Duas passagens de Guy Debord e um poema de Sylvain Marechal ao José António Saraiva, ou como acrescenta o Menor, a todos os Zés Antónios Saraivas que proliferam por aí

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Começo de uma época

“A libertação dos costumes deu um grande passo. O movimento foi também a crítica, ainda parcialmente ilusória, da mercadoria (no seu inepto disfarce sociológico de «sociedade do consumo»), e foi já uma rejeição da arte, rejeição esta que ainda não se afirmara como negação histórica (embora na pobre fórmula abstracta de «imaginação ao poder» sem meios para pôr em prática este poder de tudo reinventar, e que, por falta de poder, mostrou falta de imaginação). O ódio afirmado em toda a parte pelos recuperadores ainda não possuía o saber teórico-prático de como eliminar os neo-artistas e neo-directores políticos os neo-espectadores do próprio movimento que os desmentia. Se a crítica em actos do espectáculo da não-vida não pôde chegar à sua superação revolucionária, foi porque a tendência «espontaneamente conselhista» do levantamento de Maio se mostrou desfasada em relação, a todos os meios concretos, entre os quais a consciência teórica e organizativa que hão-de permitir-lhe traduzir-se em poder, sendo ela o único poder.”

Excerto de “O começo duma época“, de Guy Debord.

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 Sociedade do Espectáculo

“Behind the glitter of the spectacle’s distractions, modern society lies in thrall to the global domination of a banalizing trend that also dominates it at each point where the most advanced forms of commodity consumption have seemingly broadened the panoply of roles and objects available to choose from. The vestiges of religion and of the family (still the chief mechanism for the passing on of class power), and thus too the vestiges of the moral repression that these institutions ensure, can now be seamlessly combined with the rhetorical advocacy of pleasure in this life. The life in question is after all produced solely as a form of pseudo-gratification which still embodies repression. A smug acceptance of what exists is likewise quite compatible with a purely spectacular rebelliousness, for the simple reason that dissatisfaction itself becomes a commodity as soon as the economics of affluence finds a way of applying its production methods to this particular raw material.”

Excerto do terceiro capítulo da Sociedade do Espectáculo, de Guy Debord

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Moral sobre Deus

“Escolhe: ou o universo de si próprio é o motor

Ou seu autor, sem fim, carecerá de autor.

“Não (responde um teísta); só por si existindo,

Necessário, absoluto, o ordenador supremo,

Profundo, ilimitado, imenso em seu poder,

Dá origem a tudo, sem de origem carecer”.

Teísta inconsequente, diz lá, à matéria

Porque recusas tu esse poder completo?

O Deus, que com esforço tu fazes intervir

Resulta duplo obstáculo que terás de elidir.

O grandioso Universo acaso não poderia

Ter no vivente seio a fonte de energia?

Conheces a matéria e tudo quanto encerra?

Não, só a vês passiva, exânime, indigente.

Pois antes de a julgares e lhe dares um senhor

Cumpria conhecê-la, meu obtuso Doutor.

Que espírito poderia, agindo sobre os corpos,

Combinar, dirigir seus rudes mecanismos?

É acaso a mão de Deus, que impulsionando a pedra,

A expulsa e precipita para o centro da terra?

Acaso a voz de um Deus diz ao lobo cruel

Que as ovelhas ataque ou ao pastor fiel?

Tenta tu a experiência; observa a natureza;

Adivinha os segredos do seu método obscuro;

Das artes cultivadas toma na mão o facho,

Procura um mundo novo no patente universo.

Não admitas um Deus pai de todas as coisas

Se a matéria dispensa uma causa primeira.

“A matéria sem causa!…” mas admitindo um Deus

Pode ainda surgir uma objecção igual.

Será o Deus sem causa mais fácil de admitir?

“Causa e Deus são palavras…”quem as pode entender?…

O universo é a causa nada a pode exceder;

Situá-la além dele é tudo complicar.

Se infinita é a matéria, onde pode ele estar?

Ai! Em vão se procura conhecer o insensível,

Sem figura nem voz, esse informe e invisível,

Escapando aos sentidos, esconde-nos o que é.

Ora ou Deus não existe; ou a sua existência

É fruto proibido à nossa inteligência.”

Moral sobre Deus, de Sylvain Marechal

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