva

Deixe o seu comentário.

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s