Questões sobre Kobane

imgo

Esta fotografia tirada hoje de manhã, a 2 km de Kobane, do lado turco, chegou-me com as seguintes palavras: “os comunistas por terra e os capitalistas pelo ar unem esforços” (o fumo que vemos no fundo é o resultado de um bombardeamento americano contra o ISIS). Com um simplismo típico de um telegrama, esta frase resume o quão interessante é a situação de Kobane, porque mais do que estratégico no plano do terreno, Kobane tornou-se simbólico. Sem mares nem terras com uma abundância de recursos, interessantes para os curdos (por razões óbvias) mas muito pouco importantes para os meninos jesus deste mundo, Kobane mediatizou-se. Saiu da sombra… Daí as múltiplas questões que me coloco: desde quando a capacidade de auto-organização política e auto subsistência alimentar e energética são dignas de sair da sombra?

Durante o ultimo ataque a Gaza, uma palestiniana entrevistada por um jornalista dizia mais ou menos assim: “temos sorte porque os nossos inimigos são brancos, caso contrário seríamos dizimados às escuras”. O mesmo parece-me acontecer com os curdos sírios. Se os extremistas islâmicos não fossem o inimigo, o massacre não estaria a ser feito às escuras? Se as diferenças no apoio internacional que é concedido aos palestinianos e aos curdos são muitas, revelando em grande medida a parte de simpatia que o “inimigo” suscita no Ocidente, as semelhanças entre os dois emergem à luz de um aspecto pouco negligenciável para nós os “nostálgicos” das lutas armadas: a resistência organizada. Mas a empatia conquistada por Kobane na opinião publica, por vezes pelas piores razões (nomeadamente as que se relacionam exclusivamente com a imagem da mulher a combater o sexismo dos “homens” islâmicos, acentuando a islamofobia reinante), tem conduzido a um fenómeno engraçado que se posiciona na tensão entre a hesitação do governo turco em esclarecer a sua posição no turbilhão da guerra Síria e na questão curda (antevendo a importação do conflito para o seu território), a intervenção americana para marcar um ponto no “progresso civilizacional” do mundo contra os bárbaros e o ISIS que não está em medida de perder batalhas simbólicas. Já a luta dos curdos pelo direito de existir “sans Dieu ni Maître” tem um significado mínimo nesta tensão. Ainda assim, mesmo que Kobane caia nas mãos do Estado Islâmico, não terão os curdos já ganho muito?

Aqui um diaporama de fotografias de Yann Renoult na Palestina e no Curdistão, ver especialmente as categorias: “Les brigades Abu Ali Mustafa” e “YPJ-Kurdisk Female Fighters”.

2 thoughts on “Questões sobre Kobane

    1. Désolée Wael, j’ai oublié d’écrire la raison pour laquelle la photo est pixelisée… pas digne d’un excellent journaliste ! :) Embrasse fraternellement les camarades kurdes pour moi et fais attention aux Yankis… des fois ils se trompent de cible!

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