A esquerda rupestre sem encruzilhada

unnamed (1)Depois de muita troca de sardas e piropos entre todos os que têm vindo a dirigir o BE até aqui, começa a ser fácil de prever o que vai acontecer ao partido no próximo congresso. Se a direcção bicéfala ganhar – com o apoio do que sobra do PSR e dos ditos independentes – tudo ficará na mesma e uma das mais frágeis lideranças irá a votos sem grande capacidade de evitar um dos piores resultado do BE desde a sua fundação. Neste contexto boa parte dos militantes que sobram continuarão no partido com os fiéis do Fazenda a gerir a oposição interna numa hábil troca de lugares no aparelho por alguma paz interna até ao próximo congresso. Se acabar por ser a UDP e o seu António José Seguro a assumir a liderança, voltaremos a ser presenteados com uma estrutura que está na política mais para se servir dela do que para servir o bem comum, pelo que o mais certo é que boa parte dos demais dificilmente ficará para fazer de carroceiros de um projecto político que mais não será do que a recuperação da velha lógica da UDP, profundamente estalinista do ponto de vista do regime e acerrimamente reformista do ponto de vista político. Os outros projectos alternativos, alguns deles qualitativamente superiores do que os dois com hipóteses de ganhar a contenda, ficarão reduzidos a cinzas e apesar das boas intenções o elemento central de análise será a sua pouca expressão militante no interior do partido.

O debate sobre o BE há muito que se esgotou. Quem por ai defende o regresso às origens – as únicas onde o BE teria viabilidade e espaço político – terá pouco mais do que os votos das suas próprias sombras e o meu único desejo é que o seu percurso político não fique por esta derrota e sejam capazes de seguir caminho e começar de novo com todos os outros que foram saindo ao longo dos anos. Os que mandam – e ganhe quem ganhe continuarão a mandar – acabarão incapazes de resistir ao apelo governativo e à pressão de um governo de unidade com o Partido Socialista – agora de António Costa, que fará ao BE o que antes fizeram Manuel Alegre ou José Sá Fernandes. Paradoxalmente, o único cenário que os livrará disso é o de serem insuficientes para contar eleitoralmente para essa maioria e essa maioria seja suficiente seja em modo de Bloco Central seja com o Livre na lapela dos barões do Largo do Rato.

Todos estes cenários, de uma maneira ou de outra, deixam uma realidade muito clara. Quem, na esquerda anti-capitalista, queira refundar a esperança tem que desde já começar a preparar o Futuro. Este não passa pelo reforço das estalagmites do Partido Comunista, que dificilmente sobreviverá, a prazo, à implosão da CGTP, nem pela caverna de estalactites em que se transformou o Bloco de Esquerda que provavelmente o tornará irrelevante já no próximo ciclo político. Até ver quem ri com tudo isto é o António Costa, o Rui Rio e o Rui Tavares, mas para que se abra caminho à reorganização de uma resposta política contra a austeridade e capaz de reacender a fornalha da luta política – sobretudo nas ruas – aos que querem o poder ao serviço da maioria, há que olhar para o colapso da esquerda rupestre com os olhos cheios de esperança e para a experiência de governo dos oportunistas como um momento chave para que se perceba, de vez, que o poder só interessa se for para o colocar ao serviço dos de baixo.

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5 thoughts on “A esquerda rupestre sem encruzilhada

  1. O movimento operário e movimento das ruas com a implosão da relação salarial e a explosão da questão social vão continuar a provocar estragos nos partidos e sindicatos
    as estratégias de posição vão ceder ao movimento que se vai intensificar à medida que a questão europeia fica cada dia mais incontrolável e a defesa de uma posição hegemónica vai agravar os conflitos inter-estatais e no seio da união pulverizando as respostas favoráveis à irrupção de novos protestos também eles cada vez mais incontroláveis mas que dificilmente poderão continuar tão favoráveis ao capital como até aqui – e a partir daqui a esquerda vai-se ressentir desse confronto com o capital que vai originar fracturas e realinhamentos.

  2. prefiro as “diretas”, por isso aqui fica o que o sapo escreveu por aí sobre este texto: “cm alguém d esq. pode dizer que “o poder serve para servir os de baixo”? o poder serve para que os “de baixo” vivam ao lado dos “de cima”!”

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