Tunísia: democracia da série “Onde é que eu já vi isto?”

Tunes, Agosto 2011
Tunes, Agosto 2011

Seis anos passaram desde a revolta da população da bacia mineira de Gafsa, cerca de 400 Km a sudoeste de Tunes. Seis meses de insurreição contra a corrupção e favoritismos no recrutamento nas minas de fosfato, cujo sector revela-se incontornável na economia do país (diga-se de Tunes para norte e ainda Sousse), sem contudo reverter para o desenvolvimento regional onde precisamente as minas se situam. Estávamos em 2008 quando a população essencialmente da cidade de Redeyef revolta-se sob uma repressão sem precedentes do regime de Ben Ali (o equivalente de repressão na Tunísia teria sido na “revolta do pão”, em 1984, ainda sob o regime de Bourguiba, após um pedido de intervenção do FMI). A informação do que ali se passava chegava a conta-gotas ao estrangeiro, enquanto em Tunes a vida continuava em plena ignorância dos factos. A censura na circulação de informação foi sempre uma das armas fortes do regime de Ben Ali, coisa pouca para uma Europa que prefere países serviçais à liberdade dos mesmos, sobretudo quando estes são paraísos turísticos e abertos aos investimentos privados em troca de favores. Assim se explicou o apoio francês incondicional a Ben Ali quando os tunisinos disseram “Basta”, oferecendo mesmo o seu “savoir-faire” para travar a revolta.

Quando se fala daquilo que desencadeou o que se chamou a “primavera árabe”, tem-se tendência a esquecer a semente insurrecional coletiva em 2008 para se reduzir ao ato individual de Mohamed Bouazizi, esse jovem desempregado que fez uma tentativa de suicídio em dezembro 2010. No entanto, foram as mesmas palavras de ordem de Redeyef “Justiça Social, Dignidade e Direito ao trabalho” que alastram de Sul em direção a Norte e que fizeram cair Ben Ali em Tunes.

Um belo processo revolucionário saldou-se na eleição, em outubro de 2011, do Ennahda (irmandade muçulmana) com cerca de 40% dos assentos parlamentares (90/217). Alguma da franja “secular”, muito presente na “sociedade civil” tunisina, não se poupou a alguma reacionarice, deslizando na retórica fácil do “melhor a ditadura de Ben Ali que um movimento islâmico”. Ou seja, o exercício democrático só traz bons ventos quando estes são controláveis. Durante estes três anos de governação Ennahda, cinemas foram incendiados por passarem filmes julgados prosélitos, dois líderes da “Frente Popular” (partido que une marxistas e nacionalistas árabes) foram assassinados, ativistas das redes sociais foram presos. Nenhuma destas ações foi reivindicada publicamente pelo Ennahda (embora…) e uma boa constituição foi aprovada (200 votos a favor, 12 contra e 4 abstenções) no início deste ano. Esta Constituição (qui n’est pas socialiste, bienentendu) substituiu a Constituição de 1959 (suspensa logo após a revolução em março de 2011) e declara desde o seu preâmbulo que ela se inscreve nos objetivos de liberdade e de dignidade enunciados pela revolução. Para além de ser a primeira vez no mundo árabe onde se introduz o objetivo de paridade entre homens e mulheres e ainda de liberdade de crença e de consciência. Ver aqui o texto completo da Constituição em françês.

Posto isto, as disparidades regionais continuam assim como uma elevada taxa de desemprego, houve a deslocação e criação de novos focos de corrupção e de repressão, etc., etc… mas nem tudo correu mal e a “ameaça islamista” não fez os estragos que se pensou numa Tunísia que está sem dúvida melhor do que com Ben Ali, a solidificar pouco a pouco a democracia tão proclamada pela Europa. Hoje, a Tunísia vai novamente a votos, numa eleição legislativa que vai decidir a governação tunisina nos próximos 5 anos. Os debates fazem-se em torno da luta contra o terrorismo e da crise económica, espera-se uma taxa de abstenção alta (49% já em 2011). Onde já vimos isto? As sondagens fabricam o bipartidarismo entre Ennahda e Nida Tounes, este último com alguns quadros políticos do RCD (partido de Ben Ali). O cenário possível é então Islamistas Vs Nostálgicos. Uma bipolarização que é explorada pelos dois partidos em questão com um jogo que nos é muito conhecido: o “voto útil”. A pluralidade saída da revolução esbate-se num diálogo de alianças e o processo revolucionário finda-se em vez de se fusionar no processo democrático. Foi bonita a festa.

“Maudit soit le Phosphate” um filme belíssimo de Samy Tlili com imagens inéditas e raras da revolta de 2008 na bacia mineira de Gafsa:

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