Paraísos da irrealidade na Terra

No Verão, que agora se despede com as habituais caretas da despedida, a irrealidade irrompe com redobrada potência.

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Bastaria googlarmos a palavra “Verão”, e observarmos as 3 primeiras imagens geradas pelo motor de pesquisa, para nos darmos conta de como o próprio Verão se converteu, ele mesmo, num conceito (e numa imagem) significando a própria irrealidade:

Verão 1
Verão – 1
Verão 2
Verão – 2
Verão - 3
Verão – 3

As 3 imagens, perfeitamente coincidentes, ajudam a criar a imagem irreal (ou com limitadíssima correspondência com a realidade) que o “Verão” efectivamente tem na mente da maioria das pessoas (o Verão é o período predilecto das férias e não serão as férias um escape em primeiro lugar do real?). Mas bom, ainda que estejamos a ficar sem Verão, a irrealidade, essa, irá certamente prosseguir o seu rumo. Caprichosamente.

Las Vegas - 1
Las Vegas – 1
Las Vegas - 2
Las Vegas – 2
Las Vegas - 3
Las Vegas – 3

Muitos de nós (um 99%, onde naturalmente me incluo) jamais terão a possibilidade de se deslocar até ao Éden da irrealidade na Terra, onde tudo adquire uma forma puramente espectacular: Las Vegas, capital mundial da irrealidade. É ela que dá forma aos sonhos mais exóticos da contemporaneidade, ajudando a colorir e balizar o seu imaginário. Nela convivem pacificamente, numa harmonia quase perfeita, Veneza, o Egipto faraónico, a torre Eiffel (e também o Coliseu de Roma, etc.). O espectáculo liberta-se aqui dos resquícios de realidade (com os quais ele é geralmente obrigado a conviver) e das tensões que esta transporta, para construir e celebrar um mundo exclusivamente falso, bastante mais colorido, pacífico, harmonioso, leve e apelativo do que o mundo real, cheio de sangue, guerras, exploração laboral, desemprego e depressões.

A irrealidade tem uma função muito concreta na contemporaneidade: modelar a nossa (falsa) consciência do momento histórico presente, deformar a forma como o representamos. A celebração de um mundo falso, destituído de memória histórica, que não é politicamente neutro mas que se encontra carregado de ideologia, é um dos traços que melhor definem esta sociedade, onde tudo o que era directamente vivido se afastou numa representação.

A política parlamentar (a par da desinformação mediática) tem sido a arte suprema de construir a irrealidade. Quando se discute a redução para as 6 ou as 7h ou o aumento para as 8 ou as 9h da jornada de trabalho, retira-se propositadamente o debate de uma base material real, elevando-o para a esfera abstracta da irrealidade, já que se ignora propositadamente a realidade concreta de que vivemos num momento histórico cujo grau de desenvolvimento tecnológico permite pura e simplesmente abolir a jornada de trabalho (tal como a conhecemos). Enfim, discutam o que discutirem os ‘nossos representantes políticos’, as nossas vidas continuarão a gravitar em torno das mesmas desgraças reais e concretas, que a alta política, mergulhada na irrealidade, deliberadamente ignora (a pasmaceira monorrítmica e esclavagista do trabalho assalariado, a mercadoria contaminada e falsificada na prateleira do supermercado, a ditadura destrutivista do automóvel, a gentrificação dos bairros populares, a redução do território a uma mercadoria turística, o capital anónimo em livre trânsito pelas nossas vidas…). Daí esta lei universal da realpolitik moderna: somente o que é real neste mundo é ignorado pela política; somente o que é irreal se torna tema de debate e de promessa eleitoral.

Paraíso da irrealidade por estes dias, que reproduz activamente aquela lei universal, são as eleições primárias de um tal de Partido Socialista (só o nome do partido já seria suficiente para anunciar o grau de irrealidade e de fantasia que aí vem).

sem nomeimages

O António que se prepara friamente para vir a gerir, em Portugal, o estado de emergência permanente e a suspensão da democracia política, tão favoráveis ao desenvolvimento do neoliberalismo e das desigualdades, vem-nos prometer agora, calorosamente, “os valores da liberdade, da igualdade de oportunidades e da solidariedade” (Seguro), que é o mesmo que dizer “uma política de redução das desigualdades económicas e sociais que pressupõe a correção das desigualdades na repartição do rendimento” (Costa). Ora, quem ainda for dotado de um mínimo de lógica sabe perfeitamente que é impossível juntar esta promessa com aquela outra, igualmente feita pelo(s) António(s), de aumentar a competitividade na economia. Porque um programa elimina a priori o outro: competitividade e solidariedade repelem-se, anulam-se reciprocamente – ou somos competitivos e, para isso, aderimos ao funcionamento irracional e selvagem do mercado ou somos solidários e orientamos a produção económica (não para o lucro de alguns indivíduos mas) para satisfazer necessidades definidas racional e colectivamente; o que é impossível é sermos simultaneamente competitivos (individualistas) e solidários (colectivistas). Somente na irrealidade é possível estas duas coisas conviverem pacificamente na cabeça das pessoas e ninguém se importar muito com isso.

E também somente na irrealidade esta sociedade concreta, com todas as suas inumeráveis aberrações, poderia reproduzir-se de um modo tão pacífico.

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About PDuarte

Historiador, jardineiro, horticultor. Vive na província. No tempo vago, que procura multiplicar de dia para dia, perde-se em viagens, algumas pelos montes em redor, outras pelos livros que sempre o acompanham. Prefere o vinho à blogosfera, a blogosfera ao Parlamento.

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