Músicas inobedientes (VIII): o caos segundo Sunn O))) [e também uma nota sobre o incompreensível fascínio do Noise]

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Prosseguindo este aleatório roteiro sonoro pelos domínios marginais do Noise, por onde já andámos e onde sempre voltaremos, chegamos inevitavelmente à impenetrável e abrasiva massa sonora produzida por Sunn O))), mestres dessa inesgotável arte de fazer (anti-)música com ruído. O Noise deste misterioso duo de Seattle, conhecido pelos seus ‘monolithic soundscapes’, não é brilhante nem estridente, mas antes grave e subterrâneo. Em concerto, os seus drones ruidosos não nos entram pelo tímpano, mas directamente pelo peito, como pudemos comprovar no seu concerto em Lisboa há uns anos. Há por isso algo de vital, ou de letal, em tal sonoridade.

Mas, perguntarão com pertinência alguns leitores, por que caralho me fascina tanto o Noise se esta merda é só barulho e rigorosamente nada mais para lá de barulho?

Os meus vizinhos estão convencidos que é doença minha e que portanto um internamento psiquiátrico me iria muito bem. Outra explicação para esse fascínio obsceno poderá ser: a estetização de certo modo dionisíaca da embriaguez, da violência, da agressividade, da destruição, do sofrimento (por oposição a uma estética apolínea, centrada sobre a melodia, a ordem, o equilíbrio, a forma) operada pelo Noise fascina-me de facto porque me coloca perante manifestações que nunca percebo como estando estabilizadas, estruturadas ou acabadas (e isto num mundo que me procura formatar para a identificação com formas acabadas, ordenadas e estáticas, docilmente manipuláveis por ideologias). Como também sucede com a música improvisada, elas estão num devir constante rumo a um desconhecido, e suspeito que esse estado de surpresa ininterrupta contribue para deixar-me num estado de excitação permanente.

Sensorialmente estimulado pelo Noise, que é como referi qualquer coisa de instável, logo de caótico e complexo, que não tem nenhum tipo de existência fora do seu próprio fluxo, dizia eu que, estimulado pelo Noise, sou impelido, não à projecção de categorias, julgamentos, significados ou conceitos (e nem mesmo de memórias conscientes), mas apenas à pura experiência fenoménica dessa manifestação sensorial (se é que isto pode ser humanamente possível). Sem qualquer mediação de ideias. O facto de nunca chegar a entender o Noise (por estar para lá daquilo que faz sentido e por ser parcialmente incompreensível e inenarrável) faz da sua experiência uma certa exploração do caos. E talvez seja precisamente isso o que mais me fascina nele: mergulhar no caos, perder-me nele para aí subitamente encontrar um campo radicalmente livre, sem códigos nem barreiras culturais, sem símbolos, sem nenhum cosmos impregnado de valores, sem o bem e sem o mal; SÓ SOM, nada mais (por muito improvável que isto possa soar). Som que, além do mais, me aproxima do êxtase – não será certamente casual a semelhança entre as palavras alemãs Rausch (êxtase) e Geräusch (ruído).

Outra explicação mais simples é aquela que também explica porque milhares de pais por esse mundo fora tranquilizam e adormecem, com poderosa eficácia, os seus bebés debaixo de uma massa de ruído branco. É que o ruído branco tem um efeito potencialmente tranquilizador em todas as pessoas (na verdade, ele remete para alguns sons intemporais: cascata, chuva, vento, mar, fogo, etc.), sendo que, para os bebés, ele proporciona além do mais uma atmosfera sonora provavelmente similar ao interior do corpo da mãe.


Outras músicas inobedientes: (I) Lou Reed (Metal Machine Music) (II) Diamanda Galás (Malediction and Prayer) – (III) Throbbing Gristle (IV) Kurt Cobain – (V) M.A.S.O.N.N.A. – (VI) Charlotte Moorman (Topless Cellist) – (VII) Gangsta Rap (sobre os motins de L.A.)

About PDuarte

Historiador, jardineiro, horticultor. Vive na província. No tempo vago, que procura multiplicar de dia para dia, perde-se em viagens, algumas pelos montes em redor, outras pelos livros que sempre o acompanham. Prefere o vinho à blogosfera, a blogosfera ao Parlamento.

5 thoughts on “Músicas inobedientes (VIII): o caos segundo Sunn O))) [e também uma nota sobre o incompreensível fascínio do Noise]

    1. (Melhor cair-lhe eu, com os meus 60 e picos kg, em cima do que ela em cima de mim.) Mas como relacionar Joana Vasconcelos com a cena Noise? Como lhe ocorreu essa associação impossível? Não estará afinal JV no extremo oposto ao do Noise, lá onde predominam as formas acabadas, ordenadas e estáticas, manipuláveis por ideologias, lá onde domina a lei do espectáculo com as suas obras mercantilizáveis, substituíveis, mas também ‘educativas’, pedagógicas, enfim, e uma vez mais, IDEOLÓGICAS?

      Saudações inobedientes

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