Um, dois, três, diga JAS outra vez!

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Imagem retirada do post da Frederica Jordão

“bestiário # 1”

descritivo empírico após colheita acidental: espécime de porte insignificante/ rastejante/ caixa craniana despicienda/ exoesqueleto exuberante/ reproduz-se com abundância nos meios da comunicação social/hermafrodita, mantendo enclausurada a componente feminina, exibindo ao Sol, banhado em muco, um apêndice de reprodução masculino que agita freneticamente num ritual de acasalamento sem destinatário biológico aparente.

Por Susana Figueiredo

“As mulheres são mais felizes?”

Zé António, eu cá não sei responder porque a própria pergunta contém o disparate de qualquer resposta. Mas há uma coisa que te posso dizer com toda a confiança, Zé António: eu hoje, depois de te ler, não sou mais feliz, mas amanhã posso sê-lo, se te encontrar na rua…

Por Cosmobitch Laika

“José António Saraiva, era vará-lo.”

Prefiro o “L’Obéissance est Morte” ao jornal Sol, por isso foi aqui que descobri este artigo de opinião do José António Saraiva (JAS) republicado de uma Crónica Feminina de 1957. A teoria de JAS é tão fresca e certeira como a da Geração Espontânea, pegando em evidências míopes e numa retórica espalhafatosa para fazer valer uma certa versão de família e sociedade que (sabe-se lá em que raio de manual está descrita) rescende a vingança e a frustração.

Dizer que foi a “entrada das mulheres no mercado de trabalho” que desestabilizou a pastoral familiar é já de si balofo, se não chegasse a ser anedótico: JAS é uma máquina de combinar aleatoriamente factos sem critério de lógica ou verdade e do seu arrazoado de disparates não resultam proposições válidas mas, na melhor das hipóteses, uma boa fotonovela (leia-se o artigo de JAS com a entoação do anúncio do Restaurador Olex). O “mercado de trabalho” ou o capitalismo, como lhe queiram chamar, em tudo encontra serventia e foi ele quem integrou as mulheres, fosse para suprir as faltas pontuais de mãos masculinas, ocupadas em guerras ou sevadas pelas guerras, ou apenas para ver cumpridas as mesmas tarefas produtivas por menos dinheiro. O mesmo “mercado de trabalho” que ganha dinheiro com as armas, as drogas, o ferro-velho, as telecomunicações e as refeições congeladas.

E algumas mulheres ficaram e fincaram o pé contra os abusos do patronato; outras regressaram a casa e foram mães a tempo inteiro, lutando contra os abusos dos mercados que fazem flutuar a procura em função da oferta. E algumas foram felizes e outras foram tristes mas nenhuma precisou que viesse um padre, um patrão, um marido ou um fazedor-de-opinião dizer-lhe como fazer as coisas.

Mas a teoria de António José Saraiva não é só escarninha e maledicente, ela traz uma agenda que nós, as feministas que convocamos “as mulheres para queimarem os soutiens, cortarem o cabelo curto, vestirem-se à homem e usarem pasta à executivo” (passe-se o erro de concordância verbal de JAS), vimos denunciando há muito tempo: acenando com o fantasma da degenerescência dos filhos e filhas por falta do abençoado colo materno, em tempo de crise com fim mais uma vez adiado, discretamente sugere às mulheres que prefiram o remanso doméstico ao seu lugar nas fileiras produtoras.

A Leonor Guerra diz bastante mas não o suficiente. Esqueceu-se de dizer que JAS insulta trabalhadoras e domésticas igualmente, relegando-as ao papel de cuidadoras sem outro carácter que não o de se consumirem no dar-se; que JAS infantiliza a capacidade das mulheres de manter relações não passionais com homens e que, finalmente, maniqueísta e criminosamente, articula a dimensão profissional das mulheres com as toxicodependências e o suicídio dos filhos. Era vará-lo.

Por Frederica Jordão

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