Sobre o silêncio de alguns milhões de pessoas em muitas praças do país

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Em cinco dias em França confrontei-me com mais lutas do que nos últimos cinco meses em Portugal. Não faz sentido. Lá não estão bem mas não estão pior que cá. O poder afunda-se numa sucessão de notícias que com outro fôlego democrático fariam cair qualquer governo. Corrupção, mentiras e uma voracidade rara na destruição de serviços públicos, não deixam nenhum campo de governação onde o crime não paire. Face a isto boa parte da esquerda blasfema incompetência, mas quase toda se mantém dentro das quatro paredes dos armários. Vergado e conformado, o povo faz aquilo que melhor tem aprendido ao longo dos anos, não fossemos nós o país que levou mais tempo a varrer o fascismo. Muitos partem. Já sobra pouco para nos convencer de outra coisa. Impera o deserto de ideias e o desanimo e a procrastinação. Sobra comiseração, sobretudo a nossa. A falta de fantasia é asfixiante. Todos parecem incapazes de inverter a absoluta e insuportável capacidade de sonhar e tudo parece definhar lentamente, como um fado absoluto, previsível e provável.

Os professores são destruídos mas mordem baixinho, os médicos assistem impávidos à destruição do SNS, os enfermeiros dão ares da sua graça mas sem grande músculo, os estudantes só se mobilizam para defender a praxe e a generalidade dos trabalhadores dedica-se apenas e só à salvaguarda do seu posto de trabalho e, por pior que seja a sua condição, o medo parece falar sempre mais alto que a luta. As empresas, pequenas ou grandes, fecham as portas pouco a pouco. A TAP está quase liquidada e o que sobra de empresas públicas vai a caminho. A banca, a nova e a velha, virou uma anedota e só os tribunais lhes ganham em matéria de colapso. O PS escolhe entre um Toni qualquer para que tudo fique na mesma, o PCP e o BE não sabem o que fazer nem com o descrédito dos sindicatos nem com o fim da era das causas fracturantes. Gritam-se palavras de ordem sem fazer de nenhuma delas uma luta. A direita, mesmo às portas do fim do turno, ri. E ri alto. Faz turmas só com ciganos e ninguém diz nada. Igual com os ricos e com os pobres. Recupera o hino para cantar a cada madrugada. Poucos discordam. A impotência tomou conta da política e todos parecem esquecer onde leva esse caminho. Todos acham que podem mas todos podem menos a cada dia. O Crato não cairá ou se cair ninguém acredita que com ele vá também o governo. O cadafalso é para levar até ao fim. Quem lhes faz frente há muito que assinou o frete e tudo decorrerá conforme planeado. Há pouca margem para que as coisas mudem, as pessoas se mobilizem, se recuperem as ferramentas de transformação que não deviam poder esperar mais tempo.

Se um qualquer sobressalto não mudar este estado de coisas, estes murmúrios lacónicos, que ninguém se espante com a continuidade do silêncio. Alguém que grite tão alto como rapidamente. Falta barulho.

2 thoughts on “Sobre o silêncio de alguns milhões de pessoas em muitas praças do país

  1. É o silêncio do massacre uma estratégia de guerra económica para levar até ao fim silenciando inocentes usando a fome e o medo como armas políticas- está a faltar uma economia política da distribuição desigual dos riscos da crise no plano geográfico e social e do seu impacto na recomposição de classe,do estado e dos partidos e movimentos políticos…

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