Essas músicas de Kinshasa que capturam uma energia cada vez mais escassa no Ocidente

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Enquanto que na Lisboa da velha Alfama agora tomada pelo consumo turístico massificado impera o ‘novo’ fado, que canta uma cidade que já não existe (mas que todos, muito esforçadamente, vão fingindo ainda existir) numa monótona e comercial celebração, tão típica desta sociedade do espectáculo, da aparência e da ilusão, em Kinshasa, capital do Congo, uma energia excessiva e inquietante flui pela música que aí é produzida como se não houvesse amanhã. Apesar da extrema pobreza, traduzida nos milhares de sem abrigo (que chegam a okupar cemitérios) e na trágica proliferação de favelas onde se propagam as doenças e os perigos sanitários mais variados, aí, na terceira maior área urbana de África, boa parte da música emana criatividade, vitalidade, espontaneidade e energia como em poucos outros lugares do mundo. E expressa esse cada vez mais raro dom humano de se imaginar e criar qualquer coisa de novo, que não seja uma mera repetição de uma herança ou de uma moda.

Em Kinshasa, são muitos os músicos que inventam artesanalmente os seus instrumentos com materiais reciclados, que improvisam amplificações eléctricas com distorção e misturam os inúmeros géneros locais/regionais (alguns explorando o minimalismo e o transe) que abrem a influências diversas (rumba, reggae, soul, rock, pop, electrónica, etc.). Deste modo, produzem sonoridades híbridas inovadoras  que despertam, por esse mundo fora, o interesse de muitos amantes de ‘world music’, rock experimental e música de dança electrónica, dando assim um contributo para redefinir a própria estética sonora que vigora na contemporaneidade. É justo referir igualmente que a arte possui aqui ainda esse nobre propósito (também político) de transformar, em vez de simplesmente reproduzir ou conservar, o presente, o imprevisível destino da vida em comum.

A produção musical de Kinshasa beneficia de uma vida de rua cada vez mais rara de encontrar na Europa: pessoas e gerações cruzam-se permanentemente na rua (já praticamente eliminada no Ocidente), onde uma importante economia informal tem lugar. As instituições do Estado e do Mercado não são aqui os únicos eixos por onde se desenrola a vida social que encontra ainda na festa um momento marcante do dia-a-dia. Enquanto em Lisboa o fado, tornado um Património Imaterial a preservar (herança a transmitir sem deformar), se dirige agora a uma pequena burguesia que, estando permanentemente obcecada com a sua segurança e estabilidade (trabalhar, casar, pagar a casa ao banco, comprar no Continente, passar as férias a olhar para uma piscina, dar um curso qualquer aos filhos, etc.), já não tolera que algo de anormal (leia-se de excitante) aconteça na sua vida e venha interromper o tão desejado marasmo, em Kinshasa a música é pura excitação, concebida como banda sonora para os inúmeros percalços de uma vida quotidiana atribulada, ultra-precária mas vibrante. Fica uma amostra, breve mas ilustrativa.


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About PDuarte

Historiador, jardineiro, horticultor. Vive na província. No tempo vago, que procura multiplicar de dia para dia, perde-se em viagens, algumas pelos montes em redor, outras pelos livros que sempre o acompanham. Prefere o vinho à blogosfera, a blogosfera ao Parlamento.

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