O capitalismo, as crianças e aqueles e aquelas que os criam

A desorientação do Ocidente não se resume à irresponsabilidade da sua política internacional, à cegueira austeritária com que sujeitam os de baixo à pobreza, à esquizofrenia ecológica, à irracionalidade do modo de vida. A organização do disparate começa, como não podia deixar de ser, na forma como se olha para o nascimento de uma criança, a maneira como se concebe o papel do pai e da mãe e, naturalmente, à ideologia com que se abraça a criação. A ideia de que a partilha da responsabilidade pode ser equitativa é uma aberração tão contra-natura como contra-revolucionária. Não é, nunca será e não há grandes razões para que isso seja um problema. Há boas mães só mães e bons pais só pais. Há todo o tipo de casais para todo o tipo de famílias. O que falta, cada vez mais, é que os pais se emancipem dos filhos de forma a que mais tarde os filhos estejam capazes de se emancipar dos país. Os fetichistas da mercadoria não estão capazes de interpretar a imaterialidade e cedem, quase a todo o momento, àquilo que o mercado lhes sopra ao ouvido como importante. Iludidos, sem livre arbítrio, procuram emoções que não são as suas e habituam-se àquilo que lhes foi imposto sem se darem conta de que a escolha não foi sua.

O vídeo acima é a concretização ideológica que revela a sagração a que hoje está votada qualquer criança, transformada no único sentido da vida da esmagadora maioria dos pais. Ao pai não lhe é preciso saber como é ter barriga para que seja bom pai, não é sensação que se transmita por eléctrodos,  e à mãe de nada lhe vale ter um pai com mais vontade de ser mãe do que ser o que é: pai. O mesmo se passa nos casais não normativos, em todas as declinações da liberdade. O desperdício de recursos e a excentricidade materno-paternal é mais uma das formas de controlo do capitalismo para que as crianças cheguem ao mercado antes mesmo que lhes saia o primeiro grito, antes de respirar fundo e abrir os olhos. Tudo joga para que os pais se reduzam a essa mesma condição, de preferência sem mais nada que os ocupe além das horas de trabalho. Ninguém é poupado. Quem se lança na aventura sem estar consciente disso arrisca a ser mais um a contribuir e a colaborar para o gigante exército de führers, tão incapazes como mimados, que está na forja do Futuro.

Vamos continuar a ouvir muita gente a chamar democracia à ditadura e a fazer juras de que somos nós a dominar o mercado e não o mercado a dominar-nos a nós. Os resultados serão proporcionais à obediência e pouca é a esperança que os fetichistas sejam capazes de moldar os seus além das suas palas.

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2 thoughts on “O capitalismo, as crianças e aqueles e aquelas que os criam

  1. Estás coberto de razão neste teu cepticismo. Depois de ler o teu texto e de ver a aberração deste vídeo, lembrei de imediato a única “aula de preparação para o parto” a que assisti e onde se dizia que os “pais homens” verdadeiramente empáticos eram mesmo capazes de produzir leite nas suas glândulas mamárias. Ter filhos (ou não ter) é uma das partes da vida, só isso. Somos melhores pais se não formos só isso.

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