O ano passado na Rua da Palma

Entre partidos, revistas, colectivos, ‘movimentos’ e individualidades conhecidas, os dedos de duas mãos não chegam para contar os elementos desavindos que opinam sobre o rumo político do BE na certeza de que a principal discussão à esquerda é que função e forma poderá ter um partido num contexto de austeridade.

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Apesar das diferenças ideológicas, consideráveis, e das diferenças qualitativas, pertinentes, duas linhas de reflexão parecem reunir um certo consenso entre os participantes na discussão: a primeira é a ideia de que o combate político necessita de pólos centralizadores fortes, de organizações e instituições que orquestrem as lutas; a segunda é que, consequentemente, o debate político que estrutura todos os outros deverá ser o da definição estratégica e burocrática da instituição bem como o da gestão política dos poderes que nela participam. Tudo o que não seguir esse fio centralizador é secundário, circunstancial, efémero e pouco sério.

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As disputas sectoriais à volta destas duas certezas parecem não criar debates profundos. Como na política mainstream, que espelha que o bloco espelha, as discussões mais interessantes ocorrem para lá do arco da governabilidade do partido e o debate central é marcado por um par de banalidades. Mas o mais preocupante é que, vista de fora, a discussão relativa ao futuro do bloco, do pós-bloco e do anti-bloco lembra apenas um cão a perseguir a própria cauda. Esta é no fundo a melhor imagem para toda a problemática da “união das esquerdas” – porque é precisamente essa ideia de que a “esquerda” necessita de uma forma única, pura e perfeita a prevenir que esta se constitua enquanto possibilidade Política, e não apenas enquanto contrapoder e resistência ao capital e às suas formas.

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De um modo mais simples e imediato: é perversa, mas frequente, a situação onde as técnicas que utilizamos acabam por utilizar-nos a nós, capturando os seus sujeitos nas suas lógicas internas até estes não serem mais do que simples rodas dentadas de mecanismos. Que sentido faz perder horas, cabelos e amigos num debate acerca de plataformas cuja única função é a sua autorreprodução enquanto instituição? É como se ante uma certa urgência desesperada dos tempos que correm todos começassem a agir enquanto viajantes num navio prestes a naufragar, uns tentam tirar a água de dentro do barco com baldes e os outros sobem à proa para convencer a embarcação a não afundar.

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A crise da esquerda não é uma crise de identidade à volta de questões formais, a crise da esquerda é uma crise formal à volta de questões identitárias: é não ter entendido que neste período histórico, neste momento de desenvolvimento do capital, nesta presente hipótese subjectiva não necessita de estruturas identitárias e institucionais para agir. Organizar-se não significa necessariamente constituir organizações, e não significa, objectivamente, participar nos seus desvarios palacianos. É precisamente um entendimento formal da “esquerda” enquanto somatório de instituições que impede um seu entendimento histórico enquanto conjunto de sensibilidades e práticas constituídas por uma oposição ao capital. E o esconder desta questão por trás da cortina de fumo da “união das esquerdas” é precisamente a ocultação que mais explica e marca a derrota que se sofreu nos últimos anos.

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