A outra mensagem de Malala

Malala

O Nobel atribuído a Malala recordou-nos a sua singela mensagem: «um aluno, um livro e uma caneta podem mudar o mundo». Mas o Nobel é político e o ensino também. Os três elementos que os talibãs negam a mulheres nos territórios que controlam tornaram-se em três bons motivos para tentar assassinar a jovem activista de 17 anos.

A administração Obama e restantes potências centrais logo a acarinharam. Pouco têm a aprender sobre manobras de propaganda. E assim a tornaram no símbolo do mundo livre que o Ocidente tanto propaga com bombardeamentos de escolas no Médio Oriente. A fuga dos cérebros imigrantes e os filhos de famílias com património chorudo depois compensarão quem não conseguiu, entre os subúrbios pobres das capitais estadunidenses e europeias, uma bolsa de estudo nas melhores universidades. Aqueles que escapam à barbárie neo-colonialista sem diploma arriscam-se a perecer pelo caminho ou, quem sabe, a engrossar as fileiras do exército para poder usufruir de apoios para poder estudar, enquanto bombardeiam mais escolas no Hemisfério Sul. Não se formarão intelectuais, ou poucos. A licenciatura já não é uma licença para estudar mas para aplicar metodologias pré-concebidas no laboratório da tecnocracia.

Em Portugal também se elogia a coragem de Malala. O ministro diz ter um plano para mudar o mundo mas não tem professores. Tem um orçamento cada vez mais reduzido para a educação mas mantém apoios aos colégios privados. Existe o fenómeno da fome nas escolas públicas mas o serviço da dívida fala mais alto que o apoio social. Para quem quer seguir o trilho da academia não pode pedir empréstimo ao BES para que os pais possam pagar o Novo Banco. Nada de distracções: as propinas proibitivas e os cortes nas bolsas de estudo são apenas sintomas da matéria leccionada pelo mercado.

Seja para formar mujahidin ou taylorizar seres-humanos, a perspectiva sobre a imagem de Malala é isso mesmo. Ninguém pretende o questionamento dos valores que filtram alunos, seleccionam os livros e racionam as canetas.

Advertisements

6 thoughts on “A outra mensagem de Malala

  1. Parece-me que este artigo confunde muitas coisas. E quase deixa Malala no meio dessa encruzilhada.
    Há que ter cuidado para não se confundir aquilo que se quer fazer das pessoas e aquilo que as pessoas são (ou pelo menos aparentam ser).
    E simplifico e digo “Parabéns Malala, pela tua coragem”.
    Todo o resto pode e deve dizer-se. Mas noutro contexto.
    Malala não merece esta confusão.

    1. Luisa, a confusão está na sua cabeça.
      O artigo é sucinto e esclarecedor para quem ainda não está esclarecido(a), mas mesmo assim sentiu-se confusa… acontece aos melhores.
      Em parte nenhuma do artigo Malala é criticada por ser quem é, ou pelo que fez, portanto não há confusão nenhuma a merecer no que lhe diz respeito.
      O artigo expõe uma caracteristica comportamental geralmente conhecida como hipocrisia.
      Se tivesse percebido isso, certamente não estaria a defender quem não foi atacada.
      Cumprimentos

    1. Acho que nos podemos restringir ao facto do Nobel ser um prémio político.
      Também sabemos todas essas coisas do neo-colonialismo.
      Em paralelo sabemos que a situação do ensino em Portugal está mal, porque o actual executivo assim o quer.
      Noutro paralelo sabemos que há uma política mundial a favor de uma ideia económica. Sabemos ainda que essa política arrasta o mundo inteiro. E que há mortes, genocídios, hipocrisias.
      Agora, falar disto tudo ao mesmo tempo com o pretexto da frase de Malala, parece-me forçado. E fora do contexto. Quando Malala o diz, refere-se ao seu Universo. Universo esse que deve ser mote de discussão, acima de tudo pelos direitos das mulheres, que é tema ignorado neste artigo.
      Mas na verdade, tudo dá mote a tudo. Sobre qualquer assunto eu posso chegar ao ponto que pretendo. Pode é ser uma tese pertinente ou não. Esta, mesmo tendo todas as premissas certas, parece-me que não somam uma conclusão, nem formulam uma questão que reúna o propósito do tema central: Malala e a sua mensagem pela sua existência política.

      1. Todos sabemos essas coisas todas mas abordemos apenas aquilo que a Malala diz e o Ocidente aplaude. Desculpe mas foi isto que deduzi do seu comentário.

        A luta pela emancipação da mulher é uma luta em qualquer país. É respeitável. O problema é quem foca esse problema e se esquece que independentemente do sexo temos graves problemas de acesso à educação no nosso quintal.

        Mas é tão mais fácil falar em talibãs. Eu tenho todo o gosto em criticá-los, mas com visão periférica.

Deixe o seu comentário.

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s