Quando a direita perde mas a esquerda não ganha

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O PT de Dilma ganhou as eleições ao PSDB de Aécio. A esquerda esboça um sorriso face à derrota de um dos mais reaccionários projectos da direita, que aqui e ali até chorou pelo regresso da ditadura militar, mas importa não perder alguns factos de vista. Desde logo pela compreensão de quem é quem em matéria programática, factor bem mais importante do que a natureza social do eleitorado de cada um dos projectos. O PT de Dilma tem no seu cadastro factos pouco airosos que não devem ser esquecidos: a militarização das favelas, o apartheid social imposto para limpar os pobres dos centros das principais cidades, os casos sem fim de corrupção, a megalomania dos projectos como o Mundial ou as Olimpíadas, a perseguição aos indígenas e aos sem terra e sem tecto. O fosso entre pobres e ricos aumentou, ainda que, diga-se, os pobres tenham mais paliativos para garantir a sua sobrevivência. O PT de Dilma, como de resto já o tinha sido o PT de Lula, abriu mão de uma oportunidade histórica para mudar o Brasil para lá dos remendos e côdeas e em troca, ao longo de mais de uma década, mais não reforçou do que um Brasil em que se financia a miséria de modo a que a elite financeira faça os seus negócios sem o estorvo da contestação social.

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Dilma no Fórum Económico Mundial de Davos

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A estratégia, mesmo vista com muita bonomia, não resultou. As ruas do protesto foram a expressão pública disso e a repressão, à qual o PT se associou, a prova clara de que entre Dilma e Aécio a resposta política, no essencial, é substancialmente a mesma. Os historiadores dirão, sobretudo daqui a uns anos, que estes foram governos de natureza popular. Mas se os sociólogos fizerem bem o seu trabalho também será claro que essa natureza não significou uma mudança qualitativa na vida da esmagadora maioria da população. O Brasil das elites continuará a servir-se do PT de Dilma, muito mais do que a imensa multidão que a reelegeu. A esquerda a valer, aquela que continua marginal no colosso sul-americano, tem muito que pensar para vencer a marginalidade à qual continua votada. Deixar que o PT continue a ser visto como a grande referência continental e internacional do que a esquerda pode oferecer quando chega ao governo, é o maior favor que se está a fazer à direita, seja a social-democrata seja a que, entre dentes, suspira pelas trevas do obscurantismo.

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Aécio com Tancredo Neves
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Aécio contratado pela Ditadura Militar

No Uruguai, onde o sucessor de Mujica por certo ganhará a contenda, o cenário não é muito diferente, e o mesmo se passa um pouco por toda a América do Sul. Evo Morales ganhou na Bolívia e na Venezuela Nicolás Maduro continua a via de Hugo Chávez. Em todos estes casos o dilema repete-se. Ou as reformas avançam, e abrem-se brechas necessárias na estrutura capitalista de modo a que as revoluções voltem à ordem do dia, ou a gestão dos pobres e do regime será cúmplice do regresso ao Passado.

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