APRESENTAÇÃO DE FRANCESC TORRES (1): Vanguarda e Utopia: “Yo creo que tenemos que preocuparnos más de la calidad de la pelea que de los resultados”

Francesc Torres é um autor fundamental da arte conceptual internacional politizada, catalão/espanhol (e passa por aqui o tema do próximo post) de carreira novaiorquina e aqui o apresento como artista para, depois, dar a ouvir a sua fortíssima posição (que deverá ser lida e estudada atentamente) sobre nacionalismo, esquerda, Catalunha, referendo e independência; algo que se pode resumir a isto: só um não nacionalista pode e deve pôr Madrid em sentido e em estado de respeito pela vontade dos outros. Seja ela qual for: nacionalista, federal ou outra.

1.

Francesc Torres, entre propostas das últimas décadas, apresentou em 1995 uma poderosíssima instalação, El Continente de Cristal, em Tarragona (Sala Tinglado 2) – de onde uma das vertentes aludia à impressão de autodestruição inevitável, metódica e calculada, a que estariam destinadas as economias de consumo –, expôs entre Julho e Setembro do mesmo ano Too Late for Goya, na Rekalde de Bilbao. Alguns meses antes, entre Maio e Junho, pôde mostrar no IVAM duas outras instalações inéditas, uma deslas do início da sua carreira: «Lluvia Uniforme o Algo Más Que Una Gota de Agua» (de 1969, e só agora concretizada) e «La Luna en un Cesto», obra projectada propositadamente para o IVAM, em projecto expositivo comissariado por Nuria Enguita e Vicente Todolí.

Além disso, neste intervalo de tempo, foi publicada uma esclarecedora entrevista com o autor, conduzida por Juan Antonio Ramirez em El Paseante, El arte como voluntad y representación (Número triplo 23-25), outro destaque natural neste contexto, porquanto este número especial da revista madrilena faz coincidir o seu décimo aniversário com um esforço, forçosamente parcial e incompleto, de balanço da arte do século XX — e as palavras de Francesc Torres tornam-se neste âmbito fundamentais, sobre arte e política.

TORRES.1
FRANCESC TORRES. “La Luna en un Cesto”. 1996.
TORRES3
Detalhe da instalação anterior.
TORRES.2
Detalhe.
FRANCESC TORRES. “Belchite/South Bonx”. 1988.
Exp "perder la cabeza".Francesc Torres.Tecla Sala. 12/4/00
FRANCESC TORRES. “Perder la Cabeza”. 2000.

2.

Antes de abordarmos alguns aspectos programáticos de Francesc Torres, vejamos algumas das premissas fundadoras da arte conceptual internacional, o que o integrará e de onde vai partir historicamente para, em face dessa conjuntura ideológica e epocal, se distanciar flagrantemente. Desta forma, retrocedendo a uma das suas matrizes, melhor se compreenderá a actualidade do artista, que ao conceptualismo histórico responde com uma linguagem heterogénea, Francesc Torres que do conceptualismo herdou não a obsessão pela linguagem como normalização para a definição institucional da arte, mas antes a contradição entre essa institucionalização e o programa da chamada «desmaterialização da arte» — ou seja, Torres integrará um conjunto de artistas (muitos deles oriundos de geografias então marginalizadas, desde o Brasil ao Chile, passando obviamente por Espanha) que congregaram uma componente político-sociológica evidente, uma vocação reflexiva dos fenómenos psico-sensoriais da percepção, conjunto de factores que aqui se aliam à ultrapassagem de uma etnocentralidade linguística exclusivamente anglo-americana. Entretanto, recuemos a um outro ponto nodal nesta discussão.

Numa intuição estritamente positivista, de um puritanismo exacerbado, o conceptualismo linguístico propôs que a arte se tornasse uma investigação das suas condições de produção e existência, recepção e circulação. Joseph Kosuth define mesmo a arte, a partir de Wittgenstein e de Ayer, como uma proposição analítica, em «Art after Philosophy» (Studio International, 1969). Ou seja, despida a arte da eficácia representacional e formal pela ansiedade moderna de autolegitimação, que reduziria a obra à condição de objecto entre objectos, já no minimalismo, a condição da arte como «objecto específico» (Judd) ligar-se-ia à justificação proporcionada pelo uso da linguagem (a nova estética «administrativa» de que fala Benjamin Buchloh, como herança de Duchamp).

Promovendo a arte como ideia, a tautologia, o apriorismo linguístico (como prática e definição da arte), a linguagem (abusivamente legisladora) e, secundariamente, o corpo (que na body art era uma entidade física sem estatuto de objecto de mediação) como arte, o programa conceptualista perseguiu uma análise histórica da sociedade da época e do sistema social da mercadoria, por vezes segundo premissas marxistas, neomarxistas ou pura e simplesmente libertárias; num primeiro momento assumindo sempre aquilo que Craig Owens denominou de «erupção da linguagem no campo da estética», erupção, como veremos, exclusivista e pretensamente neutra e informativa, que atiraria o campo da subjectividade para um espaço institucional (embora mais depressa se tenha institucionalizado a crítica da subjectividade) e geograficamente centralizado — a partir do qual tudo o resto poderia ser equívoco, como quis demonstrar, por exemplo, um recente ataque de Kosuth a Hans Haacke. Vejamos este ponto, e, depois, vejamos paradoxalmente como o equívoco estava antes do lado de Kosuth.

No aspirar à não-coisalidade da arte e na relacionada não-referencialidade, o ataque de Kosuth tem então como alvo não apenas Haacke, mas também artistas como Torres, Muntadas, Jaar, Wodiczko ou Marcel Broodthaers, entre outros, porque toda a referencialidade (nomeadamente política) que habita as obras citadas só pode significar, para o ortodoxo americano, uma errada interpretação da necessidade que a estética sente de uma exterioridade milagrosa (neste caso, a mensagem política) para se legitimar.

Kosuth refere num ensaio atrás comentado, «Teaching to learn (a conversation about “How” and “Why”)» (1990), que um problema que a arte defronta advém de ser uma entidade estruturadora de saberes impostos (herdados). Para Kosuth só uma estratégia de (auto)consciencialização da produção de sentido (que corresponde, nesta circularidade, à definição da arte), pode libertar a estética dos seus confinamentos institucionais. Assim, não seria a injecção de conteúdos políticos na institucionalização a fórmula para a emancipação global, simultaneamente social e estética. O problema de Kosuth tornar-se-ia a sua crença numa linguagem (asséptica e pré-comunicacional), sem sexo e subjectividade, para empreender tal tarefa de auto-conhecimento.

Como é que, entretanto, artistas como Torres e Haacke respondem a estas questões ? Creio que de duas maneiras: primeiro, engendrando uma heterogeneidade estilística, entre a visualização e a contravisualidade ambígua, que satisfaz (ou parecia satisfazer) simultaneamente a não objectualidade do conceptualismo clássico, regressando ao objecto por outro lado, apenas para mostrar a vanidade da unitária objectualidade autolegitimada de certo modernismo (ver Marcel Broodthaers); depois, qualquer destes artistas recusará um estilo pessoal imutável. Só essa heterogeneidade permite a Francesc Torres apresentar duas obras tão distintas como as mostradas no IVAM em 1996: algo que vai desde a investigação de fenómenos perceptivos audio-visuais (próximos da estética da recepção), em «Lluvia Uniforme o Algo Más Que Una Gota de Água», até «La Luna en un Cesto», datada do presente ano. Obra de um desencanto político alegorizado, sobre a qual valerá a pena reflectir com Walter Benjamin em mente. Esta obra é referencializada no conceito de utopia, como ultrapassagem das faculdades perceptivo-sensoriais. Sublinhe-se que um trabalho como «Lluvia Uniforme … » coexistiu com a «guerrilha» ideológica que o autor protagonizou nos anos 60. Daí a referência à heterogeneidade de Torres ou de Hans Haacke.

«Lluvia Uniforme … » é um conjunto de monitores vídeo que retransmitem a queda de uma mesma gota de água numa superfície líquida; a segunda obra, opta por nos falar das causas, para alguns, perdidas, inspirando-se numa série de expressões populares como «To Howl at the Moon», «Aullar a la luna», ou, em português, «Ladrar à Lua», falar para nada e ninguém; o «cesto» do título refere-se ao lugar onde serão postos os «ovos de ouro».

Partindo daqui, Francesc Torres vai utilizar um conjunto de livros onde o Paraíso e a Sociedade do Homem Novo são recorrentes, e coloca-os em vários cestos no centro da galeria: livros ou referências a Virgilio, Santo Agostinho, Saint-Simon, Marx e Walter Benjamin. Quanto a este, obviamente, a figura do Angelus Novus — do parágrafo IX das Teses sobre a Filosofia da História – substitui livro e cesto, aparecendo ajoelhada sobre um monte de ovos de ouro já postos; esta escultura encara de frente todos os outros cestos, colocando-se de costas para nós e o futuro.

A retoma do paraíso e da utopia tem aqui uma dupla finalidade: primeiro, a de relevar uma inquirição inerente à existência do homem; depois, marca-se a utopia como o oposto da sociedade de consumo e abundância, tal como o próprio artista descreveu num texto de 1986: «a apoteose da utopia: a abundância de bens materiais em proporção directa à dissolução ideológica da política e à dissolução da solidariedade social; por outras palavras, trata-se da substituição de uma ideologia política de solidariedade social por uma cultura fundada na superabundância e posse de bens, (…) e quem não os pode adquirir que se enfastie, porque não trabalhou suficientemente».

Leremos seguidamente Torres sobre a disputa política Madrid / Barcelona e o referendo marcado para dia 9 de Novembro pela Generalitat da Catalunha.

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